A importância do pensamento computacional em crianças e jovens

Raciocínio lógico, resolução de problemas, identificação de padrões, modelagem de processos: tudo isso desenvolve o gosto por aprender mais em alunos

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9:30 am - 11 de setembro de 2023
Crianças participam em atividade de aula de robótica em sua escola - Foto: Arno Mikkor/Creative Commons Crianças participam em atividade de aula de robótica em sua escola - Foto: Arno Mikkor/Creative Commons

Em uma famosa entrevista em 1995, Steve Jobs disse que “todos neste país deveriam aprender a programar um computador, pois isto ensina a pensar.” O cofundador da Apple foi visionário, pois dominar a tecnologia se tornou crucial em um mundo imerso nela. A explosão no debate e aplicações de inteligência artificial reacendeu o tema, pois fica cada vez mais claro que ela pode colocar pessoas e empresas em um patamar superior àquelas que não se aproveitam de seus recursos.

Mas o pensamento computacional transcende programar computadores. Na verdade, hoje podemos fazer usos incríveis das máquinas sem escrever uma linha de código. Essa maneira de raciocinar envolve a capacidade analítica de resolver qualquer tipo de problema, de identificar padrões, de modelar processos. Ela aprimora nossa capacidade de aprender e de pensar criativa e criticamente, mesmo sem nada digital.

Nas últimas décadas, muitas escolas tentaram implantar computadores no cotidiano escolar em iniciativas muitas vezes improdutivas. Até pouco tempo, muitas ainda tinham “aulas de informática” sobre Windows e Word. Isso já erra por segregar a “informática” a uma aula, ao invés de encará-la de maneira transversal nas disciplinas.

Agora nos aproximamos do momento em que as escolas precisarão implantar a Política Nacional de Educação Digital, que estabelece diretrizes e metas para a promoção da educação digital, instituída no dia 11 de janeiro pela lei 14.533/23. Resta saber se as escolas estão preparadas para isso.


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Não podemos esquecer que muitas dessas instituições no país não têm infraestrutura para isso, carecendo de computadores e acesso à Internet. Mas esse trabalho pode começar mesmo sem o lado digital.

“Se a gente trabalha isso desde cedo nas escolas, com crianças e jovens, a gente consegue uma geração que sabe pensar de um jeito melhor, mais estruturado”, explica Cristina Diaz, diretora da UpMat Educacional, empresa que atua na educação básica a partir de conteúdos de matemática e pensamento computacional. Para ela, as crianças que desenvolvem essas habilidades desde cedo têm mais chance de criar um gosto pelo aprendizado, que levarão para o resto da vida.

Uma resolução do MEC (Ministério da Educação), de 4 de outubro do ano passado, determina que, a partir do mês que vem, as escolas passem a ensinar computação. A lei de janeiro detalha como isso deve ser feito, considerando a inclusão digital da sociedade, a educação digital nas escolas, as ações de capacitação do mercado de trabalho e o incentivo à inovação, à pesquisa e ao desenvolvimento.

Se isso já não bastasse, o lançamento do ChatGPT em novembro passado provocou um enorme debate sobre como a inteligência artificial impacta as atividades escolares, com professores e alunos usando a ferramenta sem preparo. Coincidentemente, na quinta passada, a Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) publicou orientações sobre o uso da inteligência artificial na educação e na pesquisa. Nelas, o órgão sugere que a IA não seja usada antes dos 13 anos de idade.

Diaz não acredita que a inteligência artificial deixará as pessoas menos inteligentes ou preguiçosas, um temor que vem sendo ventilado por muita gente. O motivo é simples: “para manusear esse tipo de tecnologia, a gente vai ter que aprender coisas mais sofisticadas, uma leitura crítica, a utilizar competências superiores”, afirma.

De fato, uma ferramenta tão poderosa como a inteligência artificial generativa oferece os seus maiores benefícios àqueles que sabem tirar proveito dela, com perguntas inteligentes. Infelizmente, a recíproca também é válida.

Como diz um ditado americano, “se entra lixo, sai lixo”.

 

Aliada da educação

Ao contrário do que muitos temem, a tecnologia digital –e a inteligência artificial particularmente– não ameaça a educação ou o papel do professor. Pelo contrário, pode ser uma incrível aliada no processo, se bem usada.

Em uma palestra há quatro meses, Salman Khan, fundador e CEO da Khan Academy, uma organização que oferece educação gratuita pela Internet, demonstrou uma ferramenta de IA generativa que auxilia professores e alunos. Nela, é possível ver, no caso dos estudantes, a máquina não lhes dando respostas prontas e ajudando-os a pensar na solução dos problemas. Para os professores, a ferramenta ajuda no planejamento de aulas mais engajadoras. Como disse Khan, para os alunos, a IA atua como um tutor, enquanto, para os professores, age como um assistente.

Os professores, as escolas e as políticas educacionais precisam se modernizar para absorver essas mudanças aceleradas da sociedade. Ainda temos um sistema educacional conteudista, com uma quantidade de informação tão grande, que pode desestimular o aluno a querer aprender mais.

Isso se reflete nos péssimos resultados do Brasil nas diferentes avaliações internacionais de eficiência educacional. Nossos estudantes, na média, sabem muito pouco de linguagem, ciências e matemática. Essa última é particularmente maltratada em nosso país, cujas últimas gerações parecem não gostar dela por definição.

Mas como ser um bom cidadão em uma sociedade profundamente digital sem uma boa base de pensamento computacional?

Engana-se quem acha que isso impacta apenas habilidades ligadas às Exatas. Um pensamento computacional limitado afeta diretamente o senso crítico do indivíduo. Em um mundo em que redes sociais e smartphones se transformaram em ferramentas de dominação ideológica pelas infames fake news, nada é mais necessário e determinante para a criação de um cidadão consciente, com sua mente livre.

“As escolas já estão reconhecendo a sensação de que não tem para onde escapar, e não porque é uma demanda da lei, mas porque é uma demanda da sociedade, das crianças, das famílias, da vida”, acrescenta Diaz. “Ninguém fala em outra coisa: o mundo do trabalho depende disso!”

Pais e escolas precisam se unir para que as crianças sejam incentivadas a desenvolver seu pensamento computacional. A matemática e o raciocínio lógico não podem continuar sendo encarados como “coisas chatas”, pois são os alunos que dominam esses recursos que escreverão o futuro de um mundo melhor para si e para todos os demais.

 

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