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Capgemini: esperar que mercado forme profissionais inviabiliza crescimento

Empresas de tecnologia com planos de expansão acelerados no Brasil seguramente enfrentarão dificuldades para obter mão de obra. A unidade de Digital Services da francesa Capgemini não é exceção: são cerca de 750 vagas em aberto – e com expectativa de chegar ao fim de 2021 com uma necessidade de profissionais ainda maior.

“Se eu dissesse que não é um desafio não estaria sendo transparente. Mas acreditar que o mercado vai prover [esses trabalhadores] não vai nos permitir cumprir o plano”, diz ao IT Forum o diretor de experiência do consumidor digital da consultoria, Thiago Nascimento. “Nosso crescimento passa por ser uma empresa de carreira. Acreditamos que o profissional vai atingir aqui os objetivos que tem em médio e longo prazo. Não queremos que ele fique dois anos e vá para outra empresa.”

Como em um time de futebol, o executivo diz que a estratégia da empresa é apostar na “formação da base”. Isso significa recrutar profissionais com pouca ou nenhuma experiência e apostar em um “intenso treinamento”, que compreende tanto uma academia própria – a Capgemini Academy – como processos de certificação de fabricantes parceiros e mentorias. A partir daí eles entram no plano de carreira para crescimento próprio.

Dos cerca de 800 profissionais de tecnologia que a unidade digital da Capgemini tem atualmente no Brasil, entre 150 e 160 foram formados “na base”. “É como acreditamos nesse crescimento. O mercado está muito aquecido e poderíamos seguir nessa estratégia [de buscar talentos externos], mas entendemos que o grande diferencial é a capacidade de formar nossos profissionais”, explica Nascimento.

É claro que isso não significa que a empresa não contrate profissionais formados no mercado, inclusive porque talentos já desenvolvidos são necessários em muitos projetos, diz o executivo. Atrair esses profissionais passa inclusive por um “forte trabalho de mídia e branding” como forma de tornar a empresa atrativa e atrair talentos não só de base, mas também de “meio de pirâmide”.

Crescimento digital

A área de Digital Services da consultoria francesa foi inaugurada no Brasil em 2017. Quando Nascimento ingressou na companhia, em 2019, eram 140 profissionais nessa divisão – ou “prática”, como é nomeada internamento -, sendo 100 da própria Capgemini e outros 40 oriundos da Itelios, empresa adquirida globalmente. Atualmente são mais de 800, ou cerca de 470% de crescimento.

A área de digital representa 19% do negócio da Capgemini no Brasil, mas o executivo estima que essa participação será muito maior, refletindo um posicionamento da companhia que é global. O objetivo é chegar ao mesmo patamar da operação global, que é de 60%, e que compreende alguns pilares: experiência do cliente; insights & data; cloud computing; e cibersegurança.

“Essa é nossa meta no Brasil também. Vamos ser basicamente uma empresa que vai ajudar nosso cliente nessas grandes torres de transformação digital”, resume Nascimento. “Conseguimos olhar o ‘fim a fim’: simplesmente implementar um canal digital, mas expondo os dados, não gera valor, gera risco.”

Leia mais: Investimentos globais em TI saltarão 9% este ano, aponta Gartner

As principais ofertas de Digital Services no Brasil estão dividas em Customer Experience e Insights & Data. Enquanto a primeira se dedica principalmente a projetos de marketing, com foco em vendas (principalmente usando Salesforce e soluções de e-commerce), é sobre a área de dados que repousa a principal estratégia de crescimento para 2021. A maior parte das contratações são voltadas para os times de Analytics e Data Science, diz o executivo.

“Poucas empresas nasceram totalmente organizadas do ponto de vista de dados. É uma grande minoria. Muitas ainda precisam de um trabalho de fundação de dados, organizar os dados para começar a gerar insights”, explica Nascimento, demonstrando onde estão boa parte das oportunidades de negócio. A estratégia da empresa inclui toda a jornada de dados, desde a engenharia até a predição.

É uma jornada, diz ele, que não é igual para todos os clientes: parte deles não precisam chegar ao estágio da predição se o negócio não demandar. “Esse trabalho consultivo é para entender o grau de maturidade do cliente e até que estágio ele tem que ir. Mas garantindo que tenha retorno desde os primeiros ciclos de produção do projeto”, explica o diretor. “Acreditamos que é o grande valor que vamos levar ao mercado nos próximos anos.”

Esse valor passa em última instância por inteligência artificial, seja em chatbots de atendimento ou em soluções analíticas para tomada de decisões. Um time especializado em IA atua dentro da divisão de Data Science da empresa, focado principalmente em modelos cognitivos. É um trabalho também aplicado em outras áreas da unidade de Digital Services.

Pandemia e futuro

Grande parte do aumento de demanda por projetos digitais observado pelo executivo diz respeito à transformação digital forçada pela pandemia. A necessidade de canais digitais, principalmente a partir do segundo semestre de 2020, motivou muitas iniciativas. Soluções de e-commerce, mobile, portais e marketing digital, entre outras, foram necessárias para que as empresas conseguissem falar com os clientes em isolamento social.

“Isso nos impulsionou. Praticamente não crescemos no primeiro semestre, e em julho crescemos novamente e batemos [as metas]”, lembra Thiago Nascimento.

Leia também: Em 2021, contratações em tecnologia já se aproximam do nível pré-pandemia

A grande demanda da primeira fase da pandemia, recorda, foi ajudar os clientes a estabelecerem estratégia de canais digitais ou e-commerces. Também cresceu a demanda por soluções de omnicanalidade, ou seja, que unificam a experiência de compra dos clientes independentemente de que canais digitais usem.

Com a crise do COVID-19 caminhando para um desfecho (ou ao menos assim se espera), a expectativa do diretor é que a demanda por soluções cresça “independente do tempo em que continuemos na pandemia”. “Até com base nos estudos do nosso instituto de transformação digital. A partir do momento em que virou prioridade é um processo contínuo”, explica Nascimento.

A expectativa da Capgemini é chegar a mil profissionais até o fim de 2021 – embora o diretor acredite que isso ocorra antes.

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