Afinal, quem é o mais estúpido?

A repercussão dos resultados
Querendo ou não, o Internet Explorer ainda é o líder do mercado de navegadores. Os dados fornecidos pela Wikipedia para junho de 2011 o apontam como detentor de 41% do mercado, seguido pelo Firefox com 29% e pelo Chrome, com 18% (o Opera, que a pesquisa da AptiQuant apontou como sendo usado pelos mais inteligentes, parece mesmo ser adotado pela “crème de la crème” dos usuários, a elite absoluta, pois se situa em último lugar entre os navegadores para dispositivos fixos, detendo menos de 3% do mercado que, não obstante e à julgar pela pesquisa, são os 3% do topo).
Resultados como estes, sob a chancela de uma instituição com a seriedade de uma AptiQuant, causaram um alvoroço danado tanto entre os usuários quanto, sobretudo, entre os críticos e detratores do programa. E a repercussão foi intensa seja na imprensa escrita seja na Internet, rádio e televisão. Afinal, um relatório que conclui que o programa navegador mais utilizado pelos internautas é usado por detentores do quociente intelectual mais baixo entre seus pares é notícia, seja qual for o critério adotado. E, como tal, foi fartamente noticiado.
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Dados da imprensa escrita não tenho e, quanto à Internet, posso fornecer alguns URLs mas os que os visitarem perceberão ? pelas razões que adiante se tornarão claras ? que ou foram tirados do ar ou, os mais honestos, foram precedidos por uma advertência. Mas, segundo a CNN (que também veiculou os resultados da pesquisa), a notícia mereceu destaque na respeitabilíssima BBC, na não menos respeitável CNet, no vetusto London Daily Mail e no não menos vetusto The Telegraph (veja Figura 3). Como também foi veiculada, vejam vocês, pela NPR (National Public Radio, uma espécie de “Rádio Ministério da Educação” americana, só que com programas que interessam à maioria da população; veja Figura 4) ? embora com uma boa dose de bom humor, como se percebe pelo título de sua chamada na Internet: “Study Suggests Internet Explorer Users Are, Um, Kind Of Slow” (Estudo sugere que quem usa o Internet Explorer e, hum… assim meio devagar) .
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Ainda segundo a CNN, até mesmo o mais que respeitável Forbes, cujo mote é “Home Page for the World´s Business Leaders” e se dedica a sisudas análises de tendências do mercado financeiro, abriu espaço para comentar o relatório da AptiQuant ? embora hoje não se encontre no sítio sequer vestígios disto.
Alguns trataram a questão seriamente, como o Telegraph, com notícia cujo título era “Internet Explorer users ?have below-average IQ?“, colocando a afirmação “têm QI abaixo da média” entre aspas para deixar claro que se tratava de citação (Figura 3). Ou o Global Post (veja Figura 5), um sério sítio de notícias internacionais, cuja manchete era “Internet Explorer users have below-average IQ, survey says“, com um cauteloso “survey says” (“afirma a pesquisa”) no final para indicar que a afirmação de que “os usuários do IE têm um QI abaixo da média” era feita pelos responsáveis pela pesquisa e eles estavam apenas veiculando. É verdade que no subtítulo pegaram pesado ao se dirigirem diretamente ao leitor perguntando: “Are you an IE 6 user? Then chances are, you”re an idiot ? at least according to a new survey matching IQ with choice of web browser” (Você é um usuário do IE6? Então há boas possibilidades de que você seja um idiota ? pelo menos de acordo com uma nova pesquisa associando o QI com a escolha de um programa navegador). E eu gostaria de saber qual a reação do autor desta pergunta, diante dos desdobramentos da notícia, ao constatar que há boas possibilidades que ele seja um idiota ? pelo menos de acordo com os critérios do que vem a ser o bom jornalismo.
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Já outros foram cautelosos, como o Guardian, do Reino Unido (veja Figura 6), uma respeitabilíssima publicação que comentou o relatório da AptiQuant com o subtítulo “Can it really be true that users of Internet Explorer are stupider than average?” (Pode realmente ser verdade que os usuários do Internet Explorer são mais estúpidos que a média?”), talvez prenunciando os acontecimentos futuros.
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Outros ? particularmente os sítios frequentados e editados pelos que se julgam “entendidos” em informática e detentores de seus sagrados mistérios, como o The Register (Figura 7), foram claramente irônicos, evidenciando o prazer que sentiam com a confirmação “oficial” de algo que, segundo acreditavam, eles mesmos já sabiam há muito tempo: “Its official: IE users are dumb as a bag of hammers” (“Agora é oficial: usuários do IE são burros como uma porta”; e aqui vai uma liberdade do tradutor, já que a expressão idiomática “dumb as a bag of hammers” equivale à brasileira “burro como uma porta”). E acrescentam, com indisfarçável gáudio, no subtítulo: “100,000 test subjects can”t be wrong” (“os resultados de cem mil testes não podem estar errados”). Como toda vez que leio uma afirmação deste teor em algum lugar não consigo evitar a lembrança da velha frase: “Eat shit! Eighty billion flies can´t be wrong” ? que não posso traduzir senão o programa censor cortará, acho que ela cabia perfeitamente no contexto. E não posso deixar de cogitar se seu autor classificaria como “dumb as a bag of hammers” o jornalista de um sítio de grande afluência de visitantes, como o The Register, que noticia algo com estardalhaço somente porque lhe agrada o conteúdo da suposta notícia sem averiguar sua autenticidade.
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Em suma, o reboliço foi grande. Houve de tudo. Houve até quem copiasse o título e “adaptasse” o texto de outro, como o Sitepoint, mostrado na Figura 8, cuja chamada era: “It?s Official: IE Users Have a Lower IQ!” (Agora é oficial: usuários do IE têm um QI mais baixo! ? com ponto de exclamação e tudo).
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Mas o pior foi o fato de que um grupo de “leais” usuários do IE ameaçou processar a AptiQuant por haver realizado e publicado a pesquisa.
Pô, assim eles acabam confirmando o relatório…
