A web não vai morrer, viu Elis?

O artigo de Chris Anderson
Todo o artigo de Chris Anderson? que quem se interessar pode ler na íntegra na edição de agosto da revista publicada na web ? se baseia na interpretação dos dados que constam do gráfico da Figura 1, obtido no sítio da Wired e que, quem desejar, pode consultar diretamente na fonte.
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Para começar: o título é exagerado. Propositalmente exagerado para atrair leitores (e, infelizmente, alguns comentários apressados do tipo “a web jamais morrerá”) e o autor sabe disso. Tanto sabe que afirma, lá pelo final do artigo, naquele trecho precedido de um “continuação da página tal” que os apressados raramente leem: “Ecommerce continues to thrive on the web and no company is going to shut its Web site as an information resource… The wide-open web or peer production… where everyone is free to create what they want, continues to thrive…” (“O comércio eletrônico continua prosperando na web e nenhuma companhia fechará seu sítio de informações sobre seus recursos… A web livre e aberta à produção individual… onde qualquer um pode criar o que bem quiser, continua a florescer”). Portanto, apesar do título chamativo e de gosto duvidoso, Chris Anderson sabe que a web não morreu, provavelmente jamais morrerá e deixa isto claro no texto do artigo. Assim como a Elis em suas colunas, a começar pela precavida interrogação bem no título da primeira, além de menções no próprio texto. Como esta: “Ora, será que ele está dizendo que os websites vão acabar? Mas quanta audácia! É claro que não, esta é a resposta“.
Portanto as reações indignadas que se encontram em alguns comentários às colunas da Elis são inteiramente descabidas.
O que Chris Anderson afirma, sempre baseado nas conclusões que se pode tirar do gráfico da Figura 1, é que a web está definhando e tende a definhar ainda mais.
Mas para entender o que ele quer dizer com isto, antes é preciso compreender o que ele chama de “web” e qual a diferença entre “web” e “Internet”.
Pelo que pude constatar no artigo, a interpretação de Chris sobre o que é Internet coincide com a definição da Wikipedia (em inglês): “The Internet is a global system of interconnected computer networks that use the standard Internet Protocol Suite (TCP/IP) to serve billions of users worldwide. It is a network of networks that consists of millions of private, public, academic, business, and government networks of local to global scope that are linked by a broad array of electronic and optical networking technologies. The Internet carries a vast array of information resources and services, most notably the inter-linked hypertext documents of the World Wide Web (WWW) and the infrastructure to support electronic mail.” (A Internet é um sistema global de redes de computadores interligadas que usam o protocolo padrão TCP/IP para atender bilhões de usuários em todo o mundo. É uma rede de redes que consiste de milhões de redes de escopo local ou global, públicas, privadas, acadêmicas, comerciais ou governamentais, entrelaçadas em uma ampla estrutura que emprega diferentes tecnologias eletrônicas e óticas para se interligar. A Internet transporta um vasto conjunto de recursos de informação e serviços, notadamente os documentos interligados por hipertexto que formam a rede de alcance mundial [NT: web] WWW e a infraestrutura para permitir o tráfego de correio eletrônico”).
Como se vê, a própria definição da Wikipedia distingue o que é Internet do que é web, descrevendo esta última como um conjunto de documentos interligados por hipertexto. Ou, como Chris deixa claro em seu artigo (e a Elis traduz e transcreve em sua coluna:) naquilo que “acessamos via browser, arquivos entregues em formato HTML através do protocolo HTTP, na porta 80“.
Portanto só confunde quem quer ou não consegue entender a diferença entre o meio de transporte (internet) e aquilo que é transportado (mensagens de correio eletrônico, informações trocadas entre aplicativos instalados em máquinas diferentes, vídeo em tempo real ou “streaming“, arquivos transferidos diretamente de máquina para máquina, chamadas de voz e vídeo via programas tipo Skype, Google Talk ou Windows Live Messenger, jogos online jogados diretamente sem o concurso do programa navegador e, além e a parte de tudo isto, visitas a sítios da rede feitas com o auxílio do programa navegador, esta última atividade ? e apenas ela ? considerada por Chris como “a web”).
[[ADENDO: Este parágrafo foi acrescentado depois da coluna ter sido postada. Embora mencionado aqui e ali, não foi dada a ênfase devida ao fato de que o gráfico da figura 1 exprime as proporções relativas do tráfego devido a cada item. Como este tipo de gráfico é relativamente comum, não me pareceu necessário destacar este aspecto. Errei, e os comentários demonstram cabalmente que errei feio. Então, ao interpretar o gráfico, leve em conta que, embora a linha relativa à porcentagem devida ao tráfego da web indique uma evidente queda, pode ser que em números absolutos ele esteja aumentando, já que o gráfico mostra apenas a porcentagem do tráfego total. Mas isto não invalida as conclusões do artigo de Chris Anderson nem da coluna. Basta reparar que, hoje, tanto a web quanto os aplicativos (que não demandam tráfego “pesado”) consomem a mesma porcentagem do tráfego total (23% cada). O fato de o tráfego dos aplicativos que transmitem vídeo consumir hoje mais da metade do tráfego total (51%) pode ser explicado pela grande quantidade de dados transportados por este tipo de aplicativo, mas mesmo abstraindo esta “fatia”, há que se notar que, proporcionalmente, o tráfego devido aos aplicativos “peer-to-peer” “empatou” com aquele devido à web. É isto que Chris Anderson destaca ? e a coluna comenta ? e trata-se de um fato relevante ainda que, em números absolutos, ambos possam estar crescendo ao longo do tempo e não diminuindo como uma interpretação apressada do gráfico pode levar a crer. Sugiro obter mais esclarecimentos nos comentários a esta coluna ]].
Voltando ao artigo de Chris Anderson: o que ele afirma é que, a partir do ano 2000, enquanto o tráfego exclusivamente devido à web está diminuindo, cresce aquele gerado em virtude da disseminação de todas as atividades listadas no parágrafo anterior e que não fazem parte da “web” segundo o conceito antes definido. Só isto.
E, quem duvidar, basta olhar novamente para a Figura 1 (que, a título de esclarecimento, é restrita ao tráfego em território americano). Incidentalmente: a área rosada que cresce aceleradamente na última década e rotulada “vídeo” não corresponde, como creem alguns autores de apressados comentários, ao tráfego gerado pela transmissão de arquivos de filmes através de redes especializadas neste tipo de pirataria, mas sim ao tráfego gerado por empresas como a Netflix americana, que transmitem o vídeo para ser assistido na hora (e não transferem seu arquivo) usando a Internet como meio suporte.
