A lua sumiu. E agora?

O nascimento da vida
Antes do “impacto gigantesco” que, segundo a teoria mais aceita, resultou no nascimento da Lua, a Terra girava muito mais depressa em torno de seu eixo. Tão depressa que executava uma volta completa em apenas cinco ou seis horas.
Quando a Lua se formou, as coisas mudaram radicalmente. Para começar, a translação da Terra (ou seja, o movimento que ela executa em torno do sol ao longo de uma órbita ligeiramente elíptica que dura pouco mais que 365 dias e seis horas) deixou de ser feita por seu centro de gravidade e passou a sê-lo pelo centro de gravidade dos dois corpos celestes, Terra e Lua (o que faz com que alguns astrônomos considerem que Terra e Lua constituem um planeta duplo e não um planeta e seu satélite).
Mas a classificação não importa. O que importa é o efeito que esta dualidade gerou sobre a Terra.
Para começar, a presença da Lua exerce um formidável efeito giroscópico que desacelera e estabiliza a rotação da Terra. E isso merece um comentário à parte.
Para quem não sabe: “giroscópio” é um dispositivo que mantém sempre a mesma orientação baseado no princípio de conservação do movimento angular (em virtude do qual uma massa, depois de animada por um dado movimento de rotação, tende a manter inalterada a orientação do eixo de rotação e resiste a forças que procuram alterar a posição deste eixo). Uma explicação completa do fenômeno pode ser encontrada no verbete “Gyroscope” da edição em inglês da Wikipedia (e mesmo que você não leia inglês, recomendo uma consulta ao verbete porque, se você rolar a página para baixo, verá duas elucidativas animações que ilustram o conceito). Além dela, duas interessantíssimas demonstrações do efeito giroscópico podem ser vistas nos vídeos “What is a Gyroscope” e “Gyroscope” do YouTube. Mesmo que você não seja angloparlante vale a pena assistir os vídeos, já que o que importa é ver o fenômeno em funcionamento (no segundo vídeo aparece uma animação mostrando o uso dos giroscópios na orientação de aeronaves e robôs). Incidentalmente: àqueles que gozaram os prazeres da infância há mais de cinquenta anos eu diria que a melhor forma de ilustrar o efeito giroscópico e o conceito de “precessão” é jogar pião, mas na era dos videogames dificilmente se encontrará um espécime humano que saiba o que é “jogar pião” (para quem não está ligando o nome ao objeto, aqui está, na Figura 2, foto de minha autoria “tirada” agora mesmo, um pião de minha coleção de guardados, já com sua “fieira” enrolada e pronto para o lançamento; se eu não tivesse “perdido a mão”, fotografá-lo-ia em pleno esplendor de seu movimento de rotação, com precessão e tudo o mais).
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Pois bem: sem a Lua para retardar e estabilizar a rotação da Terra o dia teria seis horas de duração. A atmosfera, se existisse, seria tão turbulenta que o que chamamos hoje de tufões seriam ventos corriqueiros. E isto não é exagero, é fato comprovado: o planeta Júpiter, um gigante que também tem atmosfera gasosa, completa seu movimento de rotação em dez horas. Lá, furacões e tufões são tão violentos e duram tanto tempo (séculos, em medida do tempo terrestre) que a erosão eólica é a principal responsável pela modelagem de sua superfície. Seria difícil a formação de vida em um ambiente assim, e caso fosse formada seriam organismos totalmente diversos dos que são hoje encontrados na Terra. Inclusive a espécie humana, ça va sans dire.
Mas não é só isso. O mais evidente efeito da Lua sobre o que ocorre na Terra, como sabemos todos, são as marés. Elas devem seu ciclo à atração conjunta da Lua e do Sol (este em muito menor escala) sobre a massa d?água dos oceanos. É claro que esta atração não move apenas a água: também o magma, no interior da crosta terrestre, se movimenta por efeito da atração lunar, o que causa uma deformação cíclica da esfera terrestre e faz com que a crosta se mova horizontalmente sobre o magma. Um movimento mínimo, é claro, mas suficiente para provocar fricção e contribuir para a formação e existência das grandes placas tectônicas e seus movimentos relativos.
Mas se hoje as marés são tão importantes para a vida na Terra, imagine seus efeitos há quatro bilhões de anos quando, como vimos na coluna anterior, ela estava “logo ali”, a vinte ou trinta mil quilômetros de distância. Naqueles dias as marés eram mil vezes maiores e em vez de fazer o nível dos oceanos variar poucos metros causavam uma variação de alguns quilômetros (não esqueça: a atração gravitacional é proporcional não apenas à massa, mas também ao quadrado da distância entre os corpos e uma redução pequena na distância provoca uma grande variação na força de atração).
Foram estas marés gigantescas que ajudaram a criar as condições ideais para o surgimento da vida. As águas, em seu violento ir e vir, arrancavam pedaços imensos das camadas externas da crosta terrestre e as levavam para o oceano, diluindo e dissolvendo os mais diferentes compostos. Foi esta ação que formou “sopa primordial”, um líquido riquíssimo em minerais que, com as faíscas elétricas dos raios, tornou possível a formação de compostos orgânicos como aminoácidos. De aminoácidos vieram as proteínas e foram elas que formaram as primeiras células vivas nas gigantescas lagunas deixadas para trás nas formidáveis vazantes das imensas marés de antanho.
Estas lagunas foram o ambiente ideal para que a vida se formasse e se adaptasse ao ambiente terrestre, pois sua existência obedecia ao ciclo das marés: enchiam e secavam, alternando o ambiente de forma a torná-lo propício ao surgimento das formas de vida mais primitivas (segundo a ciência moderna, a vida nasceu na água). E foi ainda esta alternância que forçou estes seres aquáticos a se adaptarem gradualmente a um ambiente seco criando artifícios para nele sobreviverem ? por exemplo: pernas.
Ainda hoje a existência ? e, sobretudo, a regularidade ? das marés exerce influência decisiva sobre a evolução das espécies de vida no planeta. Nas áreas afetadas pelas marés se desenvolveram espécies que somente poderiam sobreviver ali. Um exemplo notável de ecossistema que não existiria sem as marés são os manguezais, formidáveis reservatórios de vida e processadores de alimento para o homem e uma infinidade de espécies marinhas e terrestres (apesar das tentativas do homem “civilizado” que, por séculos a fio, procura “saneá-los”, aterrando ou destruindo-os para se livrar de sua lama nojenta e aparentemente insalubre).
Mas o que importa, cavalheiros, é que sem a Lua não existiríamos. Nem nós nem nenhum ser vivo neste planeta.
