A lua sumiu. E agora?

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3:24 am - 23 de agosto de 2010

A inclinação do eixo

Pois voltemos ao efeito giroscópico. Você assistiu aos vídeos? Se não, volte lá e assista pelo menos ao segundo. E, se não der mesmo, então examine novamente a Figura 1, capturada justamente deste vídeo. E repare como o eixo em torno do qual o giroscópio efetua sua rotação permanece estranhamente inclinado em relação ao plano horizontal ? e não obstante isso, o giroscópio permanece girando e mantendo-se sobre seu apoio em um misterioso equilíbrio. Pois tanto este equilíbrio quanto a inclinação do eixo devem-se ao “efeito giroscópico”. O mesmo efeito que mantém a inclinação do eixo da Terra em relação ao plano da eclíptica em um valor constante de 23,45º .

Complicou? Pois expliquemos.

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A terra executa uma volta completa em torno do Sol em um ano. Ela faz isso percorrendo uma órbita fechada com formato de uma elipse bastante arredondada que tem o Sol em um dos focos. A elipse é uma curva plana, ou seja, pode ser contida em um plano (para entender a diferença: o trajeto de um carrinho de uma montanha russa, por exemplo, não é uma curva plana). Pois bem: em qualquer ponto do deslocamento da Terra ao longo de sua órbita elíptica, ela, a própria órbita e o Sol estão contidos em um mesmo. Este plano chama-se “plano da eclíptica” e está assinalado na Figura 3 (já veremos o porquê do nome).

A Lua, por sua vez, também gira em torno da Terra. Ela, sua órbita e a Terra também definem um plano. Só que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, este plano não é o mesmo da órbita da Terra e nem é o mesmo do equador. O plano da órbita da Lua é inclinado em relação ao da eclíptica, formando um ângulo de cinco graus. E é justamente isso que dá o nome ao plano da eclíptica: somente poderá ocorrer um eclipse quando a Lua, em seu movimento, atravessar este plano. Enquanto ela se mantiver fora dele, por mais que gire e passe entre a Terra e o Sol, jamais estarão sobre a mesma linha e a Lua não poderá projetar sua sombra sobre a Terra. Para que haja um eclipse é preciso que Lua, Sol e Terra estejam no mesmo plano e este plano é o da eclíptica, de onde Sol e Terra jamais saem.

A Terra também gira em torno de si mesma. Na verdade, a Terra gira em torno de um eixo, uma linha ideal que a atravessa pelos polos. Também ao contrário do que muita gente pensa, esta linha (o eixo de rotação da Terra) não é perpendicular ao plano da eclíptica (se fosse, a interseção entre o plano da eclíptica e a Terra coincidiria exatamente com o equador). O eixo da Terra mantém uma inclinação em relação ao plano da eclíptica de exatos 23,45º como mostra a Figura 3 (na verdade este eixo não permanece sempre paralelo a si mesmo; devido a um fenômeno denominado “precessão dos equinócios”, ele executa um movimento como se deslizasse sobre a parede de um cone, um movimento similar ao executado pelo eixo de um pião ? ou de um giroscópio ? que completa uma rotação a cada 26 mil anos, mas a diferença ano a ano é tão pequena que podemos considerar que o eixo se mantém sempre em uma posição paralela a si mesmo ao longo do tempo).

Pois bem: é esta inclinação do eixo da Terra, juntamente com a translação da Terra em seu giro em torno do Sol, a responsável pela repetição incessante do ciclo das estações do ano. É esta inclinação que faz com que o sol ilumine “de frente” (ou seja, perpendicularmente) regiões diferentes do planeta ao longo do movimento de translação da Terra, fazendo com que, naquela época, seja verão naquele hemisfério e inverno no outro. É esta inclinação que faz com que a duração do período diurno seja maior no verão (quando o hemisfério está “de cara” para o Sol) que no inverno (quando o sol bate nele meio “enviesado”). É ela que faz com que o “dia” e a “noite” somente durem cada um doze horas exatas duas vezes por ano, nos chamados equinócios (ou seja, “equi“, igual, “nocti“, noite, dia igual à noite) da primavera e do outono.

Esta inclinação poderia variar?

Sim, claro que poderia. Marte, por exemplo, também é animado dos movimentos de translação (girando em sua órbita solar) e rotação (girando em torno de um eixo imaginário).  A diferença entre as rotações da Terra e de Marte é que o eixo de rotação de Marte não mantém sempre a mesma inclinação em relação ao plano de sua órbita. Ao contrário: se inclina para um lado e para outro como o de um pião ? porém sem manter a regularidade mantida pelo pião. O eixo de Marte é vacilante como o andar de um bêbado. E vacila tanto, e tanto se inclina, que seu ângulo em relação ao plano da órbita sofre mudanças radicais. Tão radicais que volta e meia seus polos (locais onde o eixo imaginário de rotação atravessa sua superfície) se movimentam até chegar muito próximos do plano da órbita. E depois retornam para longe dele. E o pior é que nem ao menos o um movimento regular: por vezes é muito lento, outras extremamente rápido.

O que aconteceria se isso ocorresse com a Terra? Bem, quando a inclinação do eixo fosse muito grande e os polos se aproximassem do plano da eclíptica, todo o gelo dos polos se derreteria, o nível dos oceanos subiria, inundando imensas regiões. Depois, toda esta água voltaria a se consolidar e, dependendo do grau de inclinação e da rapidez em que ela se alterasse, poderia cobrir de gelo todo o planeta. E em outras ocasiões a maior parte da água dos oceanos se vaporizaria.

Em um planeta assim, se houver formas de vida, as mudanças climáticas irregulares fariam com que fossem totalmente diferentes daquelas que existem na Terra, com suas estações que se sucedem e regularmente. Foi esta sucessão regular que permitiu a evolução de espécies como a nossa, organismos multicelulares extremamente complexos e delicados. Em um planeta em que o eixo de rotação se movimenta irregularmente, somente sobreviveriam formas de vida muito simples e extremamente resistentes a alterações ambientais drásticas.

Mas e o que tem isso a ver com a Lua?

Tudo a ver: pode ser demonstrado matematicamente que, não fosse a presença estabilizadora da Lua e seu efeito giroscópico, a inclinação do eixo da Terra em relação ao plano da eclíptica variaria ampla e irregularmente de zero a noventa graus, mais ou menos como em Marte.

Isto derreteria o gelo nos polos, tornaria o ciclo das estações imprevisível e irregular e, certamente, extinguiria a maioria das espécies mais complexas, que dependem da regularidade dos ciclos sazonais para sobreviver.

Mais uma vez, está demonstrado: sem a Lua, não existiríamos.

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