Os impactos da IA na capacidade cognitiva

O avanço da IA impõe um novo desafio à sociedade: aproveitar seus benefícios sem comprometer a capacidade de aprender e refletir criticamente

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Profissional trabalhando em notebook em escritório corporativo, realizando análise de informações e planejamento estratégico. Imagem relacionada a habilidades cognitivas, produtividade, desenvolvimento profissional, tomada de decisão e desempenho no ambiente empresarial. (cognitiva)
Imagem: Shutterstock

Por Rogério Baldauf,

A inteligência artificial está transformando a forma como aprendemos, trabalhamos e acessamos informações. Ao mesmo tempo em que amplia a produtividade e democratiza o conhecimento, a tecnologia também levanta questionamentos sobre seus possíveis impactos na capacidade cognitiva, no aprendizado, na criatividade e na retenção do conhecimento.

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Eu, que nasci na era analógica, recorria a livros e bibliotecas para pesquisar qualquer assunto. Depois vieram a internet e os mecanismos de busca, que revolucionaram o acesso à informação. Hoje, com a IA generativa, análises e respostas complexas estão disponíveis em segundos por meio de interfaces conversacionais.

Os benefícios são evidentes. No entanto, também surgem questionamentos sobre os efeitos desse novo modelo de interação na forma como aprendemos e construímos conhecimento.

Um estudo conduzido pelo Media Lab do MIT (Massachusetts Institute of Technology) reuniu 54 participantes entre 18 e 39 anos e os dividiu em três grupos: um utilizou o ChatGPT, outro contou com o apoio do Google e o terceiro realizou uma atividade de escrita sem qualquer suporte externo.

Os resultados indicaram que o grupo sem apoio externo apresentou maior engajamento cognitivo e maior atividade neural em regiões associadas à memória, linguagem, funções executivas e criatividade. Também demonstrou maior retenção do conteúdo produzido e maior senso de autoria sobre os textos.

Já os participantes que utilizaram o ChatGPT apresentaram menor engajamento cognitivo e menor capacidade de recordar posteriormente o conteúdo elaborado. O estudo observou ainda uma redução progressiva da conectividade cerebral à medida que aumentava o grau de suporte externo utilizado na atividade.

Sabemos que a neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se adaptar e se modificar por meio da experiência. Quanto mais esforço cognitivo aplicamos, maior tende a ser o fortalecimento das redes neurais envolvidas. Nesse contexto, os resultados servem como um alerta: o uso excessivamente passivo da IA, sem reflexão crítica ou reformulação das informações recebidas, pode reduzir a retenção de conhecimento e limitar o desenvolvimento de habilidades analíticas ao longo do tempo.

Vale destacar, porém, que o desafio não está necessariamente na ferramenta, mas na forma como ela é utilizada. Quando empregada para estimular questionamentos, ampliar perspectivas, revisar argumentos ou acelerar tarefas operacionais, a inteligência artificial também pode contribuir positivamente para a aprendizagem e a produtividade.

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Essa preocupação não aparece apenas em um único estudo. O artigo acadêmico The Role of AI in Academic Writing: Impacts on Writing Skills, Critical Thinking, and Integrity in Higher Education analisou 20 pesquisas sobre os efeitos da IA na escrita acadêmica e no pensamento crítico. As conclusões apontam que, embora a tecnologia possa melhorar a qualidade dos textos e aumentar a eficiência, seu uso excessivo pode reduzir o engajamento cognitivo profundo e comprometer determinadas habilidades no longo prazo.

Mas os impactos da tecnologia não se limitam à esfera cognitiva. À medida que passamos mais tempo interagindo com ferramentas digitais, cresce também o debate sobre seus efeitos nas relações humanas e no bem-estar emocional.

Esse é um tema que tem mobilizado pesquisadores de diferentes áreas. Entre eles está Gabor Maté, médico reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre desenvolvimento humano e os impactos do trauma na saúde física e mental. Em palestras recentes, ele tem argumentado que problemas contemporâneos como a depressão, ansiedade, TDAH e problemas de aprendizado podem estar relacionados, entre outros fatores, às transformações provocadas pelo ambiente digital.

Isso é especialmente provável em um contexto no qual conversas, encontros familiares e interações profissionais passam a ser mediados pela tecnologia. Essa realidade tem levado governos, empresas e instituições a buscar formas de fortalecer os vínculos sociais.

Na Suécia, por exemplo, a solidão passou a ser tratada como um importante desafio de saúde pública. Diversas iniciativas têm sido discutidas para estimular a convivência social e fortalecer as conexões humanas, reconhecendo que o bem-estar emocional depende também da qualidade dos relacionamentos.

O tema também tem chamado a atenção das organizações. Cada vez mais empresas investem em programas de bem-estar, incentivo à atividade física e iniciativas que promovam interação social e senso de pertencimento.

A relação com a tecnologia é, em essência, uma via de mão dupla. Podemos e devemos aproveitar os ganhos de eficiência, acesso à informação e produtividade que ela proporciona. Ao mesmo tempo, precisamos evitar a dependência excessiva e preservar aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir integralmente: nossa capacidade de pensar criticamente, aprender de forma profunda e construir relações humanas significativas.

Somos seres sociais por natureza. Talvez um dos maiores desafios da era da inteligência artificial seja encontrar o equilíbrio entre aproveitar o potencial das máquinas e continuar desenvolvendo aquilo que nos torna genuinamente humanos.

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Sobre o Autor

Rogério Baldauf é diretor-superintendente da Schmersal Brasil, empresa referência em Ex, sistemas de segurança e automação industrial. Engenheiro de formação, possui ampla experiência em gestão industrial, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento de negócios na América Latina.

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