“ESG e IA devem caminhar de mãos dadas”, diz CEO da Arklok

Após três tentativas, empresa de outsourcing de TI conquista certificação de Empresa B e entra em grupo de cerca de 340 companhias no Brasil

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André Matos, CEO da Arklok
André Matos, CEO da Arklok. Imagem: Divulgação

A Arklok, empresa brasileira de outsourcing de infraestrutura de TI, obteve em junho a certificação de Empresa B, concedida pelo Sistema B a companhias que comprovam altos padrões de desempenho social, ambiental e de governança. A conquista veio na terceira tentativa, após um processo que consumiu mais de 12 meses entre preparação e auditoria, e coloca a empresa em um grupo de cerca de 340 companhias certificadas no Brasil, universo que reúne nomes como Natura, Danone Brasil e Dengo.

A escassez do selo dá a dimensão da conquista: o País tem mais de 25 milhões de CNPJs ativos. No setor de tecnologia, em que os compromissos ESG costumam ficar restritos a relatórios e campanhas institucionais, poucas empresas se submetem à avaliação externa exigida pela certificação.

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“Foi a nossa terceira tentativa. Esse movimento vem desde 2023, quando a companhia iniciou um processo de profissionalização e governança para escalar com mais maturidade”, conta o CEO da Arklok, André Matos, em entrevista exclusiva ao IT Forum. A primeira investida, em 2023, terminou com nota 79,2, abaixo da barra mínima de 80 pontos. Em 2024, a empresa ficou em 78. Na rodada vitoriosa, deu entrada com 89 pontos e, após os descontos da auditoria, fechou em 81,7.

Nove áreas, 214 questões e auditoria externa

O questionário do Sistema B reúne 214 questões distribuídas em cinco pilares: Governança, Trabalhadores, Comunidade, Meio Ambiente e Clientes. Na Arklok, a preparação começou em maio de 2025 e mobilizou nove áreas, do comercial ao jurídico, passando por compras, logística, operações, RH, segurança da informação, marketing, financeiro e facilities. A entrada formal ocorreu em outubro; a auditoria, conduzida por avaliador externo, se estendeu até junho de 2026. Mais de 45 questões foram auditadas e a empresa enviou mais de 75 documentos como evidência.

O pilar de melhor desempenho foi Trabalhadores, que avalia segurança e saúde ocupacional, segurança financeira, desenvolvimento de carreira e engajamento dos colaboradores. Governança veio em segundo lugar, resultado de práticas como o Código de Ética e Conduta aplicável a toda a cadeia de relacionamento, um canal independente de denúncias e uma política estruturada de proteção de dados. Meio Ambiente e Comunidade completaram os destaques, com o gerenciamento de emissões de gases de efeito estufa, a economia circular e as ações sociais voltadas a diversidade, impacto econômico local e gestão responsável de fornecedores.

Para Matos, a agenda é indissociável do modelo de negócio. A Arklok aluga equipamentos de tecnologia, como notebooks, desktops e dispositivos móveis, para empresas, no formato de Hardware as a Service (HaaS). “Damos uma segunda vida ao equipamento, às vezes uma terceira. Sem uma preocupação real com sustentabilidade, perdemos eficiência no próprio negócio”, afirma. O descarte de resíduos eletrônicos, acrescenta o executivo, exige da companhia o mesmo rigor.

O selo, válido por três anos, também virou argumento comercial. “Quando apresentamos esse selo a empresas com alto nível de exigência, ele se torna um diferencial competitivo importante. Algumas RFPs já trazem cobranças muito detalhadas sobre as práticas socioambientais de fornecedores como nós, e a certificação nos deixa à frente”, diz Matos. A empresa lista ainda outros ganhos: credibilidade da validação independente, atratividade para investidores e acesso a capital, atração e retenção de talentos e uma ferramenta de gestão e melhoria contínua.

Leia também: IA amplia cobrança por transparência e evidências nas agendas ESG das empresas

ESG em tempos de IA

A certificação chega em um momento em que a inteligência artificial concentra os holofotes e os investimentos do setor, e em que a agenda ESG perdeu espaço no discurso das empresas de tecnologia. Matos rejeita a disputa entre as duas pautas. “São agendas que deveriam caminhar de mãos dadas. A IA é uma ferramenta que nos ajuda a ser mais ágeis, mais eficientes e mais focados no cliente. A certificação B é parte da nossa responsabilidade como cultura”, afirma.

A convivência não foi indolor. O avanço da IA provocou, a partir de dezembro de 2025, uma crise de abastecimento (shortage) de memória e processadores, com as fabricantes de chips direcionando a produção para os data centers de IA. Segundo o executivo, houve equipamento com alta de 80% no preço, e casos de 120% a 150% em menos de seis meses. “Uma RFP de cliente grande leva às vezes três meses entre a proposta e a decisão. Quando o pedido finalmente fechava, o preço já era outro”, relata.

Foi a segunda crise externa enfrentada pelo executivo desde que assumiu o comando. Matos entrou na Arklok em outubro de 2024 como diretor-geral, vindo de uma trajetória de 16 anos na Iron Mountain, em que chegou a presidir a operação da América Latina, e tornou-se CEO em abril de 2025, quando a fundadora Andrea Rivetti passou à presidência do conselho. A gestora Vinci Partners, que comprou participação na companhia na virada de 2022 para 2023, segue como acionista majoritária. Dois meses após a chegada de Matos, a disparada da Selic, que saiu do patamar de 11% ao ano rumo a 15%, alterou a estrutura de capital de um negócio que capta recursos, investe em equipamentos e recupera o valor ao longo dos contratos.

Mesmo com os solavancos, a empresa cresceu 26% em faturamento em 2025 e 28% em Ebitda, e projeta expansão em torno de 20% em 2026, também com ganho de margem.

Voluntariado estruturado

Como parte do programa ESG, a Arklok formalizou neste ano uma política de voluntariado, estruturada em três frentes: mentorias, visitas guiadas e doações. A empresa fechou parceria com a Horizon, organização que homologa instituições sociais, e priorizou as comunidades de Barueri e Itapevi (SP), onde estão a sede e o centro de distribuição.

Entre março e junho de 2026, o programa doou 30 tablets ao Colégio Mão Amiga, arrecadou roupas em volume equivalente a mais de R$ 3,3 mil para o Bazar Pró-Saber, em Paraisópolis, e cerca de 100 quilos de alimentos, também destinados ao Mão Amiga. Na frente de mentorias, 27 colaboradores acompanharam 36 alunos do ensino médio do colégio, e 42 estudantes da Etec de Carapicuíba visitaram o escritório da empresa em Alphaville, com direito a conversa com o CEO.

Em quatro meses, 79 colaboradores participaram das ações, o equivalente a 16% do quadro de 471 funcionários, somando 84 horas de atividades. A empresa contabiliza 397 alunos impactados diretamente e 7.158 pessoas de forma indireta.

Para Matos, a lição da jornada vai além da responsabilidade ambiental. “Participar desses processos de forma séria acelera o amadurecimento da companhia. Não é apenas uma questão de marketing ou de responsabilidade ética: é um tema de governança, que sustenta o crescimento financeiro no longo prazo”, conclui.

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Sobre o Autor

Pamela Sousa é editora-assistente no IT Forum, graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Especializa-se na cobertura de tecnologia, inteligência artificial e inovação, desenvolvendo reportagens aprofundadas e artigos analíticos sobre o impacto dessas tecnologias nos negócios e na sociedade.

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