Mais de 430 mil firewalls corporativos são comprometidos em operação de roubo de credenciais

O que aconteceu, por que sua empresa pode estar entre as vítimas e o que fazer agora

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Tela de notebook exibindo alerta de segurança digital com ícone de perigo, representando firewall, cibersegurança e proteção de dados.
Imagem: Shutterstock

Por Carlos Cabral,

Uma operação criminosa de larga escala, apelidada de FortiBleed, comprometeu mais de 430 mil firewalls produzidos pela Fortinet em todo o mundo e coletou mais de 110 milhões de credenciais corporativas, na forma de senhas, tokens de autenticação e chaves de acesso a sistemas internos. Esta série de ataques, ativa, pelo menos, desde fevereiro desse ano, se mantém em operação no momento em que escrevo esse artigo.

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O Brasil figura entre os países afetados. Organizações com firewalls FortiGate expostos à internet, independentemente do setor, estão sob risco direto.

O que foi comprometido e o que isso significa na prática

O caso veio à tona no dia 17 de junho, quando pesquisadores de segurança identificaram um servidor desprotegido na internet contendo dados de mais de 73 mil dispositivos FortiGate com credenciais expostas e também ferramentas usadas pelos atacantes. O Brasil estava em 11º lugar entre os países mais afetados pelo ataque. Na ocasião, poucos detalhes a respeito do método de intrusão estavam disponíveis publicamente. Tais informações vieram depois, em relatórios de empresas que estavam acompanhando o caso com mais proximidade.

A primeira coisa importante a dizer é que o atacante não invadiu os sistemas da Fortinet nem explorou uma vulnerabilidade de software no sentido tradicional. O caminho adotado neste caso dependeu de senhas fracas criadas pelos administradores dos firewalls para posteriormente usar de uma funcionalidade de diagnóstico nativa do equipamento de modo a interceptar silenciosamente todo o tráfego de autenticação que passava por ele.

Sendo direto, o firewall que deveria proteger a rede interna foi transformado em um ponto de interceptação do tráfego de modo que toda senha digitada por um funcionário para acessar o e-mail, o sistema ERP, o Active Directory ou qualquer outro serviço interno de interesse do atacante passou a ser capturada pelo atacante, sem que nenhum software malicioso fosse instalado no aparelho ou que qualquer alarme fosse disparado. Ou seja, definir senhas fracas para um dispositivo tão crítico foi o mesmo que abrir a porta para o criminoso. O qual, conhecendo muito bem as funcionalidades do equipamento, o converteu em um aspirador de senhas para si.

O resultado foi um banco de dados massivo de credenciais corporativas válidas, que o operador usa para vender acesso a redes comprometidas ou para aprofundar a invasão nos sistemas das vítimas.

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Quem está sendo visado

Aproximadamente metade das organizações identificadas no ataque têm menos de 200 funcionários, e quase 90% delas possuem receita anual abaixo de 100 milhões de dólares. Isso não significa que empresas maiores estejam seguras, foram identificadas organizações do Fortune Global 500 entre as vítimas e um contratante de defesa vinculado à OTAN também teve dados confidenciais roubados no último dia 15. Mas o foco em pequenas e médias empresas reflete uma lógica operacional em que o atacante parte do pressuposto de que essas organizações são grandes o suficiente para ter firewalls FortiGate, mas pequenas para ter equipes de segurança dedicadas a gerenciar o equipamento adequadamente e detectar ataques contra ele.

O setor de serviços de TI é o mais atingido. Trata-se de uma escolha estratégica, pois um fornecedor de TI atacado pode se tornar a ponte para o ambiente de seus clientes, geralmente empresas maiores. Também estão entre os mais afetados os setores de telecomunicações, indústria, serviços financeiros e governo.

Geograficamente, Índia, Estados Unidos e Taiwan lideram em número de organizações afetadas, mas a distribuição é verdadeiramente global, com vítimas em mais de 50 países. Inclusive no Brasil.

Quem está por trás da operação

Os relatórios sobre o caso apontam para um operador ou pequeno grupo com nível técnico avançado, cujos sistemas e ferramentas utilizam o idioma russo. A avaliação predominante é a de uma atividade do tipo Initial Access Broker, uma operação criminosa em que o adversário se especializa em invadir redes e vender esse acesso a outras quadrilhas, que podem incluir operadores de ransomware.

O que fazer agora: cinco ações prioritárias

As recomendações abaixo são diretamente baseadas nas orientações da Fortinet e dos órgãos de segurança cibernética internacionais. É recomendável que cada uma seja atribuída a um responsável com prazo definido para a execução.

  1. Verificar se sua organização está entre as vítimas. A SOCRadar, umas das empresas que documentou o caso, disponibilizou gratuitamente uma ferramenta de consulta em que qualquer organização pode verificar se seus domínios ou endereços IP aparecem na base de dados comprometida. Acesse este link, nenhum cadastro é necessário;
  2. Remover as interfaces de gerenciamento dos firewalls da internet. A Fortinet recomenda explicitamente que painéis administrativos de seus equipamentos nunca sejam acessíveis diretamente pela internet. Esta é a medida preventiva mais importante. O guia oficial com os padrões de segurança da Fortinet para esses dispositivos está disponível aqui;
  3. Trocar todas as senhas associadas ao ambiente FortiGate. Isso inclui as contas de administração do firewall, dos acessos VPN e todas as contas de sistemas internos cujas senhas possam ter trafegado por um firewall comprometido. Em ambientes afetados, praticamente qualquer senha de domínio pode ter sido capturada.
    Um alerta importante: simplesmente trocar a senha no painel do FortiGate pode não ser suficiente. Pesquisadores da Arctic Wolf identificaram que o hash da senha anterior pode sobreviver em um campo oculto do arquivo de configuração do FortiGate e continuar sendo utilizável por quem já exportou esse arquivo antes da troca.
    A equipe técnica precisa executar um procedimento adicional de invalidação no próprio sistema operacional do equipamento para eliminar esse risco por completo. A Fortinet documentou esse procedimento;
  1. Ativar autenticação em dois fatores em todos os acessos remotos. O mecanismo central de ataque depende de senhas válidas. A autenticação multifator torna uma senha roubada inútil para o atacante. A documentação de configuração para equipamentos Fortinet está aqui;
  2. Solicitar auditoria dos logs de autenticação do Active Directory. O atacante, após obter acesso, executa um mapeamento sistemático de contas privilegiadas nos sistemas de identidade corporativos. Padrões anômalos de consulta nesse ambiente, especialmente vindos de fontes suspeitas, podem indicar que a fase de aprofundamento da invasão já começou. A CISA (agência americana de segurança cibernética) publicou orientações específicas para detecção desse tipo de atividade.

Uma questão crucial para os líderes de TI

O FortiBleed não é um ataque que explora uma falha que a Fortinet precisa corrigir. É uma operação que explora credenciais fracas e interfaces administrativas mal configuradas, dois problemas de governança, não de tecnologia. A propósito, este é um momento em que criminosos de todo tipo estão explorando falhas de governança variadas, sobretudo envolvendo a gestão de identidades, de desenvolvimento de software e de dispositivos expostos em redes inseguras.

As perguntas que a liderança deve fazer às equipes técnicas são simples: nossas interfaces de gerenciamento estão expostas à internet? Nossas senhas de administração são fortes e únicas? a troca de senha no FortiGate seguiu o procedimento completo, ou apenas atualizou a senha no painel? Temos autenticação multifator em todos os acessos remotos?

Se a resposta a qualquer uma dessas perguntas for incerta, a prioridade é obter clareza e agir, antes que a resposta para isso venha do cibercrime.

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Sobre o Autor

Pesquisador na área de Cyber Threat Intelligence, Carlos Cabral é especialista em cibersegurança na Tempest, escreve a newsletter Noise-to-Signal e é host do podcast Cyber Morning Call. É também co-organizador do Livro “Trilhas em Segurança da Informação: Caminhos e ideias para a proteção de dados” e autor de diversos artigos e palestras sobre o tema.

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