Após crescer 52% com a reforma fiscal, CEO da Ninecon detalha lições de dezenas de go-lives e crava: split payment será igualmente desafiador
Poucas empresas de tecnologia viveram a reforma tributária tão de dentro quanto a Ninecon. A consultoria paulista, que completa 22 anos, conduziu mais de 40 projetos de adequação à nova legislação, todos com uma característica que distingue essa onda de qualquer ciclo anterior de implementações do software de gestão empresarial (ERP): a data de corte era a mesma para todo mundo.
“É diferente de falar ‘eu tenho dez ERPs para entrar em go-live’, cada um com uma data. Com a reforma fiscal, todos tinham de entrar no dia primeiro. Todo mundo precisava emitir a nota com o novo imposto”, resume André Assad, CEO e CFO da companhia.
O resultado dessa corrida apareceu no balanço. A Ninecon cresceu 52% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2025, muito na esteira da reforma, admite o executivo, e só não cresceu mais pelo limitador da escassez de mão de obra qualificada. Para 2026, a projeção é de expansão na casa de 25%, ainda acima do mercado.
Antes de chegar aos aprendizados da reforma, vale entender quem é a Ninecon. O nome entrega a origem. A empresa nasceu há 22 anos da saída conjunta de nove líderes da Oracle Consulting e os nove assentos societários permanecem ocupados até hoje, ainda que com duas substituições ao longo do caminho.
O grupo enxergou uma janela de oportunidade quando a Oracle passou a priorizar produto em detrimento de serviço. Cumprida a quarentena de não competição, veio a parceria formal, que já dura duas décadas e levou a empresa da posição de menor ao posto de maior parceiro Oracle.
De lá para cá, o portfólio se expandiu das implementações de ERP para Enterprise Performance Management (EPM) e Oracle Transportation Management (OTM), depois para o papel de integrador full service e, nos últimos cinco anos, para uma atuação multiplataforma que inclui Google e Amazon Web Services (AWS), com foco no mundo cloud.
A área de sustentação (AMS e IMS), criada em 2005, virou um pilar do negócio, respondendo hoje por cerca de um terço da receita, atende inclusive sistemas legados dos clientes e é uma das frentes que mais recebem investimento em inteligência artificial (IA).
Assad não compra a tese, recorrente na indústria de software, de que a IA decretará a morte do ERP. “Pelo menos para os próximos 20 anos, eu diria que não. Mas ele vai mudar muito”, afirma. “Quando falamos de IA sem base de dados organizada, não existe. Dados são fundamentais, e o ERP vai permitir que isso aconteça”, argumenta ele.
Na visão do executivo, o ERP ou, em sentido amplo, qualquer software como serviço (SaaS) que sustente os processos de ponta a ponta da empresa assumirá o papel de orquestrador, com a IA embarcada simplificando a interação do usuário e municiando decisões. O exemplo que ele oferece é o de concessão de crédito. Em vez de horas de análise manual, a IA consolida as informações no próprio processo e entrega uma recomendação; a decisão segue humana.
Há, porém, um aspecto-chave que Assad enxerga na corrida das empresas pela IA e onde a Ninecon, revela ele, está estruturando novos serviços: a governança. “Vejo empresas implementando IA sem se preocupar com o nível de segurança que estão tendo ali”, observa.
A comparação que ele faz é com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Uma onda de urgência, muito serviço vendido, nem tudo concretizado, mas que, no saldo, forçou boa parte das empresas a se organizar. “Acreditamos que com IA vai ser o mesmo. Os clientes grandes já estão preocupados com governança; os outros, na hora que acharem o caminho da IA, logo em seguida vem essa preocupação”, assinala.
O ceticismo do mercado quanto ao retorno também está no radar. Na avaliação do executivo, os CIOs estão cada vez mais pressionados pelos CFOs a demonstrar resultado dos investimentos em IA, algo expressado também na pesquisa do IT Forum Inteligência, Antes da TI, a Estratégia, que mostra que 35% dos líderes de TI ainda não encontraram esse retorno.
Questionado sobre o maior aprendizado da maratona da reforma, Assad revela que foi a organização para rodar dezenas de projetos simultâneos contra um relógio que não negocia. O cenário combinava uma data fixa de virada com clientes em versões diferentes de ERP, muitas delas não preparadas para as novas regras, e sem tempo hábil para aplicar patches e fazer upgrades.
A resposta foi segmentar, segundo ele. A Ninecon separou os clientes por necessidade e ofereceu soluções diferenciadas, incluindo desenvolvimentos específicos para quem não tinha como entrar na esteira padrão, deixando o upgrade estrutural para um outro momento.
E houve ainda uma decisão dolorosa: dizer não. No meio do caminho, clientes não tiverem entregues projetos de outras consultorias e bateram à porta pedindo socorro. “Já estava no meu limite. Senão eu comprometia todos os outros 40”, explica.
Do lado dos clientes, o padrão mais comum foi o despreparo. “Muitos não tinham ciência da abrangência real do impacto e deixaram para a última hora”, relata. Um complicador recorrente foi empresas cuja TI local reporta a uma estrutura corporativa global. Convencer executivos estrangeiros da complexidade brasileira foi um projeto à parte.
Outro aprendizado central foi que a reforma não é um projeto de TI nem do tributário é multidisciplinar. E há um efeito que, na visão de Assad, muitas empresas ainda não dimensionaram os impactos da reforma fiscal, que chega agora à sua segunda fase. “A reforma vai mudar a precificação do produto. Se muda a precificação, muda toda a lógica de rentabilidade da empresa e o posicionamento de mercado”, observa.
A segunda fase da transição, em curso, repete a corrida da primeira, mas com um agravante. “O governo está atrasado com as emissões das notas normativas e técnicas sabermos como configurar exatamente”, afirma. O imposto está definido, mas faltam os percentuais por tipo de operação e as regras de particularidades como a Zona Franca. “Isso atrapalha tudo. Vemos que tudo vai ficar de agosto para frente. Vai ser a mesma correria.”
A partir de 2027, quando a maior parte das mudanças entra em vigor, o executivo enxerga alguma simplificação, com uma enorme exceção: o split payment, mecanismo que reterá o imposto no momento da liquidação financeira e que ainda não tem data definida para estrear ao longo daquele ano.
“Esse vai ser o mais traumático”, acredita Assad. O motivo vai além dos sistemas. “Ele impacta em algo que as empresas não estão vendo, que é o fluxo de caixa. Emite-se uma nota de mil reais e não vai receber mil vai receber oitocentos.” Hoje, muitas empresas recebem o valor cheio e usam o imposto a pagar como capital de giro, empurrando o recolhimento. Com o split, essa alavanca desaparece, um problema “não só técnico nos sistemas”, mas de gestão financeira, que até os bancos estão agora na corrida por operacionalizar.
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