IPO da SpaceX chega ao mercado como aposta de US$ 1,75 trilhão em IA, não em foguetes

Maior oferta pública da história mistura negócios comprovados de lançamento espacial e Starlink com planos especulativos de domínio em inteligência ar

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5:27 pm - 09 de junho de 2026
Imagem: Shutterstock

As negociações com as ações da SpaceX têm início nesta quinta-feira, 12, em uma oferta que os bancos coordenadores precificaram em US$ 1,75 trilhão, colocando a empresa entre as dez mais valiosas do mundo. É a maior abertura de capital da história, e o timing não é acidental: a SpaceX chega ao mercado público em um momento em que concorrentes diretos no ecossistema de inteligência artificial, a Anthropic e a OpenAI, também preparam suas próprias listagens. Para os investidores, o conjunto dessas ofertas representa a maior aposta coletiva já feita em uma única tecnologia.

O número chama atenção por um motivo específico, segunda o artigo da BBC, a SpaceX registrou prejuízo de quase US$ 5 bilhões no último ano. A pergunta que estrutura o prospecto da oferta, e que os analistas tentam responder, é o que exatamente está sendo precificado nessa avaliação. A resposta está menos nos foguetes e mais nos dados.

O negócio central da SpaceX, que inclui serviços de lançamento e a rede de satélites Starlink, é lucrativo e tecnicamente superior a qualquer concorrente público ou privado. O Starlink, além de sua relevância comercial, demonstrou peso geopolítico durante a guerra na Ucrânia, ao sustentar comunicações militares e civis em território sob ataque. Ainda assim, as estimativas mais otimistas para esse conjunto de negócios chegam a US$ 300 bilhões, menos de 20% da avaliação-alvo da oferta. O restante repousa sobre uma aposta no futuro da inteligência artificial.

A tese dos US$ 26,5 trilhões

Do total de US$ 28,5 trilhões que a SpaceX identificou como seu mercado endereçável, US$ 26,5 trilhões estão associados à IA. Embutida na estrutura corporativa da empresa está a xAI, a companhia de inteligência artificial de Elon Musk, além de planos para construir centros de dados espaciais, alimentados por energia solar e resfriados pelo vácuo, que deveriam fornecer capacidade computacional para aplicações terrestres. Acreditar nessa tese exige acreditar que a indústria de inteligência artificial se tornará comparável em tamanho à economia inteira dos Estados Unidos ou da Europa.

“Se olharmos para o negócio em si, não está claro em qual setor ou indústria a SpaceX efetivamente opera”, avaliou Sinead O’Sullivan, economista com passagem pela Nasa. Para ela, a marca foi construída sobre duas décadas de avanços em rocketry, mas a maior parte dos investimentos de capital da empresa está direcionada a centros de dados e a uma companhia de IA cujo vínculo com a exploração espacial é, no mínimo, difuso. “Tudo isso está reunido em um conglomerado sob o nome de Elon Musk“, disse.

A estrutura de controle da empresa é outro ponto que divide os analistas. Musk acumula os cargos de fundador, CEO, diretor técnico e chairman do conselho. Embora detenha 42% das ações, seus papéis vêm com direitos de voto ampliados que lhe conferem controle efetivo sobre 85% das decisões. Para investidores institucionais, a equação é clara: quem compra ações da SpaceX adquire exposição à empresa sem qualquer poder real sobre seus rumos. O jornalista financeiro Robert Armstrong sintetizou o dilema: “O que significa deter ações de uma empresa? É propriedade, mas que tipo de propriedade é essa se você não tem controle?” Armstrong argumenta que investidores deveriam exigir desconto por abrir mão de governança, não pagar prêmio por isso.

Leia mais: OpenAI protocola pedido de IPO e leva corrida da IA ao mercado de capitais

Teste de estresse para o mercado de IA

Para os líderes de tecnologia que acompanham o cenário, a oferta da SpaceX inaugura uma sequência de IPOs que irá testar o apetite do mercado por empresas com avaliações elevadas e histórico limitado de lucratividade. A Anthropic e a OpenAI devem seguir o mesmo caminho, também com listagens parciais em um primeiro momento. Juntas, as três companhias representam o núcleo do que está sendo chamado de fronteira da IA, e o desempenho de suas ações nos próximos meses funcionará como termômetro da confiança dos investidores nessa geração de tecnologia.

O paralelo com a bolha das empresas de internet no início dos anos 2000 já circula entre analistas. Há diferenças estruturais relevantes: a SpaceX tem receita real, contratos governamentais bilionários e vantagens técnicas demonstráveis. A expansão dos fundos de índice desde aquela época também deve ajudar a absorver parte do volume de novas ações que chegará ao mercado. Mas o volume potencial é expressivo. A SpaceX está vendendo apenas 5% de suas ações nesta oferta inicial, equivalente a US$ 75 bilhões. Se Anthropic, OpenAI e outras empresas do setor seguirem o mesmo caminho, a oferta total de novos papéis pode chegar a trilhões de dólares nos próximos anos, em um ritmo que a demanda pode ter dificuldade de acompanhar.

Para CIOs e executivos de tecnologia, o IPO da SpaceX tem implicações que vão além do mercado de capitais. A tese central da oferta, de que centros de dados espaciais e modelos de IA proprietários serão a próxima camada de infraestrutura crítica global, é a mesma que orienta decisões de investimento em hyperscalers e laboratórios de fronteira. Se o mercado validar essa tese com o desempenho das ações, o ritmo de investimento em IA se acelerará ainda mais. Se a oferta decepcionar, o efeito sobre o financiamento do setor pode ser imediato e amplo.

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Redação

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