Quando foi a última vez que você pensou na morte?

“Fernando -dizia ele- isto é quase tão difícil de vender quanto seguro de vida: você tem que convencer o executivo de que ele vai morrer, antes dele comprar a sua idéia. É mais fácil convencer alguém a comprar um produto palpável, mostrando o quanto de segurança ele poderá agregar ao seu negócio…”. Que o digam as empresas que oferecem serviços de back-up site ou de colocation. Difícil é mostrar para pessoas de reconhecida competência e experiência que o improvável pode acontecer e que isso poderá lhe custar o emprego!
Recentemente li uma reportagem sobre a Morte, publicada no número 173, edição de fevereiro da revista “Superinteressante”. Nela, encontrei a declaração de uma professora do Departamento de Filosofia da USP, Olgária Feres Matos:…”Há uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque os valores da sociedade de massa e de consumo são antagônicos à idéia de morte; o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, a acumulação de bens, a busca da imortalidade…”
Mesmo no ambiente de Tecnologia de Informação, a idéia segue o mesmo conceito, como pode ser percebido na propaganda de uma famosa marca de processadores, onde personagens coloridos dançam e tocam instrumentos, para transmitir a idéia de dinamismo e velocidade. Ou de um fabricante de dispositivos de armazenagem, onde um desenho formado por gráficos de computador apresentam a evolução da humanidade, entre raios e trovões. E o que isso tem a ver com tecnologia Simples: atualização é sinônimo de competência!
Nestes termos, pensar em segurança ou contingência pode parecer heresia, até o momento em que ocorra algo que ameace o funcionamento da empresa ou do ambiente pelo qual o executivo é responsável. O que pessoas deixam de lado, quando preferem investir em hardware (proxys, firewalls, etc.), confundindo ‘dispositivos de segurança’ com a própria segurança, é que os NEGÓCIOS utilizam estes dispositivos mas que eles efetivamente não são os negócios. Da mesma forma como a Internet é um canal de negócio, não sendo “o” negócio em si (com algumas evidentes exceções).
No meu dia a dia, encontro basicamente quatro formas particulares de lidar com a variável de segurança e continuidade, são de:
1- Pessoas que passaram por situações de risco ou que viveram eventos que efetivamente afetaram as empresas onde trabalharam e se tornaram extremamente cautelosas, como o incêndio ocorrido na fábrica de lingerie no Rio de Janeiro, que destruiu completamente o CPD da empresa, e decidiram que nunca mais passariam por aquilo;
2- Pessoas que se chocaram com situações de risco, onde empresas literalmente sumiram do mapa, como o ocorrido no ataque terrorista ao WTC em New York, dia 11/9/01;
3- Pessoas que consideram que o custo do investimento em segurança é algo útil para complementar o perfil de negócio, em função de um conceito de mercado. Como exemplo, cito alguns cursos que se destinam a “formar” profissionais de segurança, onde o conteúdo principal está relacionado à técnicas de invasão pela Internet, quando isso geralmente é uma parte muito pequena do principal negócio da empresa;
4- Pessoas que preferem investir em equipamentos e dispositivos de segurança, elevando-os à condição de sinônimo de ambiente seguro, sem pensar na evolução natural da tecnologia e do negócio. Estes creio serem os mais expostos à riscos, haja vista se considerarem seguros, sem realmente estarem.
A analogia com a morte natural torna-se evidente: apenas aqueles que perceberam o quão próximo dela podem estar é que mudam seu conceito, de forma a antecipar acontecimentos que possam ameaçar seus negócios e suas empresas.
O conceito de “risco” não pode ser estático. Muito pelo contrário. A probabilidade de um evento qualquer ocorrer depende do tempo que ele levará para se concretizar. Isto é: quando construíram o WTC e disseram que ele era tão sólido que suportaria o impacto direto de um 737-200, fizeram-no considerando a possibilidade. Só não consideraram o uso doloso de um 737-300…
Isso não significa que, por ter havido registro de um tremor de terra ou tornado em São Paulo (ambos verídicos), que as empresas devam se preparar para estes eventos, por uma razão muito simples: em 400 anos de existência, só ocorreu uma vez! Logo, a possibilidade de nova ocorrência deverá se repetir daqui a outros 400 anos. Risco é um processo de gerência, que deve levar em consideração antecedentes históricos, geográficos e políticos. Não existe “receita de bolo” para este processo.
