Telecomunicações exigem cautela

Não só a abertura do mercado faz de 2002 um ano importante para o segmento. O ano passado foi um ano de crise significativa para o setor. “O valor de mercado total das operadoras de telecom caiu de 6,3 trilhões de dólares em março de 2000 para 3,8 trilhões de dólares em setembro de 2001”, afirma Virgílio Freire, consultor-chefe de telecomunicações da consultoria Brisa e ex-presidente da Vésper Comunicações e da Lucent Technologies Brasil, acrescentando que até novembro do ano passados foram feitas mais de 450 mil demissões no setor.
Por isso, os investimentos das operadoras deverão ser significativamente menores neste ano. Enquanto elas aplicaram 11,5 bilhões de dólares em 2001 na América Latina, em 2002 esse valor deverá cair para 8,2 bilhões de dólares, segundo o banco de investimentos Morgan Stanley. No Brasil, foram investidos cerca de 18 bilhões de reais em 2001, segundo a Anatel. Já para este ano, Freire estima que o montante vai cair pela metade, ficando em 9 bilhões de reais. “Em parte, isso acontece porque muitas empresas fizeram grandes investimentos no ano passado para antecipar as metas da Anatel e participar da abertura de mercado neste ano”, avalia o consultor.
Em 2002, portanto, as operadoras estão apostando na consolidação de alguns serviços como uma forma de melhorar os resultados e reverter, pelo menos em parte, a crise de 2001. “Elas deverão ter novas ofertas, com pacotes completos de comunicação, incluindo longa distância e dados”, comenta Freire. “Os pacotes podem facilitar o gerenciamento da infra-estrutura de tecnologia, com custo atrativo”, acrescenta Adriana Menezes, gerente da área de comunicação de dados e telefonia fixa do instituto de pesquisas Yankee Group.
Dentro desses pacotes, as principais fichas das operadoras estão sendo apostadas na oferta de novas funcionalidades IP que permitam aumentar a qualidade da rede, maior uso de acesso de banda larga, utilização de ferramentas de mensagens curtas (SMS) em telefonia celular, enquanto se preparam para migrar para a terceira geração da comunicação móvel. A entrada de mais operadoras na telefonia de longa distância merece destaque porque deve acirrar a competição e provocar uma queda nos preços.
Em ano de investimentos enxutos, a palavra de ordem para as empresas que oferecem redes para comunicação de dados é “qualidade”. Seja rede IP ou frame relay, operadoras e clientes estão buscando neste ano aumentar a performance das redes que já utilizam, sem precisar gastar muito para fazer grandes mudanças. “Nossa prioridade para 2002 é o ajuste tecnológico da rede. Queremos otimizar a infra-estrutura em nível mundial para reduzir custos e ganhar performance. Este não é um ano para se fazer experiências em telecomunicações”, afirma Fernando Birman, gerente de sistemas da Rhodia do Brasil.
“Nossa rede já está consolidada em todo o Estado de São Paulo e neste ano vamos investir para valorizar a rede, com a oferta de mais serviços”, conta Luiz Gonzaga Villela, diretor geral da Telefônica Empresas, braço da operadora para o mercado corporativo. A intenção da operadora é atrair os usuários de serviços que estão se tornando obsoletos, como as conexões X-25, para sua rede IP.
Um dos serviços considerados mais atrativos pelas operadoras é a oferta de redes privadas virtuais (VPN) baseadas em IP. Esse é um mercado que já vem crescendo e deverá acelerar ainda mais neste ano. Segundo a pesquisa Global Network Strategies (GNS) do Yankee Group, no Brasil, 7% das informações corporativas passam por uma VPN. Em 2003, esse montante deverá crescer para 17%. “Essa é uma tecnologia que fica cada vez mais forte e é atrativa porque os custos são menores”, justifica Adriana Menezes.
Usando criptografia, a VPN cria um canal seguro dentro de uma rede IP compartilhada para a transmissão de dados corporativos. Villela conta que a Telefônica Empresas já usa essa tecnologia para que empregados remotos se conectem à rede corporativa. “Essa é uma forma segura e barata de implementar o teletrabalho”, comenta.
