Monitoramento de funcionários: qual é o limite?

Os empregadores podem estar dentro de seus direitos quanto ao monitoramento de seus funcionários, mas esses direitos têm limites e consequências. Por isso, torna-se necessário refletir sobre como isso tem sido feito.
Esse questionamento veio à tona recentemente na Universidade de Harvard, depois que revelações de que os administradores pesquisavam ??16 contas de e-mail do corpo docente no ano passado para encontrar a fonte de vazamentos de informações à imprensa sobre um escândalo.
A professora de sociologia da Harvard, Mary C. Waters, afirmou ao The New York Times, “Eu acho que o que o governo fez foi assustador”, acrescentando que “esta ação viola a confiança que tinha de que Harvard jamais faria algo parecido.”
Há algo encantadoramente ingênuo quanto à indignação da Prof Walters, uma vez que os computadores são instrumentos de autovigilância e que aqueles detentores do poder de pesquisar dados de outras pessoas têm mostrado pouca de não utilizar essa capacidade.
Sobre o assunto, Cue Claude Rains, Capitão Renault da Casablanca, comentou: “Eu estou chocado ? chocado ? ao descobrir que a vigilância está acontecendo aqui.”
No contexto das mídias sociais, o monitoramento ainda não é uma regra. No ano passado, o Gartner apontou que menos de 10% dos empregadores monitoram o uso de sites de mídia social por parte de seus funcionários. Mas a empresa especializada em pesquisas fez uma previsão de que essa porcentagem irá alcançar 60% até 2015.
Há alguma esperança de que os direitos de privacidade não foram completamente desmontados: no verão passado, a National Labor Relations Board indicou que os empregadores não podem proibir os funcionários de usar a mídia social para discutir os direitos dos trabalhadores. Mais amplamente, a 9ª Corte do Tribunal de Apelações dos EUA apenas limitou aos agentes de fronteira o poder de utilizar e pesquisar dispositivos digitais, o que anteriormente ultrapassa a proteção afirmada na Quarta Emenda.
A privacidade ainda tem força, mas a realidade é que os funcionários e gestores precisam considerar suas palavras e mensagens on-line com cuidado. A questão com a qual os empregadores têm de lidar é o quão longe eles devem ir para recolher informações sobre o que os trabalhadores dizem e fazem.
O professor de gestão da San Diego State University, Amy Randel, disse em uma entrevista por telefone que o monitoramento de empregados gira em torno de questões de justiça. “O que os funcionários acham que é inapropriado será parcialmente determinado pelo que os empregadores têm dito sobre o assunto”, avaliou.
Randel considera que a partir do momento que os empregadores divulgarem que as mensagens de e-mail serão monitoradas, e quando fornecem uma razão clara para fazê-lo, os funcionários tendem a aceitar a situação. É uma questão de gerenciar a percepção e a expectativa, analisa.
Claramente em Harvard, a má comunicação administrativa sobre a privacidade restringida durante os inquéritos judiciais colidiu com uma sensação de que os acadêmicos são de alguma forma uma classe mais privilegiada do que meros empregados. Mas há também o fato de que a posição jurídica e a compreensão social sobre o e-mail que são instáveis.
Infelizmente para empregadores e trabalhadores, não há um nível de vigilância apropriado para cada situação com que todos concordam. Monitorar a localização de um trabalhador para garantir a entrega eficiente de pacotes, por exemplo, se encaixa em certos modelos de negócios. O monitoramento de funcionários no Dunkin Donuts teria reduzido o roubo pelos funcionários. A contagem de keystrokes pode ser requisitada em um contexto de entrada de dados. Mas seguir a localização de um smartphone corporativo fora do expediente não vai funcionar. E com tanto trabalho acontecendo em dispositivos que não exclusivamente de trabalho, o escopo do que pode ser monitorado talvez seja muito limitado para se preocupar.
Há uma série de questões desconfortáveis ??aqui que têm a ver com a dinâmica empregador-empregado. Em setores onde há muitos trabalhadores que acabam sendo intercambiáveis?, os empregadores podem, provavelmente, ser mais rigorosos sobre a observação de seus times. Em setores com trabalhadores altamente qualificados, como o de tecnologia, por exemplo, uma cultura corporativa que abraça o Big Brother dificilmente irá contribuir com o recrutamento e a retenção (a menos que talvez seja parte da cultura da empresa e modus operandi, como na Apple).
Os empregadores também precisam considerar se a vigilância é consistente em toda a empresa ou se certos níveis de empregados ou de gestão são isentos. O monitoramento do empregado aplicado injustamente ou punitivamente pode causar mais problemas do que resolver. O monitoramento do empregado pode ser um meio de informar, mas não irá melhorar a gestão.
“Com cada vez mais trabalhos sendo executados online e empresas tentando reduzir custos, algumas empresas estão considerando o monitoramento como forma de substituir a gestão no nível intermediário”, disse Randel.
Não há uma resposta certa aqui. Cada empresa enfrenta desafios diferentes. Empregadores e empregados devem se esforçar para ter uma relação baseada na confiança. “Há evidências de pesquisas que mostram se você confia nos empregados, eles correspondem a confiança”, relata.
