Por que tanta discussão sobre Transformação Digital e tão pouca ação?
Porque abandonar certas crenças, hábitos e processos do presente, criados no passado, é algo muito difícil, mas não impossível

O tema Transformação Digital é um tema instigante. Todos
falam sobre, mas apenas alguns realizam. E, claro, muitas vozes discordantes
aparecem. Mitos e verdades pipocam em todos os cantos. Nesse cenário, vou
tentar contribuir para o debate com uma percepção pessoal. Para mim, transformação
digital é, sem dúvida nenhuma, impulsionada pelas tecnologias digitais. Mas é
muito mais que tecnologia.
Transformação Digital acontece quando a aplicação da
tecnologia muda as condições nas quais os negócios são realizados, afetando as
expectativas dos clientes, parceiros de negócios e colaboradores. Exemplos
emblemáticos são o Uber e o Airbnb. Seus fundadores não criaram nenhuma
tecnologia inovadora, mas reconheceram a rápida e ampla adoção dos smartphones
e identificaram sua utilidade para a resolução de problemas visíveis como o
acesso restrito a táxis e locais para hospedagem. Criaram soluções que
facilitaram a vida das pessoas e com isso abriram um novo mercado. Interessante
notar, que tanto o setor de táxis quanto o setor hoteleiro viviam dentro do problema. Faziam
parte dele. E, por isso, talvez, foram incapazes de criar a inovação.
Esse é um aspecto interessante do ambiente de negócios. As
empresas que fazem parte de um setor olham umas para as outras, comparam-se
mutuamente e apenas fazem melhorias incrementais em suas operações. Alguém de
fora é que vem perturbar o ambiente, provocando a mudança. Estamos vendo isso
acontecer no setor bancário, onde as Fintechs fizeram com que os bancos saíssem
de sua zona de conforto e corressem atrás de inovações. Agora todos estão
tentando ser digitais. Por que não fizeram o movimento antes? No setor de
telecomunicações, o Skype e o WhatsApp provocaram uma ruptura desastrosa na
receita das operadoras.
Continuamos a ver isso em todos os lugares. O setor das
concessionárias é emblemático. Você compra um automóvel caro e sai de lá apenas
com combustível suficiente para chegar no posto mais próximo. Por que? Porque
todas fazem a mesma coisa, é a prática do mercado, respondem seus gestores.
Nenhuma teve a ideia de entregar o tanque cheio, uma ninharia perto do valor do
veículo? Aí chegam os veículos autônomos e a mudança do modelo de venda por
uso, e lá se vão as concessionárias.
A chegada dos carros autônomos vai produzir uma onda de
choque em diversos setores e as concessionárias serão imensamente afetadas. O
modelo de propriedade do carro pode mudar para um modelo de assinatura, em que uma
empresa, que pode ser o próprio fabricante, fornece o veículo e toda a
manutenção por uma taxa mensal. A conveniência do carro sem motorista pode
levar os clientes a buscarem modelos de uso sob demanda, em vez de se
comprometerem financeiramente com a aquisição de um carro para utilização
exclusiva. E mesmo nos casos em que as pessoas decidem comprar seus carros, a
maior eficiência de um carro sem motorista, que não monopoliza o tempo de um
motorista humano, pode levar a um a mudança na necessidade de vários membros da
família terem um carro.
A leitura do artigo “24
Industries Other Than Auto That Driverless Cars Could Turn Upside Down” retrata bem este cenário e mostra que uma inovação tecnológica aplicada a um
setor pode reverberar para outros setores, alguns aparentemente longínquos
demais para se preocuparem com aquela inovação.
A pergunta é: os executivos das empresas estão observando as
mudanças que estão ocorrendo em outros setores, ou estão apenas olhando para
seus competidores diretos?
O smartphone afetou várias industrias, acabou com empresas
sólidas e de alta tecnologia, que não se moveram na velocidade suficiente para
sobreviverem. Um exemplo clássico é a Kodak. Em 1976 ela controlava 85% do
negócio de câmeras fotográficas. Em 2008, um ano após o lançamento do iPhone,
aquele mercado simplesmente não existia mais. O curioso é que a Kodak inventou
a câmera digital, mas a empresa não soube explorar a tecnologia e repensar seu
modelo de negócios. Mas o smartphone não afetou drasticamente apenas a Kodak e
os demais fabricantes de câmeras analógicas e digitais, mas diversos outros
setores entraram em queda livre, como aparelhos de GPS, gravadores de voz,
relógios digitais, câmeras e reprodutores de vídeo, reprodutores de música, lanternas,
enciclopédia, console de vídeo games e PCs.
Transformação Digital também não é um fato isolado,
cataclísmico, que acontece uma única vez. Você transforma sua empresa em uma
empresa digital e pronto, pode descansar e curtir a nova vida. É um processo
contínuo, que nunca vai terminar. A evolução exponencial da tecnologia vai
continuar impulsionado mudanças, permitindo a criação de novos negócios, que
por sua vez, vão afetar as empresas digitais. O novo “business as usual” será
um ambiente de negócios cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo.
Isso significa que quando você se adaptar ao ambiente digital de hoje, esse
ambiente provavelmente já estará mudado significativamente. Esse cenário
turbulento pode ser visto em “These
7 Forces Are Changing the World at an Extraordinary Rate”. Queiramos ou
não, a velocidade das mudanças de amanhã fará com que hoje pareça que estamos apenas
rastejando.
Portanto, a Transformação Digital que falamos hoje deve ser
vista como a preparação para a empresa sobreviver e competir no futuro,
adaptando-se continuamente a um ambiente em constante mudança. A necessidade de
transformação contínua não irá diminuir. Envolverá a varredura contínua do
ambiente para reconhecer tendências na evolução tecnológica, experimentação
contínua para determinar como efetivamente responder a essas tendências, e como propagar as experiências bem-sucedidas por
toda a empresa.
Portanto, a Transformação Digital, no seu nível mais
fundamental, é a capacidade das organizações, seus líderes e funcionários, se
adaptarem às mudanças rápidas desenvolvidas pela evolução exponencial das
tecnologias digitais.
E porque tanta discussão e pouca ação? No mundo real, quase
todas as empresas encontram muitas dificuldades em fazer mudanças em sua
cultura, talentos e estrutura organizacional. As organizações geralmente mudam
muito mais lentamente do que a tecnologia, e as demandas exigidas pela
Transformação Digital não acontecerão sem o esforço intencional para fazê-las
acontecer. Além disso, as organizações tendem a se tornar mais estáticas ao
longo do tempo, de modo que a adaptabilidade necessária pode ser difícil de
manter.
Entendo a dificuldade. Mudar uma empresa é bem diferente do
que criar uma empresa. Os hábitos, processos e organização do passado, que
construíram a empresa, estão no presente
dela. E esse presente impede, muitas vezes, que a
empresa construa seu futuro, por conta das pressões do dia a dia.
Como enfrentar essa situação? Não existem receitas de bolo,
embora algumas estratégias sejam de imensa ajuda. Recomendo enfaticamente a
leitura do livro “A Estratégia das 3
Caixas”, de Vijay Govindarajan, professor do Dartmouth College, publicada no
Brasil pela HSM.
Algumas ações podem e devem ser colocadas em prática.
Uma delas é prestar atenção à evolução das tecnologias digitais. Não estamos nem
perto do fim da disrupção que as tecnologias digitais provocarão nos negócios.
As empresas devem periodicamente rever o cenário digital para analisar e
entender possíveis mudanças que possam ameaçar seu negócio ou setor. Frases
tipo “não somos uma empresa digital” ou “não sou uma pessoa
digital” serão apenas frases em lápides.
A velocidade das mudanças está no ponto em que se você não
prestar atenção e desenvolver um conhecimento prático do estágio atual das
tecnologias digitais, estará apenas garantindo a obsolescência do seu negócio e
a sua própria. O líder de uma empresa do futuro, uma empresa exponencial que
demanda um líder exponencial, deverá ter
algumas características que muitos líderes atuais não possuem: ser, ao mesmo tempo,
futurista, inovador, tecnologista,
humanitário, e, claro, um líder. Recomendo a leitura do artigo “How
the Most Successful Leaders Will Thrive in an Exponential World” para um
detalhamento maior dessas características.
Além disso, crie processos adaptáveis. Transformar digitalmente
sua empresa não é suficiente: comece a reconstruir sua organização de forma a
adaptar-se às mudanças constantes e inevitáveis. Processos adaptáveis envolvem
estruturas organizacionais modulares que podem ser facilmente reconfigurados. A
empresa deve ser ágil e adaptativa por natureza. Ser capaz de se reinventar
continuamente.
O exemplo da Amazon – “How
Jeff Bezos Maintains Amazon’s Killer Company Culture” – é emblemático de
uma empresa adaptável. Observem que o fator crucial é a cultura organizacional,
que incentiva inovação e, obviamente, permite falhar. Em contraponto, lembro de
uma empresa em que fui falar de transformação digital, que mantinha posts na
parede com frases tipo “faça certo da primeira vez”… Claramente senti ali que
a grande barreira para eles fazerem com sucesso qualquer transformação digital
era a cultura arraigada e conservadora.
Faça acontecer. As empresas muitas vezes falam sobre ser
digitais, ou tornarem-se mais ágeis, sem realmente fazer algo concreto para isso. Se
você quer sobreviver no século 21 terá que investir tempo, energia e dinheiro
para se transformar. O futuro, em um mundo de evolução exponencial, não está em
um horizonte distante. E não será possível adiar para amanhã a árdua tarefa de moldá-lo.
Para chegar ao futuro é necessário construí-lo dia após dia. Isso implica a
capacidade de, seletivamente, abandonar certas crenças, hábitos e processos do
presente, criados no passado, que ergueram muros intransponíveis para a criação
do futuro.
Esperar por muito tempo pode permitir que novos competidores
aproveitem essas mudanças e criem uma lacuna entre o que elas passam a oferecer
ao mercado e o que você oferece, ampla demais para ser superada. Infelizmente,
será seu “Momento Kodak!”.
(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data
