O uso de Inteligência Artificial não é uma opção futurista
Executivos precisam descobrir o quanto antes onde a IA pode criar vantagem mais significativa e sustentável

Estamos entrando em uma nova civilização, onde a tecnologia
digital será a tecnologia dominante. E a Inteligência Artificial terá um
impacto similar ao que a eletricidade nos legou. Da mesma forma que a eletricidade mudou a
nossa sociedade, a nova sociedade será tão ou mais impactada pela Inteligência Artificial.
Aqui e ali alguns exemplos já mostram claramente que a IA
tem potencial de provocar rupturas em diversos mercados. No setor de
propaganda, por exemplo, a Cosabella, empresa americana, substituiu sua agência
por um algoritmo. Vejam em “AI
And The Agency: Lingerie Brand Cosabella Replaced Its Agency With Artificial
Intelligence”.
Uma disputa para conquistar uma nova campanha da Mondelez no
Japão foi ganha pelo primeiro diretor de criação baseado em IA, da McCann. A
equipe que trabalhou sob as orientações do algoritmo bateu os concorrentes,
formados exclusivamente por pessoas. O artigo “An
Ad Agency Now Has the World’s First AI Creative Director” mostra como o
projeto foi conduzido e abre uma frente de disrupção em um setor que sempre foi
considerado imune aos avanços da IA.
Outro setor, também visto como pouco
provável de sofrer rupturas é o jornalismo. Mas a IA tem mostrado que pode
provocar disrupções também nessa atividade. No último evento anual da ONA – Online News Association, nos EUA, a
apresentação “Future
of news: bracing for next wave of technology” mostrou que a IA já é, sim, uma
ameaça para o futuro do jornalismo como o conhecemos hoje.

O relatório do FTI (Future Today Institute), “2017 Tech Trends
Anual Report”, que recomendo enfaticamente que seja lido com atenção, diz
explicitamente: “For the first time, artificial intelligence research has advanced
enough that it is now a core component of most of our trends. It is vitally
important that all decision-makers within an organization familiarize
themselves with what AI is, what it is not, and why it matters”.
Pense em IA como uma camada
de tecnologia que será integrada em tudo o que fazemos. A evolução tem sido
exponencial e os avanços mostram que a cada o seu potencial
evolutivo dobra a cada ano. Nos últimos anos vimos alguns avanços significativos como o Watson, da IBM e o AlphaGo, do Google. Esse, especificamente, ao vencer o campeão
mundial de Go, mostrou o imenso potencial da IA, como podemos ver em “Why
Alpha Go is a bigger game changer for Artificial Intelligence than many realize”.
O artigo nos lembra o fato que, há 20 anos, o Deep Blue venceu Kasparov, o então
campeão mundial de xadrez. Fato marcante. Mas o Deep Blue não aprendeu a jogar
xadrez. Apenas usava poder computacional para buscar as jogadas entre milhares de
jogos já efetuados e identificar a melhor jogada para o momento. Já o AlphaGo,
embora também pesquisasse milhares de jogos, usava uma rede neural, de modo
que, através do auto-aprendizado, pudesse gerar milhões de pequenos ajustes, permitindo
que ele chegasse a algo tão próximo da intuição quanto possível hoje. É
exatamente esse fator de intuição, de reconhecer padrões e aprender sobre eles,
que farão com que a IA tenha um impacto muito mais profundo na nossa sociedade.
Uma análise muito bem detalhada do status da IA nas empresas
foi publicada pela McKinsey em seu relatório “Artificial
Intelligence: the next digital frontier?”. O estudo mostrou que existe um
imenso gap entre a percepção do potencial da IA e sua adoção. Poucas empresas, fora do setor de tecnologia,
estão adotando IA de forma intensiva. Na
pesquisa com 3.000 executivos C-level, somente 20% disseram que estão usando IA
em larga escala ou que ela já faz parte do seu core business. O estudo também
mostrou que as empresas que já usam intensamente IA se destacam nitidamente em
comparação com as que ainda não avançaram.
(Abra as imagens em uma nova tele para ampliar)
Por outro lado, o uso intensivo de IA demanda uma
preocupação com segurança e garantia de que os algoritmos estejam adequadamente
treinados e cumpram apenas o que lhes é solicitado. O uso indevido de
algoritmos, aos quais estamos cada vez mais dependentes, pode trazer sérios
prejuízos. Um estudo muito instigante da Deloitte, “Managing
algorithmic risks: Safeguarding the use of complex algorithms and machine
learning”, mostra alguns exemplos onde o uso indevido de IA provocou sérios
danos. O relatório explicita que algoritmos cada vez mais complexos, muitas
vezes sem a devida transparência quanto ao seu design, ou mesmo treinamento
inadequado ou base de dados com viés preconceituoso, são as principais causas
de erros e atos ilícitos.
A IA está se tornando rapidamente a tecnologia fundamental
em áreas tão diversas como veículos autônomos e negociações financeiras.
Algoritmos de IA já estão rotineiramente incorporados nas ofertas de serviços
móveis e online. As implicações são profundas:
a) Como sabem
falar, ler textos, e absorver e reter conhecimento enciclopédico, as máquinas
podem interagir de forma intuitiva e natural, em uma variedade de tópicos, com
uma profundidade considerável.
b) Como podem identificar
objetos e reconhecer padrões ópticos, como rostos em fotografias, as máquinas
podem deixar o mundo virtual e se juntar ao mundo real.
Sistemas de IA já conseguem diagnosticar cânceres
específicos com mais precisão do que os radiologistas. Os advogados do futuro
farão um trabalho muito diferente do que fazem hoje, e, portanto, terão que
passar por uma educação totalmente diferente da atual.
Para as empresas, o uso de IA não é uma opção futurista, mas
uma realidade que pode ser decisiva em termos de competitividade.
As empresas que buscam alcançar vantagem competitiva através
da IA precisam entender as implicações de máquinas que podem aprender, conduzir
interações humanas e se engajar em funções de alto nível, em escala e
velocidade incomparáveis com os processos atuais.
Elas precisam identificar o
que as máquinas podem fazer melhor do que os seres humanos e vice-versa,
desenvolver papéis e responsabilidades complementares para cada um e redesenhar
os processos de acordo com a intensidade de aplicação da IA na organização.
A
IA vai requerer uma nova estrutura organizacional, novos processos e novos
modelos mentais serão desafiadores de implementar. As empresas precisam adotar
maneiras adaptativas e ágeis de trabalhar e definir estratégias comuns em sinergia
com startups e aos pioneiros na área. Em resumo, os executivos, começando pelos
CEOs, precisam identificar onde a IA pode criar vantagem mais significativa e
sustentável.
O que isso significa? Que se você não tiver uma estratégia
de IA, suas chances de sobreviver na nova sociedade estarão próximas de zero.
(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data
