A perfeita sincronização de Windows 8.x

Há alguns meses recebi para testar um Nokia 820 rodando Windows Phone RT. O teste deveria ter sido publicado em um dos veículos onde eu mantinha uma coluna na época. Não o foi por diversos motivos, um dos quais o fato de o aparelho (que já era usado) apresentar um defeito irrecuperável durante o período de teste. Que foi curto mas suficiente para aguçar tanto meu interesse que decidi adquirir um novo Nokia, desta vez um 920 rodando Windows Phone 8.0. Que, em muito pouco tempo substituiu o Galaxy S4 que eu usava até então.
O que me fez optar pelo Nokia 920 não foi o fato de ele ser melhor que o S4. Na verdade, ambos são pequenas joias tecnológicas e oferecem praticamente todos os recursos modernos que um usuário avançado pode desejar. Mas o argumento fundamental foi a primorosa integração entre o Windows Phone 8.0 do Nokia com o Windows 8.1 instalado nas minhas máquinas de mesa e no micro portátil tipo ?notebook? que uso quando viajo.
Faltava o tablet, já que então eu usava um Galaxy Tab 10.1 que ficou um tanto deslocado na turma. Decidi então completar o conjunto substituindo-o por outro que rodasse Windows. Escolhi o Surface Pro 2 da própria Microsoft que, como vem equipado com um processador Core i5 da Intel, roda o mesmo Windows 8.1 instalado nas máquinas de mesa.
Com isto fiquei com Windows 8.x rodando em todo o conjunto das máquinas que uso habitualmente: duas de mesa (uma em casa, outra no escritório, ambas sem marca, montadas por mim), uma portátil (um Ultrabook ASUS UX31A), o telefone esperto Nokia Lumia 920 e um tablete Surface Pro 2.
Esta coluna visa relatar minha experiência de usuário deste conjunto de dispositivos especificamente no que toca à integração e sincronização oferecidas pelo Windows 8.x. E antes que chovam as mensagens e comentários reclamando da superficialidade da análise, ressalto que não é uma análise, mas meramente do relato de minha experiência de uso, com especial ênfase para a integração entre máquinas, o fator primordial a motivar minha escolha.
Os usuários que conhecem o Windows 8.x sabem que ele funciona subordinado rigidamente a uma ?Conta Microsoft?. Que nada tem de especial: é o novo nome daquilo que era conhecido como ?Windows Live ID?. Mas também pode ser uma velha conta do Hotmail ou do Outlook.com. Em suma: qualquer conta que exija uma identidade de usuário e senha para usar algum serviço da Microsoft.
Quase todo mundo tem uma destas contas (a minha é uma conta do Hotmail que abri há alguns anos e estava praticamente inativa) mas, quem não tem, pode facilmente criar uma ao começar a usar qualquer versão de Windows 8.x em qualquer dispositivo.
É esta conta que garante a integração e sincronia de todos os dispositivos em que você se registrar (fizer ?log in?) com ela. A integração é tão estreita entre conta e usuário de Windows 8.x que se suas andanças pelo mundo o levarem seja a Timbuctu, seja a Jaguaquara, caso encontre por lá uma máquina conectada à Internet rodando Windows 8.x e decida entrar nela usando seus dados de usuário de uma conta Microsoft, quando eles forem aceitos pelo sistema você verá exatamente a mesma coisa que veria se estivesse trabalhando na sua máquina doméstica: a mesma tela de fundo, suas mensagens de correio eletrônico, acesso a seus arquivos armazenados no SkyDrive (o serviço da Microsoft de armazenamento na nuvem, oferecido pelo Windows 8.x), enfim: todas as suas configurações e dados, arquivos e mensagens. E tudo absolutamente em dia.
Nesta altura dos acontecimentos já vejo alguns leitores que fazem parte da imensa tribo dos opositores de Windows 8.x darem de ombro e murmurarem: ?grande coisa!?.
E então me lembro dos tempos que eu usava Palm.
Alguém aí ainda lembra do Palm?
Era uma maquineta excelente. Sucessora das antigas ?agendas eletrônicas?, era na verdade um pequeno computador de mão com alguns utilitários. Mas seus pontos fortes eram uma agenda de compromissos e outra de endereços e telefones.
Era uma bênção para quem, antes dela, usava aquelas agendinhas, uma miniatura de livro que se carregava no bolso onde se anotava à mão as tarefas a serem cumpridas e os nomes, endereços e telefones dos contatos pessoais. Quando um deles se mudava, rabiscava-se o endereço antigo e escrevia-se o novo. No início de cada ano era preciso trocar de agenda e copiar, um a um, todo o conjunto de endereços e telefones da velha para a nova. Um trabalho chato e comprido como a espada de Affonso Henriques.
O Palm poupava este trabalho. Mas tinha um problema: não usava Internet (por uma razão simples: quando foi lançado, não havia). Mas vinha com um programeto que se instalava no computador e que não somente replicava as agendas do Palm como também, quando se conectava Palm e micro via cabo, permitia sincronizar o conteúdo de ambos. O que resolvia o problema de se poder consultar as agendas nas duas máquinas. Mas criava outro: como se podia entrar com novos dados tanto no Palm quando no programa instalado no micro, fazer a sincronização sem criar duplicatas exigia uma disciplina rígida e dava um trabalho medonho. E quando, além do Palm, se tinha mais de um computador ? um de mesa e um portátil, por exemplo ? a coisa virava um pesadelo.
Hoje, com todas as minhas máquinas rodando Windows 8.x e nas quais entro sempre com a mesma conta Microsoft, se eu usar uma delas para criar ou remover um compromisso no Calendário, segundos depois a alteração aparecerá no Calendário de todas as máquinas que estiverem ligadas e conectadas à Internet. E se uma ou outra por acaso não estiver, assim que for ligada e receber os dados de minha conta MS, a sincronização será feita imediatamente sem exigir qualquer intervenção de minha parte.
Portanto, para quem sofreu com a sincronização das agendas de bolso, isto é de fato uma ?grande coisa?.
E olhe que continuo usando as mesmas agendas de contatos e compromissos que usava antes de Windows 8: as do Google. E se alguém ao seu lado alegar que é mentira, pois o calendário de Windows 8.x não é capaz de sincronizar com o do Google, ensine a ele que isto ocorre com o calendário padrão fornecido com o Windows 8.x, mas nada impede que se instale e use no lugar dele o ?GMail Calendar?, um programeto gratuito que pode ser baixado da Loja Windows e que foi feito justamente para contornar esta dificuldade. E que, no que toca a mensagens, a coisa ainda é mais simples, já que o programa gerenciador de correio eletrônico fornecido com Windows 8.x aceita diversas contas não importando qual seja o provedor e mantém as mensagens de cada uma segregadas e organizadas.
No que toca a contatos (aquilo conhecido nos tempos de antanho como ?agenda de endereços e telefones?), o programa ?Pessoas?, fornecido com o sistema operacional para gerenciá-los tem uma capacidade extraordinária de vasculhar a Internet, agrupando em um só local os contatos garimpados nas redes sociais que você escolher. Na minha, juntei os contatos do Google, Facebook, Linkedin, Hotmail, Skype e Twitter, mas poderia acrescentar outras, como Outlook.Com, Exchange e Yahoo. E cada vez que crio um novo contato em qualquer um deles, o programa ?Pessoas? o captura, insere na minha lista de contados e a sincroniza em todas as máquinas.
Mas há outros benefícios que a integração entre diferentes máquinas e dispositivos proporcionada por Windows 8.x propicia. Um deles é o SkyDrive, o repositório de arquivos na nuvem oferecido como parte integrante de Windows 8.x.
Sim, eu sei que há outros produtos de armazenamento em nuvem igualmente gratuito (até certo limite de armazenamento) e tão eficientes quanto o SkyDrive (que brevemente mudará de nome para SkyOne). E sei que o SkyDrive pode ser usado em outras versões de Windows, como Windows 7, Vista e até XP. Mas em nenhuma delas se integra tanto com o sistema operacional como em Windows 8.x, particularmente na versão 8.1. E a integração é tão grande que o ícone do Sky Drive aparece no painel esquerdo do Explorador de Arquivos (o Windows Explorer das versões anteriores de Windows) de modo que você pode explorar seu Sky Drive como se fosse um dos dispositivos de armazenamento de sua máquina.
Com isso você pode fazer do Sky Drive seu local padrão para armazenamento de arquivos e configurar pastas do disco rígido do computador para gravar uma cópia de cada novo arquivo no Sky Drive. Assim não somente você disporá de cópias de segurança destes arquivos como também terá acesso a eles de qualquer máquina na qual você entrar com sua conta MS.
E, incidentalmente: a razão pela qual suas configurações pessoais aparecem em qualquer computador com Windows 8.x conectado à Internet assim que você se registra (faz ?log in?) nele com sua conta Microsoft é justamente porque estão armazenadas em seu SkyDrive.
Cada conta Microsoft dá direito ao uso de 10 GB de espaço em disco (ou em nuvem, como preferir) do Sky Drive. Mas se você desejar fazer dele seu único local de armazenamento (ou pelo menos o local principal), mediante uma graninha extra pode alugar até 200 GB de espaço. Mas se você cogitar esta hipótese, sugiro que disponha de uma conexão Internet MUITO rápida.
Finalmente: juntamente com Windows 8.x, inclusive Windows Phone 8, é fornecido o aplicativo OneNote. Praticamente igual ao fornecido com as recentes versões do MS Office.
E, em matéria de integração, ele é um primor. Para começar, diferentes versões do OneNote se comunicam e são capazes de se manterem perfeitamente sincronizadas.
Então vamos lá: primeiro, o que vem a ser o OneNote.
Segundo a Microsoft, é um ?software de anotações?, o que define perfeitamente o produto mas não esclarece muito. Vou tentar fazê-lo bem resumidamente.
O software pode ser dividido em ?Blocos de Anotações? que contém ?Páginas?. Você pode criar tantos blocos quando queira e neles incluir as páginas que desejar. E nas páginas você pode registrar tudo.
?Tudo? é tudo mesmo. Textos, imagens, mensagens de correio eletrônico, vídeos, recortes de tela e mais o que você imaginar. Há diversas formas de fazer isto, inclusive usando um pequeno utilitário que vem com o OneNote denominado ?Enviar para a ferramenta One Note? que abre uma pequena janela e indaga o que você deseja enviar. Quando se trata de documentos, minha forma predileta é simplesmente mandar imprimi-lo e, na hora de selecionar a impressora, marcar na lista apresentada a ?Enviar para o OneNote?. Quando eu clico OK, em vez de imprimir o documento, uma cópia dele é criada no One Note.
Eu uso o One Note para armazenar ?de um tudo?, como diria o mineiro. Pequenas anotações, documentos, textos de mensagens que precisarei consultar talvez um dia, o diabo a quatro. Praticamente tudo o que eu deverei lembrar mais tarde, cuja quantidade tende a aumentar na medida em que a idade vai desgastando minha memória. Por exemplo: na figura que encima esta coluna vê-se uma das janelas da configuração de meu programa de transferência de arquivos via FTP. Se eu precisar de configurá-lo em outra máquina, basta consultar esta página na instância do One Note nela instalada. Repare na figura: a página chama-se ?Recorte? (veja à direita) e é a única do bloco Cute FTP Settings (veja nas abas).
Com o tempo me habituei a jogar tudo no One Note. Repare que não escrevi ?gravar? ou ?salvar? porque o One Note aboliu este conceito: ele devora tudo o que se põe nele e preserva, independentemente de você desejar ou não. Botou lá, está gravado (mas, evidentemente, pode ser removido se esta for sua intenção). E no momento em que você pôs alguma coisa em seu One Note, todos os que estão nas suas diferentes máquinas se comunicam e sincronizam. Assim, você pode ter acesso imediato aos dados lá armazenados esteja onde estiver, com a máquina que escolher. E, para consultar, nem precisa conexão à Internet, já que o One Note grava tudo em todas as máquinas da mesma conta (e, naturalmente, atualiza quando as máquinas se conectam à Internet).
Resultado: eu que, quando viajava, separava e imprimia um monte de documentos como bilhete eletrônico, ?voucher? do hotel, informações sobre a viagem, dados sobre o evento que irei cobrir (minhas viagens são quase sempre para este fim), cópia impressa do passaporte e mais tudo aquilo que eu achava que talvez fosse precisar na viagem ? e ainda corria o risco de esquecer alguma coisa ? agora nem me preocupo com o assunto. Antes de uma viagem crio um bloco de anotações no One Note e cada novo documento a ela pertinente, quase sempre recebido em mensagens de correio eletrônico seja sob a forma de texto, seja de anexo, vou criando páginas neste bloco e os jogando lá. Isso é tudo o que preciso.
Daí para diante é só mostrar o One Note. Em geral, no Tablet. Para fazer o ?Check in? no aeroporto, ligo o tablete e mostro a página do bilhete. No hotel, a do ?voucher?. E assim por diante. Deu problema no tablete, como bateria descarregada ou coisa parecida? Sem problema: basta abrir o ?notebook? que sempre me acompanha nas viagens e mostrar o One Note dele. O ?notebook? também não ligou? Tudo bem, desembainho o Nokia e mostro no próprio telefone. Afinal, o mesmo One Note está em todos eles (e se o telefone também não funcionar? Bem, neste caso melhor voltar do aeroporto imediatamente para casa; de uma viagem que começa assim não se pode esperar coisa que preste).
Então, é isso.
Windows 8 tem uma legião de ?inimigos?, mas no que toca a sistema operacional é bem melhor que todas as versões anteriores. Já no que diz respeito à interface, sou obrigado a concordar com seus detratores: é um horror (dizem que a MS vai lançar brevemente uma nova atualização semelhante à que instalou Windows 8.1 e que terá uma interface ainda mais parecida com a de Windows 7, mas é preciso esperar para ver se vai ser suficientemente saborosa para despertar o apetite do exército de pranteadores e viúvas do Windows 7).
Mas mesmo sendo um horror, a interface é perfeitamente usável e altamente funcional particularmente depois de Windows 8.1. Eu garanto que quem dedicar algum tempo e esforço para aprender a usá-la, inda que à contragosto, vai acabar se habituando a ela e, então, será capaz de tirar proveito das vantagens oferecidas por esta versão de Windows.
Das quais uma das mais formidáveis é justamente a absoluta integração e sincronização do sistema em mais de uma máquina e com o Sky Drive.
B. Piropo
