Futuro móvel: à la Apple ou Google?

A inovação móvel está implacável. A Apple Worldwide Developer Conferece, seguida pela Google I/O, que aconteceu logo depois da BlackBerry World, ofereceram, cada uma delas, uma ideia de como serão os produtos dos próximos meses. A RIM, por exemplo, se esforça para demonstrar que ainda tem futuro, mas, por enquanto, se mantém firme em grande parte do mundo corporativo e seus produtos são sólidos, mesmo sem inspiração.
A tela do Google vem colorida e ambiciosa, porém, com detalhes bastante abstratos. A Apple não tem a mesma visão ampla de mundo do Google e, por mais que já não tenha total domínio sobre a inovação móvel, ainda é única em originalidade e absoluta em execução. Em outras palavras, escolher um vencedor em melhor visão do futuro móvel se tornou uma tarefa impossível.
Mas não se engane: é uma luta que Apple e Google querem vencer a qualquer custo.
De forma geral, cada um dos eventos contou com casa cheia, mas o da Apple começou particularmente cheio, com filas que se estendiam por quarteirões. Algumas pessoas chegaram na noite anterior, como se fosse a premiere do último filme da série Harry Potter. A febre Apple é impressionante, especialmente em uma época em que esses eventos podem ser acompanhados na Internet, seja por vídeo, blogs ou cobertura ao vivo no Twitter.
Muito se falou sobre a abertura de duas horas da Apple. Porém, a apresentação do Google, de uma hora, rendeu dois dias de comentários. O CEO da RIM convidou os CEOs da Adobe e Microsoft para o BlackBerry World, enquanto a Apple manteve Jobs, que passou a palavra para outros executivos; o CEO e fundadores do Google cederam os holofotes às equipes de tecnologia e produtos.
Metade da diversão é ver a cultura de cada empresa emergir como reflexo desses eventos. Entenda como quiser, mas, com certeza, os resultados de uma empresa são reflexo de sua cultura corporativa e, no Google, onde as experimentações são sistemáticas e as falhas são, em sua maioria, apenas um inconveniente, o poder é distribuído e o tempo no palco é coletivo e voluntário. Mas não confunda isso com caos; a inovação do Google é coreografada e o sucesso raramente é por acaso. Se trata, apenas, de uma filosofia diferente.
Talvez, esperemos demais dessas empresas. Depois de ouvir a ideia central, muita gente se empolgou com o iOS 5 e se decepcionou com o Lion. Inicialmente, eu também me decepcionei, mas, depois de refletir um pouco, conclui que, por mais o Lion não seja uma revolução em sistemas operacionais, traz algumas vantagens interessantes em experiência de usuário. Desde quando virou obrigação da Apple mudar completamente o paradigma de um SO que já é original? Gestos multi-touch para o trackpad, um cliente para mensagens que parece mais um gerente de informações do que e-mail, Mission Control para acesso rápido a aplicativos ou tarefa, Airdrop para transferência de arquivos sem riscos com USB e a função Resume, para retomar um aplicativo de onde parou. Qual outro sistema operacional consegue fazer tudo isso? Não vai mudar a vida de ninguém, mas com certeza é inovador e muito melhor.
A Apple vê um mundo em que um sistema de arquivos não existe e é gerenciado na nuvem; é um mundo que, simplesmente, funciona, sem que os usuários precisem pensar. Sim, isso porque a Apple controla todos os pontos de distribuição, desde dispositivo até OS, dados e aplicativos. O cintilante data center, na Carolina do Norte, se torna a central de controle, o QG iCloud. No mundo pós-PC da Apple, o PC deixa de ser o foco, substituído pelo iCloud.
O Google vê um mundo em que o ecossistema móvel é o foco para outros dispositivos móveis – geladeiras, microondas e, sinceramente, qualquer outro objeto que mereça ser instumentado e experenciado. Tudo terá localização, tudo poderá ser rastreado e operado digitalmente, e os dados sobre tudo isso serão enviados ao catálogo do Google, para serem buscados, experimentados e analisados (e acompanhados por uma propaganda). Ordem para o caos.
A Apple se vê como uma empresa de experiência pessoal. O Google se vê como o centro de toda informação. Para a Apple, a nuvem é um serviço a ser oferecido. Para o Google, é um meio para alcançar outros objetivos. O Google oferece produto atrás de produto em seu evento para desenvolvedores. A Apple dá ideias, nunca produtos.
Apple e Google podem ter tornado mais difícil o negócio do prognóstico, mas ao trilhar caminhos com estratégias tão opostas, da forma como fizeram, tornaram as escolhas muito mais fáceis. Ou se opta por ter tudo funcionando, à maneira da Apple e ao tempo da Apple; ou se embarca com o Google, em uma jornada incrivelmente interessante, porém imprevisível.
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