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Yuval Harari: pandemia mostrou sucesso da ciência e o fracasso de governos

Para Yuval Harari, tido como um dos maiores pensadores da atualidade, autor dos best-sellers “Sapiens” e “Homo Deus”, a pandemia da covid-19 deixou claro – e contrastante – os vencedores e perdedores de uma corrida para salvar vidas. Ao se referir ao ano marcado pela pandemia, Harari destacou que do ponto de vista da ciência, foi “um ano incrível”. O escritor foi um dos convidados do evento promovido pela XP Inc, o Expert ESG, que acontece nesta semana. “A humanidade nunca foi tão poderosa em entender e parar uma pandemia”, disse ao comparar a pandemia provocada pelo coronavírus a outras do passado, como a Peste Negra e a Gripe Espanhola. “Uma vez que os alarmes soaram em dezembro de 2019, em Wuhan, levou-se duas semanas para identificar o vírus corretamente, sequenciar seu código genético e depois de nove meses, cientistas conseguiram formas de desacelerar a infecção e, hoje, temos várias vacinas em produção em massa”, destacou.

Entretanto, para Harari, a pandemia de covid-19 mostrou um grande fracasso político. “Alguns países conseguiram se sair bem, como Nova Zelândia, Taiwan, Israel. Mas outros países como Estados Unidos e Brasil, a resposta do governo federal foi terrível, levando a milhares de mortes que poderiam ser prevenidas”, criticou. Ao mesmo tempo, para o escritor, não se viu nenhuma liderança global ou grupo de líderes globais que buscassem entender a humanidade como um todo. “Não estamos mais na Idade Média. Temos as ferramentas, temos o conhecimento, mas não temos o conhecimento político”, reforçou. “Quero enfatizar com um problema político […] Se a pandemia continuar a espalhar, se piorar, nós ainda teremos uma janela política. Estamos fazendo escolhas políticas”, disse ao criticar também a falta de colaboração entre governos mundo afora para deter a pandemia. “O que as pessoas não entendem é que o se o vírus se espalhar, ninguém está a salvo. Mesmo que se vacine toda a população”, alertou.

Questionado se a globalização atual seria um dos gatilhos para a pandemia de covid-19, Harari lembrou que pandemias como a Peste Negra, que resultou na morte de um terço da população mundial na Idade Média, não tinham como contexto o ritmo da globalização, com conexões e fluxo de pessoas mundo afora no ritmo pré-covid. “Você precisaria voltar a Idade da Pedra, antes da revolução agrícola”, explica. “Não podemos voltar atrás, mas podemos ter uma melhor globalização. Ela não é a razão para a pandemia e sim, potencialmente, uma solução”, indica ao explicar que a cooperação entre países e o compartilhamento de informações entre nações acelera descobertas e, possivelmente, tratamentos, cura para novas doenças.

Covid-19: o grande alerta para o que está por vir

Autor do livro “ 21 Lições para o século 21”, Harari destacou que a pandemia atual serve de alerta para outras catástrofes e colapsos globais que estão por vir. “A mudança climática é muito maior que a Covid”, disse. “Muito mais complicada, se nós não conseguirmos organizar uma cooperação no nível global para encarar a pandemia, quais chances temos de lutar contra as mudanças climáticas?”, questionou. “Olha o que aconteceu com a economia global causada por um vírus. Agora pense em um colapso ecológico global”, acrescentou. Harari condiciona potenciais soluções e saídas para a crise ao apoio e investimento de negócios, líderes de indústrias, bancos, instituições financeiras, mas lembra novamente: “É uma decisão política”.

A regulamentação de gigantes de tecnologia e a transparência de governos, cada vez mais munidos de informações personalizadas de cidadãos, também foi destacada por Harari. “Quando se aumenta a vigilância de indivíduos, deve-se aumentar a vigilância de governos”, pontuou ao falar sobre a vigilância para fins de controle da pandemia. Para o intelectual, gigantes de tecnologia que concentram muito poder e dados sobre os indivíduos também precisam ser responsabilizadas. “Quando se concentra em um só lugar, é um caminho para ditaduras”.

O futuro da humanidade

Em uma jornada de evolução da humanidade, Harari lembra que o destino de seres humanos é o eventual desaparecimento e ele o atrela não a uma grande catástrofe e sim a “algo gradual por meio de mudanças tecnológicas”. Para o intelectual, o desenvolvimento da Inteligência Artificial e a Bioengenharia e as revoluções que elas trazem permitirá transformar nossos corpos e mentes e também criar novas entidades inorgânicas que não sejam feitas de carne e osso e limitações humanas.

Refletindo sobre o futuro da humanidade, Harari acredita ser possível que sejamos atualizados por uma nova espécie. “Isso aconteceu antes, nem sempre existimos”, diz ao comparar a raça humana com os neandertais. “Nós somos um pouco diferentes dos neandertais. Essa pequena diferença no nosso cérebro e corpo nos permitiu construir coisas como naves espaciais e ir a Lua. Se mais mudanças aos nossos corpos e mentes criar novas entidades inorgânicas, isso levará a criação de entidades diferentes de nós, que somos diferentes de neandertais. Será além da nossa imaginação. Seria como explicar o capitalismo a um neandertal. Então, que tipo de realidade irá existir em 200 anos? Talvez seja impossível entender”, concluiu.

 

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