Pessoas do mundo
inteiro acompanham com grande preocupação as notícias sobre um jogo que
incentiva automutilação, situações de risco e violência e até tentativas de
suicídio entre adolescentes na Internet.
O desafio chamado de
Baleia Azul (Blue Whale), que tem causado grande comoção nas redes sociais e
muita repercussão na mídia, segue envolto em dúvidas. Nasceu como meme? Existe
de fato em grupos de WhatsApp e do Facebook? Induz jovens a atentarem contra a própria
vida?
Grupos de
pesquisadores e jornalistas internacionais de sites de checagem de fatos
defendem que a ligação do desafio com o suicídio de jovens não passa de uma
lenda urbana que, por retroalimentação, acabou funcionando como fator de
crescente popularização do jogo.
Como lendas urbanas modernas, a história se alastra rapidamente, servindo de
inspiração para ações reais, com mortes e mutilações, mesmo que isoladas.
Tempos atrás, a SafeNet da
Bulgária apontou como origem dos rumores uma matéria falsa (fake news)
publicada na Rússia em 15 de março de 2016, e que afirmava que 130 adolescentes
russos já haviam se matado depois de participar do suposto “jogo”
através de uma rede social russa.
Em fóruns hackers
internacionais não faltam teorias conspirativas que atribuem a criação do
“jogo do suicídio” e sua associação a mortes de internautas a
governos autoritários interessados em produzir pânico coletivo contra a
“excessiva liberdade” das redes sociais. Ao estimular a lenda
urbana do Blue Whale associada a ondas de suicídio, governos do Leste Europeu
estariam, na verdade, fomentando o apoio popular à imposição de vigilância,
limitações e censura às redes sociais de seus países.
À parte esta lógica
conspiratória, já há claros indícios de que as ações violentas atribuídas ao
engajamento com o desafio têm pouquíssima ou nenhuma relação efetivamente
comprovada, exceto pelo fato de que parte das vítimas teria realmente
frequentado comunidades de pessoas com propensão mórbida, por onde também
circulariam bots do Baleia Azul.
Sim, bots. Um dos pontos obscuros dessa história é se há realmente ou não a
participação de pessoas se utilizando da história para induzir outras pessoas a
cometerem suicídio.
Desde o aparecimento
do Blue Whale, há mais de dois anos, apenas uma única pessoa (um romeno de 21
anos) até agora foi identificada e presa sob a acusação de agir como curador.
Mesmo existindo esse suspeito, seu julgamento vem sendo sistematicamente adiado
por falta de provas cabais de seu envolvimento, segundo reportam fontes como a
ONG NetFamillyNews e
a entidade SafeNet da
Bulgária.
Profissionais de segurança sustentam que o “curador” do jogo, a
pessoa que envia as mensagens, é uma Inteligência Artificial agindo a partir de
um “chatbot” que emula humanos com alto nível de verossimilhança. Na
opinião deles, desde seu aparecimento até hoje, o Blue Whale e sua origem estão
envoltos em um nível de mistério típico dos instrumentos hackers voltados para
a obtenção de lucro direto (através de roubo, fraude, extorsão ou sequestro) ou
para a captura de dados valiosos e a escravização de computadores infectados.
Problema de segurança
Considerando-se esta hipótese do uso de robôs, o Baleia Azul estaria
inaugurando uma nova era dos incidentes de segurança, com ataques de engenharia
social em massa que afetam de forma direta e altamente impactante o
comportamento do usuário.
De acordo com Thiago Zaninotti, CTO da Aker N-Stalker, o padrão de comunicação
interativa implementado pelo modelo do Baleia Azul, é perfeitamente
compatível com os atuais bots, baseados em princípios de computação cognitiva.
“Em geral, os
bots sociais, utilizados para finalidades criminosas ou lícitas, dispõem de
recursos poderosos de autoaprendizado e são movidos por algoritmos de
engenharia social que, embora relativamente sofisticados, estão se tornando
cada vez mais corriqueiros nas estratégias de atração e engajamento de vítimas
por parte do cibercrime”, comenta Zaninotti.
“O jogo está assentado em um menu fixo de
“50 desafios” que cada usuário deve obedecer, em uma ordem igualmente
repetitiva, e em um conjunto limitado de atividades recorrentes. Para
efeitos de comunicação verbal, tudo isto compreende um número pequeno de
variáveis, passíveis de serem semanticamente mapeadas em esquemas de ação e
reação bastante restritivos”, afirma Rodrigo Fragola, CEO da Aker.
Segundo ele, a criação de um chatbot para as finalidades propostas pelo jogo
seria algo tão simples e banal quanto implementar um assistente robótico para
apoiar a venda de passagens aéreas ou para sugerir modelos de calçados
adequados ao estilo de um consumidor previamente perfilado por engenharia
social.
Na visão do CEO da Aker existe, portanto, uma considerável possibilidade de
haver bots no lugar de “gurus humanos” orientando os usuários, o que
nos remeteria a um cenário assustador. “Caso se confirme a hipótese,
teremos na sociedade global uma combinação explosiva de robotização das
relações sociais associada a um grande potencial de epidemias
psicóticas. Unindo-se esta tecnologia de bots com as de realidade
aumentada e a virtualização progressiva da experiência, podemos chegar a um
ambiente social com potencial destrutivo enorme”, comenta Fragola.
Na avaliação da Aker,
se o modelo fosse automatizado, ele poderia realizar ações de mineração de
dados em redes sociais e identificar pessoas ideais para serem alvos na
propagação de spam contendo códigos maliciosos. Para abordar suas vítimas, o
sistema criaria falsas “personas” (ou “falsos avatares”)
com afinidades sociais bem definidas e preparadas para interagir com
internautas dispostos a novos relacionamentos (ou a jogos) e abertos a
aventuras nas diversas redes sociais.
Pessoas emocionalmente fragilizadas, como adolescentes com histórico de
depressão e outros sofrimentos psicológicos graves, seriam o alvo perfeito
e, aliás, ações de injeção do Blue Whale já foram identificadas em fóruns de
ajuda mútua e aconselhamento de pessoas dependentes de drogas e com diversos
tipos de psicose. “Mesmo não havendo conexão real entre a morte de jovens
e o jogo, a possibilidade de se usar robôs para potencializar o efeito de
doenças mentais em massa é extremamente preocupante”, comenta o CEO da
Aker.
Para exemplificar a
força desse modelo automatizado, Rodrigo Fragola menciona um trabalho acadêmico
realizado no Brasil por pesquisadores da UFMG junto ao twitter.
“Depois de analisar milhares de perfis de pessoas comuns no Twitter, os
pesquisadores mineiros criaram 120 chatbots imitando usuários normais que, em
30 dias, conseguiram angariar mais de 3 mil seguidores (e interlocutores
regulares) na rede. Inclusive com grande sucesso em termos de postagens
retuitadas por usuários humanos da rede”.
Independentemente de ter ou não ocasionado mortes, o fato que o Blue Whale traz
à tona é o de que a computação cognitiva irá aumentar, em muito, a capacidade
de manipulação das massas, seja por parte de governos ou de grupos do crime
organizado.
“Está na hora da sociedade e da comunidade de segurança começarem a
refletir sobre este fato. A corrida em busca de tecnologias para detectar,
destravar e perseguir a origem desse tipo de ataque, com potencial de gerar
convulsões em massa, já mobiliza todo o setor de segurança. Mas só com muita
educação adequada às novas realidades da sociedade em nuvem é que poderemos
aumentar o nível de segurança das crianças e adolescentes na Internet”,
conclui Fragola.
Independente disso
tudo, a Safernet Brasil pontua que conteúdos e fóruns online e grupos em
aplicativos de troca de mensagens que incentivam formas de automutilação e
suicídio existem sim na Internet e sempre foram reportados por muitos usuários.
Em pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, 11% de crianças e
adolescentes relataram terem tido acesso às páginas que ensinavam formas de se
machucar e 6% de cometer suicídio, isso representa mais de 2,5 milhões de
crianças e adolescentes no Brasil. São dados preocupantes.
O nome do “jogo” já viralizou
na Internet e não faltam hashtags e fan pages. Entre os grupos, deve-se separar
aqueles com indivíduos que estão efetivamente cometendo o crime de induzir,
instigar ou auxiliar a morte de alguém, tipificado no Art. 122 do Código Penal,
daquelas que foram criados como consequência da onda de alarde e para “causar”
ou fazer trolagem.
Proibir o acesso a Internet pelos
filhos, confiscar celular e monitorar o uso de aplicativos através de programas
“espiões” são medidas pouco educativas e fadadas ao fracasso. Elas não previnem
os riscos e compromete o vínculo de confiança que deve existir entre pais e
filhos. Família e escola precisam estar perto dos jovens, promoverem o
diálogo, conversar de forma franca e aberta sobre como os adolescentes
podem lidar e responder a esses riscos. “É parte do desenvolvimento
saudável – e preparação para a vida adulta – que o adolescente desenvolva
habilidades para lidar com os riscos à sua volta, isso se chama resiliência,
que só pode ser desenvolvida enfrentando riscos num ambiente onde ele possa
pedir ajuda e com espaço para falar sem pré-julgamentos e reprimendas”, explica
a Safernet Brasil em sua página no Facebook.
A própria organização oferece um
serviço gratuito de escuta, acolhimento e orientação especializada destinado a
crianças, adolescentes, pais e responsáveis que estejam vivenciando alguma
situação de risco ou violência online. Sua equipe de psicólogos está disponível
das 14h às 18h através de chat ou por e-mail, em www.canaldeajuda.org.br.
Quer ajudar? Faça essa informação circular na sua empresa!
Aspectos jurídicos
O advogado José Antonio Milagre, afirma em artigo publicado pelo IDGNow! que
o alerta é conscientização! Além de conversar com seu filho, aluno,
colega, amigo e alerte dos riscos e para que o diálogo ocorra caso sejam
constrangidos ou coagidos a participarem do desafio, vítimas do crime digital
ou familiares precisam saber, segundo o advogado, que eles podem realizar
a quebra de sigilo informático judicialmente, por meio de um advogado
especializado ou mesmo autoridade policial, para identificar os
cibercriminosos que, se identificados, podem responder por lesão corporal
grave, caso as vítimas tenham se mutilado ou praticado “cutting”.
Criminosos virtuais também podem
responder por “induzimento ou instigação ao suicídio”, caso as
vítimas efetivamente deem cabo à própria vida. A pena pode chegar a seis
anos de reclusão de acordo com o art. 122 do Código Penal.
Se as pessoas por trás do desafio forem
menores, cometerão ato infracional, sujeitando-se às penalidades do Estatuto da
Criança e do Adolescente. Já no aspecto cível, as famílias e vítimas poderão
ingressar com ação reparatória pelos danos causados, que serão ressarcidos
pelos pais dos menores manipuladores ou curadores por trás do game, ou pelos
próprios criminosos, se maiores.
Lembre-se da sua responsabilidade social
Esta semana, o
filósofo holandês Koert
van Mensvoor, fez um alerta sobre os riscos da humanidade se
tornar escrava da tecnologia.
Para ele, o homem se encontra em uma
situação de encruzilhada no que diz respeito ao desenvolvimento e uso da
tecnologia. Segundo ele, o homem pode fazer com que sua relação com a
tecnologia se transforme num sonho ou num pesadelo.
No cenário do pesadelo, a tecnologia possui um
efeito parasita nos seres humanos e nos tornamos a primeira espécie a causar
seu próprio fim. No do sonho, a tecnologia está baseada nas necessidades
humanas como ponto de partida e, na verdade, é usada para criar um mundo mais
natural, um caminho recompensador para todo o planeta.
Suas reflexões integram uma carta aberta publicada
nesta quinta-feira (20). Em ‘Carta para a Humanidade’, em apoio ao Dia
Internacional da Terra, Van Mensvoort fala sobre os perigos da humanidade se
tornar escrava e vítima de sua própria tecnologia. Mas ao mesmo tempo, chama
atenção para o emprego da mesma a fim de aprimorar a raça humana. Segundo o
filósofo, há dois caminhos possíveis.
“Onde fica exatamente a fronteira entre as
tecnologias que facilitam a nossa humanidade e aquelas que nos encaixotam e roubam
o nosso potencial inato?”, questiona.
Endereçada a todas as 7 bilhões de pessoas na Terra, a carta do filósofo
foi traduzida em 25 idiomas, incluindo o português. Você pode lê-la na íntegra aqui.
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