O filósofo e economista político Francis Fukuyama certa vez descreveu a confiança como “a commodity mais importante que determinará o destino de uma sociedade”. Desde sempre ela é crítica para a continuidade dos negócios. Mas, à medida que o mundo se digitaliza e novas tecnologias aparecem, aliada à crescente complexidade dos dilemas contemporâneos, sua importância aumenta.
Com a tendência de empresas operando cada vez mais em ecossistemas e integradas digitalmente a outros players, clientes e demais stakeholders, fica uma pergunta: como projetar uma arquitetura digital que construa essa confiança sistematicamente, em cada processo e para cada participante envolvido?
A tecnologia de blockchain já foi apresentada como a milagrosa solução para esse problema. Realmente, ela assegura que um banco de dados descentralizado intermediário seja confiável. Isso é importante, porém, se trata de apenas uma parte do processo. O desafio real é construir e estimular a confiança de ponta a ponta em um negócio ou ecossistema. Uma rede que constrói isso em todas as camadas de confiança digital é chamada de DTN – Digital Trust Network, ou rede de confiança digital; e se configura como a “nova arquitetura da confiança”
As empresas estruturam uma DTN para melhorar seus ecossistemas, tornando-os mais eficientes e com processos que geram confiança entre todos os participantes ou que desempenham o papel da confiança, muitas vezes inexistentes entre os participantes, incorporando-a no sisitema . Consequentemente, melhoram seu serviço, entregam mais resultados e geram valor no seu entorno.
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Da teoria para a prática, já vemos grandes empresas fazendo isso. Uber, Airbnb, o marketplace da Amazon e o IOS, da Apple, são todos exemplos de DTNs eficientes; com elevada confiança sistêmica, sem necessariamente utilizarem Blockchains em suas arquiteturas. Não é coincidência que são empresas que cresceram rápido e estão consolidadas em seus setores.
Mas como nutrir essa confiança em cada processo de um ecossistema? E como reparar a falta dela? Em um contexto de intensa digitalização, o primeiro passo é redesenhar as redes digitais para que incorporem confiança e se tornem uma DTN. Um estudo recente do BCG, o Beyond Blockchain: The Promise of Digital Trust Networks, do qual sou um dos autores, indica que o ponto de partida é revisar, de forma abrangente, a rede de confiança da organização. São quatro etapas recomendadas:
Porém, é comum que os ecossistemas sejam colaborativos, sem a figura de um orquestrador central. Nesses casos, nenhuma das partes define as regras unilateralmente e, portanto, os diagnósticos precisam ser compartilhados e com alguma medida de consenso. Uma falta de colaboração nesse ponto poderá afetar drasticamente o desempenho do ecossistema e abrir flancos para movimentos competitivos.
Na era da informação e da digitalização, se torna mais complexo construir confiança – é fato. Também é óbvio, no entanto, que organizações que não tem confiança percebida ficam para trás no mercado. Daí a importância de uma estratégia que incorpore sistemicamente a confiança em uma estratégia ampla de digitalização e de ecossistemas, como as DTNs. Se isso não for planejado hoje, amanhã pode ser tarde demais.
* Marcos Aguiar é sócio do BCG Brasil e fellow do BCG Henderson Institute
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