Mais
de 90% das startups de tecnologia fracassam nos primeiros
anos de funcionamento, diz um recente estudo feito pela Allmand Law,
empresa norte-americana referência no setor.
Os motivos de tanto
fracasso são diversos, mas a “causa raiz” básica e principal é uma só: a
má gestão, afirma Marcelo Lima, Gerente de Projetos do Lean Institute
Brasil,
entidade sem
fins lucrativos que há mais de 18 anos dissemina entre as
empresas brasileiras o sistema lean, filosofia de gestão inspirada no
modelo Toyota que vem sendo adotada por organizações de diversos setores
e em boa parte do mundo.
Para
o especialista, apesar da variedade de fatores desse insucesso,
a maioria deles nasce justamente da gestão ruim. “Por exemplo, na má
gestão dos recursos humanos, na gestão financeira inadequada, na gestão
estratégica mal pensada, entre outras”, resumiu.
Nesta entrevista, Marcelo Lima, PhD
em Negócios pela Université Lumiere Lyon, da França, e
ehttps://itforum.com.br/wp-content/uploads/2018/07/shutterstock_528397474.webpso na aplicação do sistema lean em startups – com atuações na
alta liderança de grandes empresas como Multibrás-Whirlpool, Bunge, Fast
Shop e Merck Sharp Dohme –, discute
como o sistema lean pode ajudar a fortalecer
a gestão das startups, revertendo assim o alto índice de fracasso no
setor.
Tal
tema será também o assunto principal do treinamento “Startup
Lean: como começar uma empresa de sucesso!” que o especialista aplica dia 27 de abril, na sede da CI&T, em Campinas (SP).
Por que tantas startups fracassam no Brasil?
Marcelo Lima –
Eu vejo três principais fatores. O primeiro surge da falta de foco dos
fundadores do negócio, da falta de alinhamento e de complementaridade.
Em outras palavras, da ausência de um alinhamento adequado das
experiências dos fundadores da startup, no sentido de
uma complementar a outra. E é preciso ter dedicação exclusiva à
iniciativa. O segundo motivo de fracasso é a falta de capital necessário
para que as ambições da startup possam prosperar. E isso pode ocorrer
principalmente por falta de planejamento financeiro
adequado ou até mesmo por desperdício de capital. Por fim, como terceiro
fator há a falta de clareza sobre os desafios que se tem para fazer a
execução da gestão estratégica da startup. Ou seja, uma startup deve ter
foco na busca de um novo modelo de negócio,
enquanto que uma empresa tradicional tem como foco a execução de um
modelo de negócio já consolidado.
Então, a conclusão é que podemos dizer que a “má gestão”
é a principal razão da maior parte das startups fracassar ou não alcançar sucesso rapidamente?
Marcelo Lima –
Sim. A falta de foco dos fundadores no negócio, a falta de alinhamento e
complementaridade têm como causa direta uma ausência de gestão adequada
de recursos humanos. Uma gestão que deve fomentar na equipe da startup a
humildade intelectual, o espírito de grupo,
além da paixão pelo negócio. Em outras palavras, uma gestão que consiga o
alinhamento e a comunicação entre os colaboradores. Já a falta de
capital necessário e a falta de clareza sobre o desafio de se gerir uma
startup têm como causa direta, respectivamente,
uma ausência de gestão financeira adequada e uma carência de uma gestão
estratégica ideal, incluindo aí tanto a elaboração como a execução dessa
estratégia.
De que maneira então o sistema lean pode ajudar a reverter
esse quadro e contribuir para o sucesso de uma startup?
Marcelo Lima –
O sistema lean, sua filosofia, conceitos, técnicas e “ferramentas”, tem
como base transformar uma determinada realidade organizacional focando
sempre nos “problemas” que se precisa resolver. No caso das startups, o
problema maior é justamente como melhorar
a gestão para que se atinja o sucesso. Para resolver isso, há a dimensão
da “melhoria dos processos” que precisa ser trabalhada. Em outras
palavras, cabe ao gestor melhorar as práticas reais e contínuas de
trabalho dentro da startup para aperfeiçoar a forma
como tudo é feito.
E como isso pode ser feito na prática?
Marcelo Lima –
Em linhas gerais, trata-se de estabelecer estratégias de gestão para
desenvolver as pessoas que atuam no negócio. Trabalhar numa dimensão
ligada à capacidade e à habilidade dos colaboradores que compõem a
startup. É preciso que a gestão trabalhe para adequar
essa capacidade e essa habilidade em todos os níveis do negócio. Nesse
caso, é preciso ir ao “gemba”, local onde o valor é criado para aprender
a realidade da companhia, abraçar a filosofia da descoberta e
aprendizado e desenvolver a multifuncionalidade de
todos. Por tudo isso, é preciso se focar na construção de uma liderança
responsável por todos esses fatores, para assim desenvolver esse modelo
de gestão de forma mais eficiente.
Como deve ser a liderança de uma “startup lean”?
Marcelo Lima –
Trata-se de uma liderança que precisa, principalmente, “acender” a
paixão dos colaboradores e demais públicos alvos da startup, como
clientes, fornecedores e investidores. Além disso, é uma liderança que
precisa cotidianamente “aprender com os clientes”. Isso
significa perceber as necessidades que os clientes têm e se a empresa
está atendendo essas necessidades. Isso impõe aprender rápido com os
erros e com os acertos. Por isso, a startup precisa ser muito flexível e
ágil. Em outras palavras, mudar rapidamente de
rumo quando for necessário.
O sistema lean pode ser implementado em qualquer tipo
de startup?
Marcelo Lima – Sim.
E
se bem implementado pode ser de extrema valia para a evolução dessa
empresa em todas as fases de seu ciclo de vida. É importante que se
saiba que tanto as startups corporativas, aquelas que nascem dentro de
uma grande empresa já consolidada, quanto as “independentes”,
que surgem de forma autônoma, sem ligação com uma empresa tradicional,
podem se beneficiar igualmente da filosofia, dos conceitos e das
práticas e ferramentas do sistema lean.
Na sua visão quais as principais dificuldades que as
startups enfrentam especificamente no Brasil?
Marcelo Lima –
As principais dificuldades estão na gestão estratégica, financeira e de
recursos humanos: há, por exemplo, muitos desperdícios em todas essas
áreas. Em particular, desperdícios de energia e de tempo dos
colaboradores que fazem atividades que muitas vezes não
agregam valor ao “norte verdadeiro” da startup.
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