No trânsito e em outros ambientes
Mas não é apenas no Metrô que o carioca ixperto exerce sua insociabilidade.
Por exemplo: quando usa escadas rolantes ele fica parado, inerte, inabalável, tanto do lado direito quanto do esquerdo do degrau. E se agasta caso alguém pretenda ultrapassá-lo subindo a escada “a pé”. Além de se ofender e fazer cara feia, muitas vezes obstrui propositalmente a passagem, como se impedir o caminho de quem tem mais pressa do que ele fosse um direito seu, inalienável, pois afinal estava na frente do “adversário” e considera insultante ser deixado para trás (atitude que, se é desagradável na escada rolante, no trânsito pode ser desastrosa como já veremos).
Talvez quem sabe devido à contaminação, há alguns anos, em uma longa escada rolante de um centro comercial de Taipé, distraído com o mapa da cidade que consultava, postei-me do lado esquerdo do degrau e ali permaneci. Até me dar conta do que estava ocorrendo, recebi tantas invectivas em chinês que, suspeito, D. Eulina deve ter sofrido muito na eternidade onde repousa. Porque em Formosa, como em quase todo o mundo, vigora uma regra comportamental singela, porém eficaz: quem não tem pressa nem energia para subir os degraus, permanece parado do lado direito da escada rolante e deixa o esquerdo livre para quem, seja lá por que razão, tem pressa e galga os degraus para acelerar a viagem. E bastou um olhar para me dar conta que todos os transeuntes que trafegavam pela escada rolante naquele momento assim se comportavam, exceto eu ? que, envergonhado, percebi então a razão das reclamações e mudei de lado. É simples assim: cada um atende suas necessidades e nenhum atrapalha as alheias. Um comportamento ético e, sobretudo, racional, que faz bem a todo o mundo e não prejudica ninguém mas que foge da compreensão limitada do carioca ixperto.
Outra faceta peculiar do carioca ixperto é o fato dele, ao que parece, padecer de severa incontinência urinária. O fato desta enfermidade se manifestar principalmente durante as grandes festas populares, como Carnaval, festividades do ano novo, paradas, desfiles e demais ocasiões caracterizadas por grandes aglomerações, pode levar a crer que, de certa forma, o ato de urinar nas ruas, se não é aceitável, pelo menos seria compreensível considerando o grande volume de líquido ingerido nestas ocasiões e a notória escassez de banheiros públicos.
Mas não: o carioca ixperto é mijão por natureza. Faz parte de seu caráter e já integrou-se ao padrão comportamental da espécie. Pois é comum encontrar, em qualquer época do ano e a qualquer hora do dia ou da noite, geralmente em áreas relativamente isoladas ou nas margens de vias expressas, exemplares ? em geral de machos da espécie, mas não exclusivamente ? urinando parcialmente ocultos por portas de carros, folhagens ou qualquer coisa que possa oferecer algo que ele considere como “proteção”. Urinar em público, portanto, é mais uma característica da espécie.
Outro campo em que se manifesta claramente a absoluta ausência de qualquer senso de ética e sociabilidade do carioca ixperto, como seria de esperar, é o trânsito. E no trânsito, para identificar um elemento da espécie, sequer é necessário que ele esteja em movimento: ao parar, também, o carioca ixperto se revela em toda magnificência de sua estupidez. Pois estaciona seu carro em qualquer lugar, independentemente do fato de estar ou não obstruindo entradas de garagem ou o tráfego de pedestres e veículos. Faz isto inclusive e principalmente sobre as calçadas. E faz com absoluta naturalidade, como se aquele trecho da via pública lhe pertencesse. Não se dá ao trabalho de verificar se impediu algum acesso a cadeirantes nem se preocupa em deixar espaço na calçada para mães trafegarem com seus carrinhos de bebê. Se vier alguma, que desça da calçada e se aventure com seu rebento pelo meio da rua. Seu problema de estacionamento foi resolvido. O resto, não é com ele.
No volante de um veículo em movimento o carioca ixperto é um perigo. Constitui permanente risco à segurança e à vida alheia (eventualmente também à própria, mas suas limitações intelectuais não o deixam perceber este detalhe). A rua é dele e ele não está disposto a dividi-la com ninguém. E, sobretudo, cada um de seus deslocamentos pela cidade é encarado por ele como mais uma etapa de um interminável campeonato, um infindável torneio de velocidade e fúria. Por isto, não admite ser ultrapassado. E, se o for, encara o fato como uma ofensa pessoal e sai em perseguição do incauto que perpetrou tal insanidade com uma sanha assassina que só é saciada se conseguir devolver a ofensa, ultrapassando por sua vez o antagonista. E, na ocorrência não pouco improvável de que ambos os contendores sejam membros da espécie carioca ixperto, é altamente aconselhável a quem presenciar tal confronto manter distância prudente, já que durante a sôfrega disputa que então se desenrola, para os cariocas ixpertos nela envolvidos, os circunstantes são como estas figuras animadas de joguinhos de computador que, ao serem atingidas por um veículo, simplesmente desaparecem da tela ? e da consciência do atropelador ? em um passe de mágica.
O carioca ixperto reina soberano no trânsito. Evidentemente não respeita sinal fechado, placas de contramão, faixas de pedestres e quaisquer outras sinalizações do mesmo gênero, que considera meros empecilhos a seu majestoso deslocamento. Organiza grupos nas redes sociais para informar uns aos outros onde as autoridades policiais estão, naquele momento, realizando operações de fiscalização. Não obedece regras, normas, recomendações, leis, decretos, regulamentos, estatutos, prescrições ou quaisquer dispositivos de igual teor, que considera terem sido concebidos apenas para os indivíduos da outra espécie, o homo sapiens sapiens, e por isso mesmo estrila quando eles os descumprem, considerando-se cheio de razão. E, por último mas não menos importante, o carioca ixperto “se acha”.
Mas de todas as atitudes do carioca ixperto, a que mais me incomoda, por absolutamente incompreensível, é sua estranha compulsão para fechar cruzamentos. Sim, porque o verdadeiro carioca ixperto nas horas de maior movimento, quando o trânsito é lento e os carros acabam parados no engarrafamento, não pode ver um sinal prestes a fechar sem que, pressurosamente, acelere até que seu veículo se coloque imediatamente atrás do que está parado à sua frente. E se isto não for o bastante para obstruir completamente o cruzamento, logo surgirá outro carioca ixperto que se colocará imediatamente atrás do primeiro, para-choques quase colados, e assim por diante, até que toda a área esteja completamente tomada por uma súcia de cariocas ixpertos e seja absolutamente impossível atravessar quando o sinal abrir para a transversal.
(a foto da Figura 4, obtida no magnífico sítio do fotógrafo Michael Fairchild, ao qual eu aconselho enfaticamente uma vista pela beleza das fotos ali exibidas, mostra uma manada de búfalos selvagens tentando atravessar um rio na reserva animal de Masai Mara, no Quênia, mas serve perfeitamente para ilustrar uma récua de cariocas ixpertos obstruindo um cruzamento).
Por mais que eu dê tratos à bola, não consigo entender esta faceta peculiar do comportamento do carioca ixperto. As demais, embora não as aprove, ao menos compreendo. Afinal, todas elas são caracterizadas por um pequeno ganho pessoal independentemente da gravidade do prejuízo que este ganho possa causar a terceiros. Forçar a entrada prematura no carro do Metrô pode, quem sabe, por mais remota que seja a probabilidade, garantir um lugar para sentar. Viajar todo o percurso junto à porta perturba a saída dos demais em todas as paradas mas facilita sua própria descida no destino. Estacionar sobre a calçada obstrui o tráfego de pedestres mas evita perder tempo procurando vaga. Urinar na rua pode não ser higiênico mas é a forma menos trabalhosa de aliviar a bexiga. Mas obstruindo cruzamentos, ganha-se o que?
Nada. Não se chega ao destino um segundo antes, já que o trânsito adiante está parado e tanto faz percorrer lentamente os poucos metros que levam até o veículo que está engarrafado mais à frente antes do sinal fechar ou fazê-lo mais rapidamente quando abrir e o trânsito tiver se movido. Pior: fechar o cruzamento engarrafa o trânsito na via transversal, o que pode gerar reflexos que irão, em cadeia, piorar o fluxo mais adiante no próprio trajeto do carioca ixperto, portanto além de nada ganhar, é possível perder mais algum tempo no engarrafamento.
Então por que, meu Deus, por que atravancar um cruzamento?
Pois o carioca ixperto jamais desperdiça uma oportunidade para fazê-lo.
Eu disse que esta era a característica comportamental da espécie que mais me irrita?
Me enganei. Não é.
A que mais me irrita mesmo é uma que se manifesta quando eu, no volante de meu carro, vejo o trânsito engarrafar à frente, percebo que não dará tempo para cruzar a transversal antes que o sinal feche e paro meu carro antes do cruzamento para evitar interromper o tráfego na transversal.
Eu sempre faço isto, por hábito. Pois bem: em grande parte das vezes que o faço, um carioca ixperto que foi obrigado a parar atrás de mim, em pleno exercício de seu mais elevado grau de estupidez, incivilidade e insociabilidade, começa a buzinar freneticamente, sinalizando para que eu siga adiante e não o impeça de fechar o cruzamento.
É esta que me tira do sério.
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B.Piropo
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