Juntando as pontas
Nesta altura dos acontecimentos presumo que já tenhamos condições de “juntar as pontas” destes fiapos de conhecimento para chegarmos a alguma conclusão.
Então vamos nessa…
Na coluna passada vimos como o algoritmo de busca de imagens do Google foi capaz de, em pouco mais de meio segundo, vasculhar seu banco de dados que armazena, presumivelmente, todas as imagens exibidas na Internet e descobrir uma foto de características similares àquela que lhe foi apresentada como modelo, escolhida casualmente entre as imagens armazenadas em meu disco rígido.
Para os que não leram a coluna: a imagem encontrada pelo Google não foi a mesma usada como modelo. Nem foi um trecho ampliado ou recortado dela. Foi uma segunda foto, também obtida por mim, na mesma ocasião porém em ângulo diferente, do mesmo objeto que usei para ilustrar uma coluna publicada em meados do ano passado.
Como o Google foi capaz de descobri-la em tão pouco tempo entre as centenas de milhões de imagens de seu banco de dados?
Ora, empregando uma tecnologia rigorosamente homóloga à adotada para reconhecimento de fisionomias, ou seja, determinando os pontos (e cores, e formas) relevantes da foto usada como modelo, calculando em tempo real as relações espaciais e cromáticas existentes entre eles, codificando-as (note que a foto original estava no meu disco rígido, o Google jamais a havia “visto” ? quero crer nisto com todas as forças de minha rala fé na tecnologia que protege a privacidade de meus dados pessoais ? e portanto todos os cálculos foram feitos na hora) e comparando o resultado com os código das imagens existentes na Internet, previamente varridas por seu dispositivo de busca. Enfatizando: o Google foi capaz de descobrir em menos de um segundo a imagem equivalente na rede.
Agora, vamos juntar este conhecimento com os demais discutidos na coluna de hoje.
Pense um pouco: dentro de alguns anos, todas as ruas e locais públicos de todas as cidades do mundo estarão sendo permanentemente vigiados por câmaras de alta definição e excelente qualidade de imagem, capturando vídeos diuturnamente e mantendo-os arquivados por um tempo que pode se estender por décadas.
Todas estas câmaras estarão interligadas via Internet e os vídeos por elas armazenados serão tão acessíveis quanto queiram seus donos. Ou, pior: quanto queiram as autoridades policiais e governamentais da região em questão. Uma espécie de YouTube de alcance mundial.
Estes lugares públicos são os mesmos percorridos por mim, por vocês, por todos nós em nossas lides diárias seja quando trabalhamos, quando nos divertimos ou quando estamos fazendo seja lá o que estivermos fazendo nos lugares em que costumamos ? ou que não costumamos ? fazê-las. Quer nos seja indiferente que os outros saibam, quer não.
Se não usarmos máscaras, bigodes postiços, perucas ou seja lá o que for para disfarçar a aparência, estaremos percorrendo estes lugares com nossa costumeira fisionomia, aquela mesma que envergamos todo o dia gostando dela ou não.
E esta fisionomia será filmada, sua “faceprint” codificada e, dependendo da vontade das autoridades policiais, governamentais ou seja lá que autoridades forem as que dominarem a tecnologia e as leis, nosso caminho diário, desde o momento em que deixemos a porta de nossas casas até a hora que a ela retornarmos ao final do dia, será traçado passo a passo, identificado, codificado, armazenado e posto permanentemente ao alcance de quem detiver o direito de usar esta tecnologia. Um negócio muito mais assustador que o da obra de ficção de George Orwell, “1984” (sim, houve também um filme, mas por difícil que seja crer, o livro foi indescritivelmente melhor) onde as imagens eram examinadas ao vivo por vigilantes que representavam o “Grande Irmão”.
Espantou-se?
Pois já existe tecnologia para isto. Só falta aperfeiçoá-la um pouco, reduzir um pouco seu preço e se dispor a aplicá-la (na TV americana há uma série, “Person of interest”, retransmitida pela TV a cabo no Brasil, baseada mais ou menos nesta ideia).
Você gostaria de viver em um mundo como este?
Se não, convém começar a se movimentar.
Porque, para mim, tanto faz. Afinal, já passei dos setenta e não tenho muito com que me preocupar.
Mas, a vocês, em benefício da moça mais bonita do mundo que você viram na foto mais acima, que só tem três anos e que, juntamente com meus outros netos, é a luz de meus olhos, peço encarecidamente: façam alguma coisa…
Porque o risco existe e é de assustar…
B.Piropo
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