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The Garage quer transformar Brasil em fábrica de soluções, não só de ideias

Em vez de apostar na busca incessante por unicórnios, a The Garage, criada pela Nexmuv, quer mostrar que startups podem e devem nascer com método, propósito e maturidade desde o primeiro pitch. Nada de romantizar o improviso ou contar com histórias de sorte. O caminho, para a empresa, é mais pé no chão, com foco em negócios sustentáveis, crescimento responsável e impacto real.

“Não buscamos investidores para sonhar com o próximo boom. Buscamos compradores para soluções sólidas. Nossa meta é vender 20 startups em dez anos. É o jogo de longo prazo, e é assim que se transforma o mercado”, avalia Carlos Perobelli, diretor-executivo da Nexmuv e idealizador da The Garage.

Com duas décadas de estrada em software e mais de 400 projetos entregues, Perobelli viu cedo o que muita gente só descobriu com a ressaca do venture capital em 2023: inovação sem base quebra rápido.

Segundo a CB Insights, mais de 90% das startups no mundo fecham antes de completar cinco anos, muitas sem sequer atingir o ajuste de produto no mercado. No Brasil, o cenário é ainda mais duro. Estudo da Abstartups aponta que a taxa de mortalidade gira em torno de 65% nos primeiros três anos. E quando o capital de risco retrai, como aconteceu em 2023 e 2024, a conta chega sem pedir licença.

Em 2024, os investimentos globais em startups somaram US$ 312 bilhões, segundo o Crunchbase, queda de 38% em relação ao pico de 2021. No Brasil, os aportes ficaram em R$ 17 bilhões, menos de 0,6% do volume mundial.
“Com esse cenário, a lógica do unicórnio ficou insustentável. Grandes nomes quebraram ou encolheram. A nova onda é construir negócios com base, com governança, com proposta de valor clara. E é aí que a The Garage entra”, explica Perobelli.

Camelos, não unicórnios

“Queremos criar negócios que caminham no deserto, aguentam o tranco e sabem a hora certa de beber água”, resume o empreendedor. A metáfora tangibiliza o desejo da The Garage. Enquanto o mercado idolatra unicórnios, a Nexmuv Ventures acredita em camelos, empresas resilientes, com base sólida, que crescem para resolver problemas e podem ser vendidas com tração real.

A inspiração vem do modelo europeu de startup studios, um movimento em franca ascensão no mundo, com mais de 900 estúdios ativos nos EUA e Europa, de acordo com o Global Startup Studio Network (GSSN). No Brasil, contudo, o conceito ainda engatinha. “Fomos os primeiros a criar um modelo de startup studio com metodologia própria no País. Não é consultoria, não é incubadora, não é aceleração. É criação com método desde a ideia”, afirma Perobelli.

IA como meio, não como hype

No centro da tese de investimento da The Garage está a inteligência artificial (IA), não como buzzword, mas como ferramenta essencial de eficiência e escala. O foco são soluções B2B com IA embarcada, em setores como saúde humana, saúde animal, logística e varejo. “A dor precisa ser real. O mercado precisa estar pronto. E o fundador precisa ter alinhamento com nossos valores. Ideia só no papel não nos interessa.”

Com isso, o startup studio promete colocar um MVP validado no mercado em até 45 dias. Se o piloto apresenta tração, o projeto recebe estrutura de marketing e vendas, e a expectativa é de que atinja o ponto de equilíbrio em até 12 meses.

Formando uma nova geração de CEOs

Um dos pilares do estúdio é a The Garage Business School, iniciativa que capacita fundadores e executivos para atuar com IA no contexto de startups. “Não dá mais para ter CEO que não entende de tecnologia. Por isso estamos criando também uma academia de IA, voltada para formar os líderes que vão de fato transformar o mercado”, conta.
A ambição é, até 2035, criar 20 startups vendidas por R$ 50 milhões cada e gerar R$ 1 bilhão em faturamento acumulado.

“É o equivalente a um unicórnio, só que com menos pirotecnia e mais execução”, provoca Perobelli.
Brasil entre riscos e oportunidades

O Brasil, com mais de 13,5 mil startups ativas segundo a Abstartups, tem potencial para muito mais, mas ainda sofre com informalidade, baixa maturidade em gestão e falta de capital inteligente. “Não aguentamos mais perder jovens brilhantes para o exterior. Temos talento. O que falta é método, consistência e visão de longo prazo.”

Com a Nexmuv Ventures e a The Garage, Perobelli quer mostrar que dá para fazer diferente e até melhor. “O Brasil não é para amadores. Mas também não precisa ser um cemitério de ideias boas. Nosso trabalho é transformar ideias em negócios vendáveis, com impacto e permanência.”

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