“Somos péssimos no que nos torna humanos”. A provocação de Brené Brown, pesquisadora de coragem, vulnerabilidade e empatia, não é confortável, mas é essencial nos dias de hoje. Em um momento em que a indústria se depara com transformações tecnológicas sem precedentes, ela emenda em um alerta: “Se achamos que o que nos torna humanos vai nos salvar, precisamos entender que isso não vai aparecer magicamente. São habilidades que precisam ser reaprendidas. E são difíceis”.
No palco do SAS Innovate 2025*, em Orlando, nos Estados Unidos, a autora de best-sellers como “A coragem de ser imperfeito” e “A arte da imperfeição” não se esquivou de temas espinhosos. Falou abertamente sobre o desconforto de líderes que evitam discutir o uso e o abuso do poder. “Os únicos líderes que não querem conversar honestamente sobre poder são os que pretendem abusar dele ou preferem não saber demais, caso precisem usá-lo de forma errada”, aponta.
A dificuldade de encarar o próprio impacto se conecta com o que Brené considera o maior gatilho de vergonha no ambiente profissional. Segundo ela, é o medo da irrelevância. “Quando a mudança chega e não nos sentimos preparados, o instinto é cruzar os braços, se tornar territorial, repetir frases nostálgicas como ‘sempre fizemos assim aqui’. E isso, ironicamente, garante a irrelevância”, avalia. “É o tipo de armadura que nos afasta da liderança verdadeira”.
A tese central da conversa que ela teve com a CMO do SAS, Jennifer Chasem, girou em torno do conceito de paradoxo. Para Brené, liderar hoje é aprender a manter verdades aparentemente opostas, incluindo ousadia e humildade, velocidade e escuta, disciplina e criatividade. “Não fomos programados neurologicamente para viver nesse nível de incerteza constante”, diz. “Mas é isso que o nosso tempo exige.”
A especialista compartilhou ainda sua crença de que estamos “vivendo além da escala humana”. A quantidade de dados, decisões e pressões diárias ultrapassa a capacidade natural de processamento do cérebro. Isso não é apenas uma questão técnica, é profundamente emocional. “Para onde vai o humano quando tudo ao redor exige performance, produtividade, entrega?”, questiona.
Ao ser provocada a falar sobre vulnerabilidade, tema que a consagrou em sua palestra TED com milhões de visualizações, ela não hesitou. “Vulnerabilidade não é fraqueza. É o risco emocional de amar, de tentar, de mostrar que você se importa”. E, para líderes, ela é inescapável. “Não existe coragem sem vulnerabilidade. Eu desafio qualquer um a me mostrar um ato de coragem que não envolveu exposição, risco ou incerteza.”
E ela foi além no tema. “Liderar de forma corajosa é reconhecer quando estamos agindo para nos proteger. É ter a habilidade de voltar a uma conversa e dizer: ‘Eu não gostei de como agi. Posso tentar de novo?’”.
Apesar do seu foco em aspectos humanos, Brené também celebrou o poder dos dados, mas com ressalvas. “Há poesia nos dados. Mas a verdade neles depende de quem os usa e para quê”. Ela mesma, apesar da sua fama como comunicadora, se define como uma introvertida que encontra paz e beleza no processo solitário de codificação de dados. “Dados são minha linguagem de amor”, brincou, ao explicar como eles podem ser usados como ferramenta de compaixão, desde que não percam o fator humano.
Brené encerrou sua participação com uma reflexão para os líderes, como não poderia deixar de ser. “A liderança corajosa exige criar espaço entre o estímulo e a resposta. Que desacelere. Que não reaja no impulso. Que escolha com intenção”.
E completou com um ensinamento que resume sua filosofia. “Se você é líder e não sente profunda afeição pelas pessoas que lidera, ou encontra outro caminho, ou você está no caminho de alguém que precisa muito desse emprego para pagar o tratamento de câncer do filho. O poder exige responsabilidade”, encerrou arrancando aplausos da audiência.
*A jornalista viajou a convite do SAS
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