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“Escolhi a tecnologia, porque era a profissão do futuro”, afirma Simone Okudi

Simone Okudi começou em tecnologia muito cedo. Estudante de escola pública e de origem humilde, a atual CIO da Stanley Black & Decker para América Latina, sabia, ainda jovem, do impacto dos estudos na vida das pessoas.

Cursar um ensino médio de qualidade em escola técnica federal tornou-se, então, sua meta. Fez cursinho para garantir uma das vagas já que esse tipo de colégio era bastante concorrido e ingressou na área de tecnologia na então Escola Técnica Federal de São Paulo, no Canindé — atual Instituto Federal São Paulo.

“Escolhi a tecnologia, porque era a profissão do futuro, ainda hoje é promissora, e pensei que pode ser aplicada a qualquer área de negócio. Quando comecei a fazer o curso, me apaixonei; tinha muita lógica e a lógica me encantou”, conta. Foi ali também que ela entendeu o quanto a tecnologia era inovadora e disruptiva e quanto ela tinha potencial de gerar impacto nas pessoas e nas organizações.

Aos 18 anos, já trabalhava na área. Ingressou, na época, no que era a divisão de exportação da Suzano Papel e Celulose como analista júnior e aprendeu de tudo nos quatro anos que permaneceu no emprego: de plataforma baixa e mainframe a banco de dados e uma série de linguagens de programação. A TI não tinha a verticalização como nos dias de hoje.

O passo seguinte da carreira foi na Avon Cosméticos; e durou 22 anos. Nas mais de duas décadas, não teve rotina. “Foram várias empresas dentro de uma só. Mudava presidência, mudava diretoria, mudava estratégia e eu fui acompanhando isso”, conta. Tudo mudou, contudo, com um convite para assumir uma posição de head na Stanley Black & Decker.

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Era junho de 2018 quando Okudi, que tinha cargo de direção reportando para a vice-presidência na Avon, passou a responder como diretora de TI da operação do Barasil na Stanley Black & Decker. “Assumi uma posição de maior destaque, mas, em casa, foi uma comoção. Meu filho mais velho me falou: ‘mãe, você tem certeza absoluta de que você vai sair de uma empresa para mulheres e ingressar numa para homens?’ E eu falei: ‘bom, se você pensa assim, eu tenho mais que um trabalho: eu tenho uma missão nessa empresa’”, lembra.

Mudar a mentalidade passou a ser um lema. Logo na primeira reunião na nova firma, isso se confirmou. “Eu olhei à minha volta e tinha somente eu de mulher na reunião do board. Perguntei para o presidente se não havia outras mulheres na diretoria. Ele esperou alguns minutos e respondeu: ‘Simone, deixa eu te falar uma coisa, você é a primeira diretora da história da companhia no Brasil e eu estou aqui desde quando era só Black & Decker’”, conta.

O sentimento foi de honra e de responsabilidade. O pioneirismo tem seu peso e Okudi sabia disso. Com o tempo, diretoras foram sendo contratadas até a liderança alcançar a marca de metade dela ser mulheres.

Com a pandemia e uma consequente redução da jornada de trabalho, Okudi enxergou uma oportunidade para intensificar sua atuação no grupo de mulheres CIOs, o MCIO. “Comecei a trabalhar com a Renata Zeppelli, da Pepsico, e o Laércio Albuquerque, da Cisco, numa iniciativa que a gente chamou de Academia MCIO”, diz, explicando o foco em treinamento e mentoria para incentivar meninas nas carreiras de exatas. Hoje, a iniciativa soma 400 meninas treinadas na Academia, que também expandiu as trilhas de atendimentos.

Na Stanley Black & Decker, depois de três anos respondendo pela TI do Brasil, passou a liderar também a América Latina e, novamente, o pioneirismo bateu à sua porta. Foi a primeira diretora mulher de tecnologia para a região.

E, conforme aumentava a presença de mulheres nas cadeiras da companhia, isso refletiu também para fora. “Comecei a provocar o diretor de marketing perguntando por que só colocava homens nas fotos de propaganda”, diz, orgulhosa de agora a Irwin, uma das marcas do grupo, conversar com público feminino.

“A presença de mais mulheres começa a realmente provocar uma transformação muito profunda na empresa, em pensar em como a gente se posiciona”, analisa.

Ao fazer um balanço do mercado de tecnologia da informação nesses seus pouco mais de 30 anos de carreira, Simone Okudi diz que houve mudanças positivas com relação à presença das mulheres, mas ressalta que as dificuldades não estão totalmente superadas. “Hoje temos, mais ou menos, 30% das posições de tecnologia ocupadas por mulheres”, diz, sinalizando a necessidade de incentivar mais meninas a ingressar na carreira de profissões ligadas à STEAM.

Ela se orgulha da atuação nos projetos sociais e no engajamento escrevendo livros que são usados para estimular a trazer mais mulheres dentro da tecnologia.

Em sua avaliação, a presença feminina ainda é muito pequena em relação ao potencial e também na proporção de mulheres que ingressam na carreira e chegam ao topo. “Ainda temos muitos desafios e preconceitos”, pontua.

“Área de tecnologia é transformadora; se você quer mudar o mundo, venha para tecnologia e venha consciente que você tem de ter resiliência. Ao mesmo tempo que tem oportunidade de ter esse poder transformador e inovador nas mãos, você não vai enfrentar um ambiente fácil e o tempo todo tem de se atualizar, ser curiosa”, reflete.

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