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“Eu fui atrás de todas as oportunidades”, diz Solange Sobral sobre trajetória na tecnologia

Aos nove anos, Solange Sobral ouviu na televisão que tecnologia seria a profissão do futuro. A frase ficou. Décadas depois, ela lidera a expansão europeia da CI&T como sócia e vice-presidente executiva da companhia. No caminho entre uma coisa e outra, enfrentou desafios que, segundo ela, vão além da formação técnica.

Em entrevista ao IT Forum, a executiva fala sobre racismo, meritocracia e liderança em um setor ainda majoritariamente masculino. Para ela, ampliar a presença de mulheres negras na tecnologia exige mais do que discursos institucionais.

“Lidar com o medo faz parte da resposta. É muito difícil crescer se você não luta por oportunidades e não identifica as pessoas certas para te impulsionar”, afirma.

Além da atuação na CI&T, Solange também integra conselhos de empresas como Vivo e Telefónica Espanha, onde participa de discussões sobre governança e estratégia.

Leia também: Tecnologia abre portas para inclusão financeira de mulheres, aponta pesquisa da Creditas

Da programação à liderança

Formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e com mestrado pela Unicamp, Solange iniciou a carreira como desenvolvedora. Apesar da formação técnica sólida, ela diz que frequentemente precisava provar sua capacidade.

“Eu tinha o mesmo conhecimento técnico que qualquer homem branco na equipe. Mesmo assim, o cenário é difícil porque as pessoas já chegam com um viés e você precisa se provar o tempo todo”, afirma.

A experiência, segundo ela, revelou que o principal desafio da carreira não estava apenas no domínio da tecnologia, mas também no ambiente social em que as decisões profissionais acontecem.

Questionando a meritocracia

Durante muitos anos, Solange acreditou que dedicação e desempenho seriam suficientes para avançar na carreira. Essa percepção começou a mudar após uma aula de inglês sobre microagressões de gênero.

“Ali eu percebi que já tinha vivido muitas dessas situações e não tinha identificado. Foi quando comecei a estudar mais sobre o tema e conversar com outras mulheres”, afirma.

A reflexão também foi estimulada dentro de casa. Seu filho mais velho, professor de história, passou a questionar a forma como ela interpretava sua própria trajetória. “Ele sempre me perguntava sobre o meu papel como mulher negra. Naquela época eu ainda acreditava que tudo era apenas mérito individual”, diz.

Liderança e responsabilidade

A ascensão a posições executivas não aconteceu de forma linear. Segundo Solange, cada avanço exigiu decisões que envolviam risco e exposição. “Nenhum passo caiu no meu colo. Eu fui atrás de todos, muitas vezes com medo e frio na barriga”, afirma.

Ela destaca que, ao longo da carreira, contou com líderes que identificaram seu potencial e incentivaram novos desafios. Entre eles está Cesar Gon, fundador e CEO da CI&T. “Eu tive o suporte de alguém que me incentivava a aceitar oportunidades mesmo quando eu estava insegura. Esse tipo de apoio é importante para qualquer profissional”, afirma.

Hoje, Solange afirma que parte de sua responsabilidade como executiva é ampliar oportunidades para outras pessoas dentro das organizações. “Se você não deixa outras pessoas assumirem protagonismo, é muito difícil que novos líderes surjam.”

Diferenças entre Brasil e Europa

À frente da expansão da CI&T na Europa, Solange observa diferenças entre os mercados. Segundo ela, países europeus avançaram mais na criação de regras formais de governança e compliance relacionadas à diversidade.

Por outro lado, ela afirma que o ambiente profissional brasileiro costuma apresentar redes de apoio mais informais entre mulheres.

“Comparando com outros lugares, no Brasil existe um apoio maior entre mulheres no dia a dia, nas conversas e nas trocas de experiência”, afirma. Mesmo assim, ela ressalta que o cenário global ainda apresenta desafios semelhantes. “No geral, a questão de gênero está longe de ser resolvida. O setor de tecnologia ainda é dominado por homens”, diz.

Para profissionais em início de carreira, a executiva diz que o avanço depende de formação técnica, redes de apoio e disposição para assumir novos desafios. “O medo sempre aparece. A diferença é aprender a seguir em frente mesmo quando ele está ali”, conclui.

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