“Soberania digital é conhecer e saber usar tecnologia de forma eficiente”, defende Cezar Taurion

Por mais de cinco décadas, Cezar Taurion acompanhou de perto as grandes transformações do setor de tecnologia. Ingressou na área no fim dos anos 1970, ainda na era dos mainframes, quando os Centros de Processamento de Dados (CPDs) eram espaços restritos e cercados de misticismo. “Era um negócio de cientista maluco. As pessoas olhavam pelas paredes de vidro, curiosas, vendo as fitas girando e os operadores de jaleco apertando botões”, relembra, em conversa com o IT Forum.

Trabalhar com tecnologia nem sempre foi seu plano. Na época, cursava Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e pretendia seguir carreira na aviação. O rumo mudou depois que um professor o levou para ver um mainframe em funcionamento. “Achei aquele negócio muito legal. Comecei a programar em Cobol e Assembly e acabei permanecendo na área”, explica.

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Sua trajetória inclui posições de liderança em grandes empresas. Entre 1995 e 2002, esteve na PwC, onde foi Senior Manager e, depois, sócio-diretor, liderando a prática de IT Strategy. Nesse período, conduziu projetos de alta complexidade para transformar o papel da TI em grandes corporações. Também atuou como Technical Evangelist na IBM, acompanhando disrupções tecnológicas e seus impactos nas estratégias de negócios.

Atualmente, exerce o cargo de conselheiro independente, auxiliando empresas a desenvolver estratégias de inovação e uso de inteligência artificial. Além disso, mantém-se ativo no meio acadêmico e como palestrante.

Sua extensa trajetória, no entanto, lhe proporcionou uma visão pouco romântica da evolução tecnológica no Brasil. Entre 1984 e 1992, viveu de perto a experiência da reserva de mercado, que pretendia impulsionar a indústria nacional de informática. “A ideia inicial foi boa, mas a implementação foi um desserviço. Usávamos máquinas obsoletas, enquanto o resto do mundo avançava rapidamente”, avalia.

Brasil e a soberania digital

Comemorado nesta sexta-feira (15), o Dia da Informática nos convida a refletir sobre esse passado e sobre o futuro da tecnologia no País. O momento é crítico: atualmente, o tema da soberania digital, por exemplo, volta à pauta. Com o acirramento das guerras comerciais e dos embates entre governos e Big Techs, especialmente dos Estados Unidos, a importância do desenvolvimento de tecnologias independentes de entes estrangeiros é novamente discutida.

Taurion, entretanto, adota uma definição mais pragmática sobre o conceito de soberania digital. Para ele, não se trata de competir com potências como EUA e China – algo inviável pelo custo e pela escala –, mas de reconhecer nossas fortalezas. “Construir tecnologia de ponta exige centenas de milhões de dólares, e o Brasil não tem esse fôlego. Soberania é conhecer e saber usar a tecnologia de forma eficiente para resolver os nossos problemas”, afirma.

Ele cita o agronegócio como exemplo. O setor já é uma das principais forças da economia brasileira e, com investimentos adequados em tecnologia, pode se destacar no cenário global. O projeto “Ideas for Milk”, desenvolvido pela Embrapa Gado de Leite, é uma dessas iniciativas. Utilizou pequenas inovações – como sensores para verificar a qualidade do leite na coleta – que reduziram perdas e aumentaram a produtividade. “Não é lançar foguete para Marte. É usar o que já existe, mas de forma inteligente”, diz.

O setor financeiro é outro exemplo claro de aplicação bem-sucedida da tecnologia no Brasil. Taurion recorda que, historicamente, a alta inflação exigiu soluções rápidas e eficientes, o que acelerou a digitalização dos serviços bancários. Hoje, o país é referência mundial, com sistemas como o Pix, que se popularizou em tempo recorde e inspirou iniciativas semelhantes no exterior. “A velocidade com que as coisas aconteceram no setor financeiro é impressionante. Somos um exemplo para o mundo”, afirma.

A vulnerabilidade, contudo, é evidente. Plataformas, redes sociais, sistemas de pagamento e infraestrutura digital estão quase totalmente nas mãos de empresas estrangeiras. “Se cortassem o acesso ao Google, WhatsApp ou GPS, o país pararia. Não temos alternativas próprias”, aponta. Para ele, a estratégia viável é aproveitar os recursos disponíveis para fortalecer setores em que o Brasil já é competitivo, e não tentar replicar o Vale do Silício.

“Não faz sentido a formiga querer competir com o elefante. Mas podemos construir um formigueiro fantástico, usando bem o que o elefante nos oferece”, conclui.

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