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Noéle Gomes: o que líderes de tecnologia podem aprender com a ancestralidade africana

Retomar matrizes africanas para reenraizar práticas de gestão, presença e legado. Essa foi a proposta trazida pela especialista em saberes ancestrais, Noéle Gomes, para líderes de tecnologia durante o Escola de CIOs, programa promovido nesta semana pelo Instituto Itaqui, no Distrito Itaqui. “Quando a gente fala de ancestralidade, não estamos falando de passado. Estamos falando daquilo que nos enraíza”, refletiu.

Mineira, pesquisadora há mais de duas décadas de filosofias africanas e afrofuturismo, Noéle sintetiza sua missão: “levo esses saberes para pessoas e corporações porque há muita coisa valiosa que é ancestral e que a gente não conecta”. Para ela, o futuro do trabalho, especialmente em setores tecnológicos, exige essas raízes profundas – profissionais conscientes de si, de seus valores e do impacto que irradiam.

A base conceitual apresentada vem dos povos Dágara, da África Ocidental. Segundo Noéle, essa filosofia compreende a liderança como um exercício de serviço. “Líder é aquele que serve mais. Mas não é o servir da servidão – é servir como solução. E não a solução que o próprio líder acha que é a certa, mas sim uma construída no coletivo”, explicou. Em um ambiente corporativo em que decisões rápidas, pressões de entrega e mudanças constantes moldam rotinas, a noção de escuta ativa e construção conjunta reaparece como competência crucial, defendeu ela.

Leia mais: Comunicação é a competência-chave que definirá o futuro dos CIOs, diz Renata Barcelos

Noéle relacionou a prática a tendências globais de habilidades socioemocionais, destacando que, até 2026, competências como influência emocional e visão sistêmica sobre relações ganharão centralidade. “Antes de um CNPJ vem um CPF”, provocou. O recado é direto para líderes de tecnologia: não há inovação sustentável sem cultura, sem identidade e sem relações humanizadas.

Para explicar identidade e marca pessoal, Noéle recorre novamente a um referencial ancestral. Identidade, diz, é “quem eu sou quando não estou sendo fotografada”. Marca pessoal, por sua vez, é a energia que o nome de alguém carrega – o impacto afetivo, ético e emocional que a presença de uma pessoa deixa nos ambientes. “Quando as pessoas falam do seu nome, o que elas sentem? É bom quando o tóxico é o vizinho. Mas e quando somos nós?”, questionou.

Outro ponto central é a ideia de legado. Para os Dágara, legado não é material, mas referencial. “Legado é quando acontece algo difícil e o seu nome aparece como alguém que consegue resolver”, explicou. Em um setor em que reputações se constroem a partir de entregas, mas também de comportamentos, essa perspectiva amplia o entendimento do impacto individual.

A mensagem final reforçou a dimensão humana da inovação tecnológica. Para Noéle, o grande desafio dos próximos anos será reaprender a se relacionar após os impactos emocionais da pandemia, especialmente em um mundo hiperconectado e hiperdistraído. A presença torna-se um antídoto. “A nossa maior distração hoje é o celular. Quem ganha com isso? Certamente não somos nós”, finalizou.

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