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Nicholas Carr: a internet está afetando o cérebro humano

Em um artigo publicado em 2008 na revista The Atlantic, o professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology) Nicholas Carr pergunta ao leitor: “Is Google Making Us Stupid?” (Estaria a Google nos deixando estúpidos? – em tradução livre do inglês). Quando o artigo saiu, era provável que “sim, a web tem o poder de nos distrair e influenciar em como trabalhamos. Agora ‘deixar-nos estúpidos?’ Não, de jeito nenhum”.

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Agora, passados dois anos da publicação do artigo de Carr, a certeza não é mais tanta. O autor expandiu o ensaio em forma de um artigo para as páginas de um livro chamado “The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains” (Oblíquo: O que a internet está fazendo com nossos cérebros – em tradução livre do inglês). A obra realiza uma expedição para dentro do cérebro de internautas e traz à tona os resultados do constante estímulo exercido pela Internet em nossas capacidades de concentração, de guardar informações, de racionalizar e de sentir empatia.

Em um trecho do livro, Carr escreve: “Ao longo dos últimos anos tenho a estranha sensação de que algo ou alguém andou fazendo experimentos com o meu cérebro, que remapeou e reprogramou.”

O autor recarrega e dispara contra o que pensa ser o grande malfeitor desse fenômeno: a Google.

“Cada clique na internet mina nossa concentração, destrói os fundamentos de nossa atenção.”, escreve, acrescentando: “O negócio da Google é vender distração”.

É preciso avisar, antes de mais nada, que o livro não é uma obra que prega o ciberapocalipse. O único pecado do autor consiste em não oferecer ao leitor as soluções para a série de questionamentos que levanta. Antes de tudo, Carr é um especialista em TI e não vislumbra a chegada de uma nova era de intelectualismo contemplativo e anuncia a plenos pulmões a característica principal intrínseca às inovações tecnológicas (de Gutemberg até a televisão): ela distrai.

Carr reúne um elenco bastante relevante de dados obtidos com base em trabalhos recentes e práticos – não tão experimentais assim. Baseado no que descobre, afirma que a tecnologia não está mudando o que fazemos, mas, também, como pensamos.

Ele apresenta referências do trabalho da psicóloga Patrícia Greenfield, desenvolvido na universidade californiana de Los Angeles (UCLA). Ela estuda a influencia da mídia na maneira de aprendermos. “Cada mídia desenvolve determinadas competências cognitivas em detrimento de outras. O uso crescente das mídias nos monitores fomenta o aperfeiçoamento da inteligência espacial. Isso pode nos habilitar a dar conta de diversas tarefas ao mesmo tempo, como é o caso de controladores de tráfego aéreo”, pontua. “Ao mesmo tempo, as tarefas que demandam conhecimentos mais refinados, com o é o caso de recursos linguísticos, habilidade de reflexão, resolução de problemas com base na indução e o pensamento crítico, perdem”, completa.

Ou, se preferirmos a síntese de Carr: “o ser humano está ficando superficial”.

Conflito de opiniões

Existem experiências em andamento que apontam para outro lado. Em um denso artigo publicado na seção de crítica literária do jornal New York Times do mês passado, Johan Lehrer citou descobertas de cientistas da UCLA que indicam um aumento da atividade cerebral quando se realizam pesquisas no Google – atividade superior à registrada quando um livro é lido.

Leher segue em rota de plena colisão com as afirmações de Carr. “Espantoso. Essa área do cérebro é responsável por determinadas aptidões, como atenção seletiva e análise deliberada. Justamente as áreas que Carr afirma estarem desaparecendo”, afirma. Ainda segundo ele, o Google pode ser comparado a uma academia de ginástica para o cérebro, voltada a deixar as pessoas mais espertas.

Carr contra-argumenta com a informação de que os cérebros humanos são moldáveis. “Interrupções e distrações constantes enquanto estamos online impede que os cérebros exercitem de maneira eficaz as conexões neurais responsáveis por determinar a profundidade do raciocínio e a distinção entre as ideias. O que acontece é que nos tornamos unidades interpretadoras de sinais, passamos horas pastoreando informações desconexas e remendando fragmentos de memória temporária”, diz.

Até mesmo os links que oferecem ao leitor o acesso às informações necessárias não contidas no texto representam, na verdade, uma distração, acredita Carr. A pesquisadora da universidade de Michigan, Erping Zhu, realizou um ensaio com pessoas que liam o mesmo artigo online, mas com estruturas de links diferentes. Ela conclui que a qualidade da informação absorvida era inversamente proporcional ao número de links nas matérias. Zhu explica: Os leitores tinham a tarefa de avaliar a importância de cada link no contexto informacional dos artigos. Isso lhes tomava muito tempo e comprometia a capacidade que o cérebro tem em absorver as informações.

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Redação
16 anos ago

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