Reinaldo Roveri, especialista do IT Forum Inteligência (Imagem: Divulgação/Arte IT Forum)
Quanto mais a inteligência artificial (IA) avança, mais as relações humanas tendem a ganhar importância. É a partir desse paradoxo que Reinaldo Roveri, especialista do IT Forum Inteligência e sócio-diretor da Stratica, enxerga o atual momento do mercado de tecnologia.
Em um ambiente em que algoritmos produzem respostas convincentes, mas nem sempre corretas, empresas e profissionais passam a buscar “portos seguros” — pessoas, instituições e parceiros em quem confiam. A abundância de informação, em vez de eliminar a necessidade de mediação humana, aumenta o valor do senso crítico, da curadoria e credibilidade.
Essa lógica, segundo Roveri, já aparece na contratação de serviços de tecnologia. Em projetos cada vez menos previsíveis, marcados por mudanças rápidas e escopos sujeitos a ajustes, a escolha de um parceiro não depende apenas de domínio técnico. Depende também da confiança de que ele estará presente quando os problemas surgirem.
“Estamos entrando em um momento em que os projetos, por mais que tenham escopo, não são previsíveis. A tecnologia muda muito rápido, as pessoas também mudam, e a gente sabe que vai dar problema”, diz.
Nesse cenário, confiança se torna ativo competitivo. Criatividade, flexibilidade e resolutividade voltam a ter peso em um mercado pressionado por custos, juros elevados e menor margem para erro. Do lado dos compradores, há menos espaço para apostas mal calculadas. Do lado dos fornecedores, margens espremidas tornam insuficiente a velha lógica baseada apenas em receita, lucro e corte de custos.
Por isso, Roveri vê uma mudança de mentalidade nas empresas de tecnologia: sair da obsessão exclusiva por receita para uma discussão sobre valor. A pergunta, em sua avaliação, não deve ser apenas como reduzir custos, mas como adicionar mais valor à cadeia, aos produtos, aos serviços e à relação com o cliente. “Nem tudo o que sustenta a competitividade cabe em métricas financeiras”, conta.
A experiência que atravessou a popularização dos PCs à nuvem, a TI corporativa tradicional à IA generativa o leva a enxergar menos rupturas absolutas e mais movimentos contínuos de transformação. Em vez de apenas acompanhar tendências, busca interpretar o que elas significam para estratégia, posicionamento e execução.
A relação de Roveri com a tecnologia começou ainda na adolescência. No início dos anos 1990, quando os computadores pessoais começavam a se popularizar no Brasil, ele teve seu primeiro contato com um PC em casa. Movido pela curiosidade e com a ajuda de um vizinho que dominava informática, mergulhou rapidamente em um universo de comandos em DOS, instalação de softwares e configuração de máquinas. A experiência despertou não apenas o interesse pela tecnologia, mas também a convicção de que essa seria a área em que construiria sua carreira.
O caminho, porém, não seria o da programação. Formado em Marketing, Roveri percebeu cedo que seu interesse estava menos no código e mais na capacidade da tecnologia de transformar negócios, processos e mercados. Ainda jovem, ao vender sua primeira página na web para uma loja de equipamentos de ginástica do bairro, começou a enxergar a tecnologia como instrumento de posicionamento, relacionamento e geração de valor para empresas.
A entrada formal no setor de tecnologia aconteceu na Ingram Micro, onde atuou em suporte pré-vendas e teve contato direto com as dinâmicas comerciais do mercado de TI. Após quatro anos, ingressou na IDC como analista de mercado, unindo sua formação em marketing ao conhecimento técnico acumulado. Ao longo de nove anos na consultoria, cresceu até assumir a liderança da área de pesquisas enterprise, acompanhando transformações importantes do setor, como a evolução dos mainframes, a virtualização e os primeiros movimentos de computação em nuvem no Brasil.
Para ele, um dos trabalhos mais marcantes desse período foi um estudo sobre o mercado de mainframes no Brasil, realizado em um momento de transição para plataformas mais distribuídas. “Entrevistei cem executivos para compreender não apenas a base instalada, mas também a percepção de valor dessas plataformas dentro das organizações”, conta.
Essa experiência o levou à Microsoft, onde participou de iniciativas ligadas à transição para modelos de serviços em nuvem e à adaptação da companhia a uma nova lógica de consumo de tecnologia. Após dois anos na empresa, a intenção de tirar um período sabático rapidamente deu lugar a projetos de consultoria estratégica para organizações como OpenText, Samsung e a própria Microsoft, até se tornar sócio da Stratica.
Nos anos seguintes, alternou a atuação como consultor e executivo, com passagens pela Tivit e pela Zenvia, sempre em posições relacionadas a inteligência de mercado, portfólio, go-to-market e estratégia. Hoje, na Stratica, ajuda empresas de tecnologia a identificar oportunidades de crescimento, desenvolver novos negócios e transformar estratégia em execução, combinando a visão analítica de mercado com a experiência prática de quem já esteve dos dois lados da mesa.
É a partir dessa trajetória que ele observa o atual ciclo de transformação tecnológica. Para Roveri, conceitos como inteligência artificial, low code, reuniões on-line e automação não são exatamente novos. O que mudou foi a escala, a facilidade de acesso e a qualidade da experiência. A tecnologia ficou mais simples de usar, mais rápida de disseminar e mais presente nas decisões de negócio. Mas, justamente por isso, também se tornou mais difícil separar o que é ruído do que é informação confiável.
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