Hidrogênio subterrâneo a preços competitivos pode redefinir mapa global dos data centers

A corrida por energia limpa, estável e em grande escala colocou os data centers no centro das discussões sobre infraestrutura energética. Uma nova abordagem baseada em hidrogênio produzido diretamente no subsolo começa a ganhar espaço nesse debate e pode influenciar onde essas estruturas serão construídas nos próximos anos.

A proposta vem da Vema Hydrogen, startup que desenvolveu um método para estimular a liberação de hidrogênio a partir de formações rochosas ricas em ferro. A empresa anunciou recentemente a conclusão de um projeto-piloto no Canadá e, no fim de 2025, fechou um acordo para fornecimento de hidrogênio a data centers na Califórnia.

De acordo com informações do Tech Crunch, diferentemente do setor automotivo, que enfrenta dificuldades para escalar o uso do hidrogênio, aplicações industriais e de infraestrutura digital aparecem como um terreno mais fértil para a tecnologia. A lógica é simples: data centers precisam de fornecimento contínuo de energia e, ao mesmo tempo, estão sob pressão crescente para reduzir emissões de carbono.

Hidrogênio produzido no subsolo

O modelo da Vema parte da perfuração de poços em regiões com tipos específicos de rocha. Ao combinar água, calor, pressão e catalisadores, essas formações passam a liberar hidrogênio, que é então capturado e comercializado. Segundo a empresa, áreas relativamente pequenas seriam suficientes para atender demandas relevantes: poucos quilômetros quadrados poderiam suprir mercados regionais inteiros.

O primeiro poço-piloto já produz algumas toneladas de hidrogênio por dia. O próximo passo é a perfuração de um poço comercial, com profundidade próxima de 800 metros, prevista para entrar em operação em 2026. A expectativa é alcançar custos inferiores a US$ 1 por quilo, um patamar considerado referência para o chamado hidrogênio limpo.

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Comparação com métodos tradicionais

Hoje, a maior parte do hidrogênio global é produzida por reforma a vapor do metano, processo conhecido como SMR, que utiliza gás natural e gera emissões significativas de dióxido de carbono. Mesmo alternativas menos poluentes, como a eletrólise alimentada por energia renovável, ainda apresentam custos elevados.

Estimativas da International Energy Agency indicam que o hidrogênio via SMR custa entre US$ 0,70 e US$ 1,60 por quilo. A captura de carbono pode elevar esse valor em cerca de 50%, enquanto a eletrólise com eletricidade de baixo carbono encarece ainda mais o processo. Nesse contexto, a promessa de hidrogênio geológico a menos de US$ 0,50 por quilo chama a atenção do mercado.

Reconhecimento acadêmico e potencial geográfico

Estudos do Oxford Institute for Energy Studies classificam o chamado hidrogênio mineral estimulado como uma das rotas mais limpas disponíveis, já que não depende de combustíveis fósseis nem de grandes volumes de eletricidade.

Outro fator relevante é a distribuição geológica. As rochas-alvo da Vema estão presentes em várias regiões do mundo. Na Califórnia, por exemplo, formações de ofiolito, ricas em ferro e originadas do fundo do oceano, são abundantes. Isso abre a possibilidade de produção local de hidrogênio próximo a grandes polos de data centers, reduzindo custos logísticos e aumentando a segurança do fornecimento.

A empresa também vê potencial no Quebec, onde o projeto-piloto foi realizado e onde há demanda industrial estimada em dezenas de milhares de toneladas por ano.

Para operadores de data centers, o principal atrativo está na oferta de energia de base descarbonizada, capaz de complementar fontes renováveis intermitentes. Se os custos projetados se confirmarem, a geologia local pode se tornar um fator estratégico tão relevante quanto conectividade ou incentivos fiscais na decisão de onde instalar novas infraestruturas digitais.

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