Pesquisa da Thomson Reuters mostra que empresas avançam no uso individual de IA, mas ainda enfrentam dificuldades para transformar a tecnologia
A adoção da inteligência artificial avança rapidamente entre profissionais das áreas jurídica, tributária, de auditoria e compliance, mas a capacidade das organizações de transformar esse uso em resultados concretos ainda está aquém das expectativas. É o que aponta o relatório Future of Professionals 2026, divulgado pela Thomson Reuters.
O estudo, realizado com 1.800 profissionais em diferentes mercados, identifica uma crescente distância entre os planos corporativos para IA e sua aplicação efetiva no cotidiano das empresas. Segundo o levantamento, essa lacuna já começa a gerar impactos financeiros, operacionais e de retenção de talentos, com até US$ 143 bilhões em receita de clientes sob risco apenas nos mercados jurídico e contábil dos Estados Unidos.
De acordo com a pesquisa, 74% dos profissionais utilizam ferramentas de inteligência artificial semanalmente. Apesar disso, 91% acreditam que suas organizações ainda não exploram todo o potencial da tecnologia.
Para Steve Hasker, presidente e CEO da Thomson Reuters, o cenário evidencia uma divisão cada vez mais clara entre empresas que conseguem operacionalizar a IA e aquelas que ainda enfrentam dificuldades para fazê-lo. “Estamos vendo surgir uma divisão clara”, disse. “Escritórios que estão operacionalizando a IA estão avançando mais rápido. Os que não estão, começam a assumir riscos reais em talento, clientes e desempenho financeiro. Fechar essa lacuna de execução agora é um imperativo de negócio para escritórios profissionais”.
O relatório mostra que a execução continua sendo um dos principais desafios. Entre os entrevistados, 35% afirmam que as metas relacionadas à IA não se refletem nas operações diárias, enquanto cerca de um em cada cinco diz que sua organização ainda não possui uma estratégia clara para a tecnologia.
Um dos efeitos desse descompasso é o crescimento do uso de ferramentas não autorizadas pelas empresas. Segundo o estudo, um terço dos advogados, contadores e profissionais de compliance recorre a soluções de IA sem aprovação corporativa, criando riscos difíceis de monitorar.
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A situação é ainda mais evidente entre os profissionais que avaliam que suas organizações avançam lentamente na adoção da tecnologia: nesse grupo, 41% utilizam ferramentas não homologadas. Ao mesmo tempo, 96% defendem que soluções de IA devem proteger informações confidenciais, 94% consideram essencial o uso de conteúdo confiável e verificado e 90% afirmam que os resultados precisam ser transparentes e passíveis de explicação. Apesar dessas exigências, 41% relatam não ter acesso a ferramentas profissionais que atendam a esses critérios.
A pesquisa também aponta impactos crescentes sobre a retenção de profissionais. Entre aqueles que percebem uma diferença significativa entre o potencial da IA e a entrega efetiva de suas empresas, 24% afirmam considerar deixar o emprego nos próximos dois anos. Desse total, 13% cogitam a mudança já nos próximos 12 meses.
O acesso a ferramentas avançadas de IA também se tornou um fator relevante para decisões de carreira. Segundo o estudo, 62% dos entrevistados afirmam que a disponibilidade de IA profissional influenciaria a aceitação de uma nova oportunidade de trabalho. Entre os profissionais que já utilizam essas tecnologias, quase um terço afirma que recusaria uma vaga que não oferecesse esse tipo de recurso.
Enquanto as organizações buscam acelerar a implementação da IA, os clientes também demonstram expectativas mais elevadas. O levantamento mostra que 78% dos clientes corporativos consideram muito importante ou essencial que seus fornecedores utilizem inteligência artificial para melhorar a qualidade dos serviços prestados. No entanto, apenas 6% acreditam que a maioria dos fornecedores já entrega esse valor.
Como consequência, 32% dos clientes pretendem reavaliar seus fornecedores ao longo dos próximos 12 meses. Entre eles, um terço afirma ter mais de US$ 1 milhão em trabalho anual potencialmente sujeito à revisão, o que contribui para a estimativa de cerca de US$ 143 bilhões em receitas sob reavaliação nos mercados jurídico e contábil norte-americanos.
Para Hasker, o desafio não está apenas em adotar IA, mas em utilizar soluções adequadas para ambientes que exigem alto grau de responsabilidade e confiabilidade. “Nem toda IA é igual. Em profissões com responsabilidade legal, o padrão precisa ser muito mais alto”, disse Hasker. “Quando os resultados impactam decisões jurídicas, regulatórias ou aconselhamento a clientes, ‘quase certo’ não é suficiente. Por isso desenvolvemos o que chamamos de IA de nível fiduciário, uma tecnologia que os profissionais podem verificar, confiar e sustentar.”
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