O ex-CEO da Intel, Pat Gelsinger, fez um diagnóstico contundente sobre o desempenho da companhia na corrida pela inteligência artificial (IA), atribuindo os desafios atuais a uma série de decisões equivocadas acumuladas ao longo de 15 anos. Em entrevista ao programa Squawk Box, da CNBC, Gelsinger afirmou que a empresa “perdeu a liderança técnica” e passou anos sendo comandada por executivos que não eram engenheiros, o que teria atrasado sua entrada na revolução da IA.
Segundo o ex-executivo, a Intel falhou em manter o protagonismo que a consagrou como referência em semicondutores, permitindo que concorrentes como a Nvidia capturassem quase todo o crescimento do mercado de data centers voltados à inteligência artificial. Apesar disso, Gelsinger destacou o avanço recente da companhia com o processo de fabricação 18A, que marca um esforço de retomada tecnológica.
Durante a entrevista, Gelsinger defendeu a importância de manter a produção de chips em solo norte-americano, como forma de fortalecer a cadeia de suprimentos e reduzir dependências externas. “Precisamos de liderança em P&D e de capacidade de fabricação em larga escala nos Estados Unidos”, afirmou.
O ex-CEO também apoiou a decisão do governo norte-americano de adquirir participação acionária na Intel, destacando que o sucesso desse movimento deve ser medido apenas por um critério: o aumento da produção local de semicondutores. “O único indicador que importa é se isso resulta na construção e operação de mais fábricas no país. Se isso acontecer, é positivo; se não, é um erro”, declarou.
Gelsinger expressou ainda frustração com o ritmo de implementação do CHIPS Act, programa criado para incentivar a fabricação e pesquisa em semicondutores nos EUA. A lei, sancionada em 2022 pelo presidente Joe Biden, prevê bilhões de dólares em incentivos à indústria, mas, segundo o executivo, os repasses demoram a chegar às empresas.
“Fiquei extremamente decepcionado com o atraso na liberação dos recursos. Foram dois anos e meio perdidos, um período crítico em que nada aconteceu”, disse Gelsinger, referindo-se ao Departamento de Comércio e à secretária Gina Raimondo. “Esses anos poderiam ter feito uma enorme diferença na competitividade americana.”
A declaração ocorre em meio à tentativa da Intel de reconquistar relevância em um setor cada vez mais dominado por Nvidia, AMD e empresas asiáticas. A aposta no processo 18A e nos novos chips voltados a aplicações de IA é vista como parte do esforço para reposicionar a empresa no centro da inovação tecnológica global.
Nos bastidores, analistas apontam que o retorno da Intel ao topo exigirá não apenas inovação técnica, mas também uma mudança cultural profunda. O foco em engenharia, bandeira de Gelsinger desde sua chegada à liderança em 2021, continua sendo visto como o caminho mais promissor para o renascimento da empresa fundada em 1968 e que foi sinônimo de liderança em computação por décadas.
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