Enquanto entidades setoriais intensificam a articulação em Brasília para instalar a comissão especial da Medida Provisória nº 1.318/25 antes do recesso parlamentar, o mercado de infraestrutura digital se depara com uma equação complexa. Se por um lado a aprovação do Regime Especial de Incentivos para Data Centers (Redata) é vital para estancar um déficit comercial de tecnologia que chegou a US$ 6,8 bilhões em 2024, por outro, a materialização desses investimentos enfrenta gargalos que nenhuma canetada legislativa resolve imediatamente: o relógio da Reforma Tributária e a crise de oferta na cadeia global de suprimentos.
A urgência do pleito liderado por associações como a ABDC e a Brasscom justifica-se pelos custos, já que operar um data center no Brasil é, em média, 30% mais caro do que em outros países, majoritariamente devido à carga tributária. No entanto, para Mariana Martins Kubota, advogada do escritório Stocche Forbes, o alívio proposto pela MP tem um horizonte temporal desafiador.
Embora o Redata prometa a suspensão de tributos federais (PIS/Cofins, IPI e Imposto de Importação) a partir de 1º de janeiro de 2026, a transição para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em 2027 coloca uma data de validade nesses benefícios. Sem uma regulamentação específica que transporte as isenções para o novo regime, a janela de oportunidade para importação de maquinário com alíquota zero pode durar apenas 12 meses. Atualmente, a carga tributária na importação desses equipamentos ronda os 37,5%, custo que voltaria a pesar sobre o fluxo de caixa dos projetos caso a transição fiscal não seja ajustada.
Mesmo que o Congresso atenda ao clamor das entidades e o Redata seja aprovado a tempo, a conversão do incentivo fiscal em infraestrutura real esbarra na física. Pietro Delai, diretor de soluções empresariais para a América Latina no IDC, alerta que a construção de data centers não é um processo de “estalar os dedos”.
A instalação dessas estruturas exige um planejamento que precede em anos a operação efetiva. O ciclo envolve desde a construção dos prédios e a importação de geradores a diesel, máquinas que permanecem no local por 20 ou 30 anos, até a complexa refrigeração necessária para os servidores modernos.
O principal obstáculo não é apenas o custo, mas a disponibilidade. A explosão da inteligência artificial generativa criou uma disputa global por GPUs (unidades de processamento gráfico). A fabricação desses componentes depende de máquinas de litografia ultravioleta extrema, cuja produção é lenta e restrita a poucos fornecedores globais, gerando filas de espera que afetam até gigantes de tecnologia.
“Não existe capacidade. A empresa vale trilhões de dólares, tem dinheiro no bolso, e mesmo assim não consegue atender o mercado”, explica Delai, referindo-se à escassez de chips de alta performance. Isso significa que, mesmo com o incentivo do Redata aprovado, o Brasil continuará competindo por hardware em um mercado de oferta restrita. O benefício fiscal será imediato apenas para players que já possuem pedidos colocados e projetos em andamento.
Outro ponto de atenção é a exigência de uso de energia renovável prevista no texto da MP. Embora o Brasil possua uma matriz elétrica atrativa, Delai adverte para a falta de sincronia entre geração e consumo. A dependência de hidrelétricas sujeitas a regimes de chuvas e a dificuldade de armazenar as energias eólica e solar criam cenários de instabilidade tarifária, as famosas bandeiras vermelhas, que impactam o custo operacional.
Para o analista, a matriz brasileira é “linda”, mas não perfeitamente escalável para a demanda voraz e constante de novos data centers de IA sem investimentos massivos em transmissão e armazenamento de energia.
O Redata, portanto, chega como uma peça fundamental de transição para tentar reduzir o “Custo Brasil” e atrair investimentos de longo prazo. Contudo, seu sucesso dependerá de como o setor navegará entre a pressa política de Brasília, a transição tributária de 2027 e os limites físicos da cadeia de suprimentos global.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!
Neil Redding será o palestrante de abertura do IT Forum Praia do Forte 2026. Com…
Apesar da consolidação da computação em nuvem como um dos pilares da transformação digital, uma…
As equipes de segurança cibernética enfrentarão um cenário cada vez mais complexo nos próximos anos,…
Apenas uma em cada três pessoas dos Estados Unidos aprova o ritmo acelerado de construção…
Desde o início do ano, a redação acompanha como a Copa do Mundo 2026 extrapola…
A NiCE anunciou a criação do NiCE Labs, um laboratório voltado ao desenvolvimento e à…