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Estratégia digital do Ceará vai além do data center do TikTok

O anúncio de que o TikTok instalará um dos maiores data centers da América Latina no Ceará fez barulho. Mas para Daniel Bentes, secretário-executivo de modernização e governo digital da Secretaria de Planejamento do Estado (Seplag), o movimento confirma algo que o Ceará vem construindo há anos em silêncio: uma infraestrutura de tecnologia e energia limpa que está se tornando um ativo estratégico nacional.

“A parte de energia limpa tem ajudado muito. Produzimos muito mais do que o que consome. O TikTok é um dos primeiros, mas tem muitos outros em negociação”, disse Bentes durante coletiva de imprensa realizada no .NEXT 2026*. Além da abundância energética, o estado detém outra vantagem geográfica pouco conhecida: Fortaleza é o principal ponto de entrada de cabos de fibra ótica internacionais no Brasil, o que torna o estado um nó natural de conectividade para data centers.

Para Bentes, porém, atrair grandes empresas é apenas uma das faces do projeto. A outra é garantir que a população local se beneficie. O estado tem investido em educação em tempo integral há anos, possui três universidades estaduais e está construindo um distrito de inovação para reter os talentos formados localmente. “A ideia é dar oportunidade para o pessoal em vez de se formar e ir embora do Ceará”, afirmou.

Leia também: Nutanix aposta em IA agêntica e soberania digital no .NEXT 2026

Tecnologia que serve, não que impressiona

Bentes chegou à Seplag vindo do setor privado, com formação em estatística aplicada e experiência em telecomunicações. Sem ser técnico de carreira, adotou uma abordagem que desafia o padrão do setor público: antes de escolher qualquer tecnologia, foi de secretaria em secretaria perguntar quais eram os problemas reais da população.

“Em momento nenhum falamos de tecnologia. Conversamos sobre os problemas da população. Tecnologia é meio, não é fim”, resumiu. Com esse diagnóstico em mãos, identificou que quase 95% da infraestrutura da Seplag rodava em nuvem pública, gerando custos crescentes sem controle. A busca por alternativas levou a secretaria à Nutanix, plataforma que Bentes descreve como uma solução modular que permite migrar gradualmente, sem obrigar ninguém a abandonar o que já funciona.

Um dos primeiros resultados concretos foi a digitalização das matrículas escolares. Antes, famílias enfrentavam filas desde a madrugada para garantir vagas nas escolas públicas estaduais. A aplicação desenvolvida pela equipe da Seplag, rodando sobre a infraestrutura da Nutanix, digitalizou 100% das matrículas em dezembro passado. O custo foi um oitavo do que havia sido cobrado por soluções anteriores.

O mesmo princípio se aplica a outros serviços. O estado desenvolveu um prontuário digital que reúne todo o histórico de atendimentos de saúde de um cidadão em um único aplicativo. Está em construção um sistema para as mais de 1,5 mil cozinhas comunitárias do estado, que registrará fotograficamente os alimentos servidos e calculará automaticamente os nutrientes de cada refeição, garantindo que a população carente receba o que foi contratado.

IA com sotaque cearense

O projeto mais inusitado em desenvolvimento é uma inteligência artificial batizada de CE.IA, pronunciada “ceia”. Treinada com dados e expressões do cotidiano cearense, a ferramenta foi concebida para reduzir a distância digital entre o governo e a população, respondendo perguntas em uma linguagem que faça sentido para quem vive no estado. “A ideia é ser mais empático com o pessoal. Tem alguns termos bem engraçados que incluímos”, contou Bentes, com bom humor.

A iniciativa estava pronta do ponto de vista técnico, mas travada por falta de hardware capaz de rodá-la. Com a chegada das oito GPUs adquiridas junto à Nutanix, o CE.IA deve entrar em operação nos próximos meses.

Outro projeto em estágio avançado é o Cidadão 360, que cruza dados de 500 mil CPFs com bases federais e estaduais para identificar benefícios sociais a que cada pessoa tem direito mas ainda não recebe. O objetivo é que o aplicativo do governo notifique automaticamente o cidadão e permita a inscrição com um clique. “Queremos chegar na hiperpersonalização”, explicou.

Para Bentes, o fio condutor de tudo está nas pessoas. “Não tem nada a ver com tecnologia. Tem a ver com servir a população. É só olhar para a população.”

*A jornalista viajou a convite da Nutanix

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