Pesquisadores da Stanford avançaram no desenvolvimento de interfaces cérebro-computador (BCIs) capazes de decodificar a chamada “fala interna”, pensamentos estruturados em forma de linguagem, de pessoas com paralisia. A inovação, publicada na revista Cell, pode devolver a pacientes com severos comprometimentos motores a possibilidade de se comunicar de forma fluida e sem esforço físico.
A pesquisa é conduzida por Frank Willett, professor assistente de neurocirurgia em Stanford, ao lado de colegas como Erin Kunz e Benyamin Meschede-Krasa. O time implantou microeletrodos minúsculos no córtex motor de pacientes. Esses eletrodos captam sinais neurais relacionados à tentativa de fala ou à imaginação da fala.
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Com auxílio de algoritmos de aprendizado de máquina, o sistema reconhece padrões associados a fonemas, as menores unidades sonoras da fala, e os combina para formar palavras e frases. O método já havia mostrado bons resultados com pacientes tentando falar ou escrever mentalmente. O novo estudo amplia essa fronteira ao demonstrar que até mesmo a fala silenciosa e imaginada gera sinais claros no cérebro, passíveis de decodificação.
De acordo com os pesquisadores, depender de tentativas de fala pode ser desgastante para pessoas com paralisia parcial, que enfrentam dificuldades de controle respiratório ou emitem sons involuntários. A possibilidade de usar apenas o monólogo interno como base para comunicação abre espaço para uma experiência mais natural e menos cansativa.
No estudo, quatro voluntários com graves limitações motoras foram avaliados. Os cientistas observaram que a fala interna gera padrões cerebrais semelhantes, embora em menor intensidade, aos da fala tentada. Isso permitiu alcançar uma prova de conceito: ainda com menor precisão que os métodos anteriores, mas suficiente para indicar a viabilidade futura de uma comunicação rápida e confortável apenas com pensamentos.
Uma das preocupações levantadas é a possibilidade de a tecnologia “captar” pensamentos que não deveriam ser comunicados. Para evitar esse risco, os cientistas testaram mecanismos de proteção. Entre eles está um treinamento para que o sistema ignore sinais da fala interna quando não autorizado, além de um recurso de senha mental: o paciente precisa imaginar uma frase específica, como uma palavra incomum, para ativar a decodificação.
Ambas as soluções se mostraram eficazes em impedir que frases não intencionadas fossem traduzidas, reforçando a importância da privacidade cognitiva no avanço das BCIs.
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