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Cobra Tecnologia encara crescimento sob críticas

Ricardo Cesar

Abrir um pólo de empresas brasileiras de informática em Portugal. Roubar mercado da Microsoft em aplicativos de escritórios com software livre. Exportar para a Europa, África e China. Interligar as redes de terminais de auto-atendimento (ATMs) dos bancos nacionais. Esses são apenas alguns dos projetos que a Cobra Tecnologia, integradora pertencente ao Banco do Brasil, anunciou nos últimos meses. Parece demais – e talvez seja mesmo. Afinal, a Cobra já é uma empresa grande, mas que ainda não se compara ao faturamento bilionário de alguns de seus competidores internacionais.

O que não se pode negar é a energia criativa e o entusiasmo que hoje, no aniversário de três décadas, permeia um empreendimento que, há apenas um par de anos, parecia caminhar para um fim melancólico. O governo Fernando Henrique Cardoso tentou privatizar a companhia uma vez em outubro de 2001 e outras duas – em janeiro e outubro – no ano seguinte. A iniciativa foi um fracasso: não apareceu nenhum interessado. Além dos resultados pouco atraentes da companhia na época, havia a percepção de que, sem o BB, a Cobra perderia boa parte de seu encanto. Ter como cliente cativo o maior banco do País é, até hoje, o grande trunfo da empresa. Na época, era praticamente o único.

A nova administração federal que assumiu em janeiro de 2003 trouxe como filosofia criar alternativas aos grandes fornecedores de TI e concentrar mais atividades nas mãos do Estado. Dentro desse contexto, a Cobra encontrou as condições necessárias para um verdadeiro renascimento. A possibilidade começou a se materializar em fevereiro do ano passado, com a contratação de Graciano Santos Neto para a presidência da empresa.


Crescimento sob críticas

Daí em diante, a Cobra entrou em uma fase de efervescência similar ao de seus tempos áureos, com um fluxo impressionante de projetos. A receita bruta saltou de R$ 414 milhões em 2002 para R$ 697 milhões em 2003 e deve chegar a R$ 1,4 bilhão neste ano. Apenas as novas iniciativas em que a companhia está se aventurando ainda precisam provar que podem trazer retorno.

Mas as críticas também cresceram. O BB representa 67% da receita bruta da Cobra e existe um temor não declarado de diversos fornecedores de que a empresa domine cada vez mais este que é um dos maiores compradores de tecnologia do Brasil. “Desde os tempos da reserva de mercado, a Cobra não se sustentava sem o apoio oficial, sem o governo ter torcido o braço dos bancos para se tornarem seus sócios. Agora, o BB resolveu revigorar a empresa para concorrer contra um mercado que já está em dificuldades. Não há nada que a Cobra faça pelo BB que os fornecedores privadas não tenham ampla competência para oferecer”, afirma um analista que pediu para não ser identificado. A companhia rebate e diz que, do orçamento de R$ 1,6 bilhão que o BB tinha para TI em 2003, “apenas” 20% terminaram em seu bolso. “Além disso, não fabricamos hardware nem desenvolvemos software. Encomendamos esses itens para os nossos projetos e assim movimentamos o mercado”, diz Santos Neto.

Críticas à parte, a Cobra está conseguindo resultados financeiros amplamente favoráveis. Se isso é bom ou não para o País é outra história. A partir de 2003 a empresa vestiu a roupa de integradora e virou o jogo, puxando para si toda a parte de serviços – o filé mignon dos projetos de TI, onde estão as melhores margens – e deixando o hardware para terceiros.

A estratégia já foi colocada em prática em alguns projetos importantes. O BB trocou as impressoras nas agências por multifuncionais Lexmark entre fevereiro e abril deste ano, em uma iniciativa que envolveu 5,8 mil equipamentos em mais de 3 mil agências. Além disso, renovou 30 mil PCs, substituindo os computadores pessoais antigos por máquinas que levam a marca Cobra, encomendadas de diferentes fornecedores (Itautec, Procomp e Semp Toshiba) que desenvolveram os equipamentos seguindo as especificações da integradora. Agora a empresa está comprando os parques da Xerox e, gradativamente, fecha acordos para assumir seus clientes de terceirização de serviços de impressão no Brasil.

A Cobra está para o Banco do Brasil assim como a Scopus para o Bradesco e a Itautec para o Itaú. Se as instituições privadas podem ter seu braço de tecnologia, por que não um banco público? A diferença básica é que a Cobra é ligada à política nacional. Não se pode compreender a atual fase da companhia sem entender a visão da administração petista para a área de informática. As apostas da integradora estatal em exportação e software livre estão inteiramente alinhadas com as diretrizes de política industrial e a visão estratégica de TI do governo. Por mais que a Cobra queira se firmar como uma companhia altamente competitiva, capaz de concorrer no mercado internacional, a imagem atrelada ao governo é um ônus da qual não conseguirá se livrar. Com tantos benefícios por estar ligada ao BB, esse vínculo é, ao mesmo tempo, uma pedra que a empresa carrega no sapato sem reclamar muito.


Novas áreas
Alguns dos projetos da Cobra para este ano


Cobra Europa – A idéia é criar um pólo de empresas de tecnologia brasileiras em Portugal, com foco em hardware, sistemas e serviços voltados à automação bancária e ênfase no software livre. O pólo deve receber um aporte da Agência Portuguesa de Investimentos (API) e, junto com outras fontes de financiamento, espera receber recursos de até € 100 milhões. Além de vender para a Europa, o objetivo também é atuar nos países de língua portuguesa da África, sobretudo Angola e Moçambique.


Freedows – A Cobra está comercializando um sistema operacional baseado em Linux que inclui toda o pacote de aplicativos de escritório a um custo de US$ 27 anuais por usuário. A proposta do produto é não apenas ser semelhante ao Windows e ao Office, como permitir que as empresas rodem todos os aplicativos Microsoft que as empresas já tenham adotado. A primeira grande venda foram 3,7 mil cópias para a Secretaria de Saúde de São Paulo. O passo seguinte será a comercialização do Freedows na Europa e até mesmo na China.


Cobra Switch – Trata-se de uma rede de transações eletrônicas bancárias que terá capacidade de 100 milhões de transações por mês. Como cada banco construiu sua própria rede de auto-atendimento, a Cobra avalia que existe uma enorme redundância, o que significa perdas anuais de algumas centenas de milhões de dólares. O objetivo é, ainda neste ano, oferecer serviços compartilhados para conectar milhares de terminais de auto-atendimento dos bancos e equipamentos de pontos-de-venda instalados em redes de lojas que funcionam como correspondentes bancários.


Linha do tempo


1974 – Um grupo de técnicos da Marinha se uniu a representantes da comunidade acadêmica e de gestores de informação de grandes empresas e pressionou o governo para criar uma empresa nacional de TI. Em 18 de julho de 1974 nasce a Cobra Computadores e Sistemas Brasileiros.


1976 – A  Cobra lançava o primeiro minicomputador nacional, o Cobra 700, equipamento compatível com o mundialmente disseminado Argus 700, da Ferranti. Em seguida vieram o Cobra 400 e Cobra 400-II, ambos com tecnologia absorvida da norte-americana Sycor e entre os primeiros do mundo com o processador Intel 8080.


1981 – A Cobra consegue empréstimo de US$ 20 milhões, que se transformaria em uma dívida impagável.


1991 – Termina a reserva de mercado e a competição cresce rapidamente. A Cobra traça uma estratégia de sobrevivência, por meio de parceiras com gigantes como Microsoft, IBM, Oracle, Sun e HP, entre outras.


1995 – O Banco do Brasil assume o controle acionário da Cobra, com 99,93% das ações.


2001 – Durante a segunda metade da década de 90, as atividades da Cobra foram reduzidas. Em 2001 e 2002 ocorrem tentativas de privatizar a companhia, mas não houve ninguém interessado em comprá-la.


2003 – Com o governo Lula, o Banco do Brasil optou por revigorar a empresa. Surge a Cobra Tecnologia, uma empresa que utiliza a logomarca do BB e que visa ao lucro, mas que também faz parte da política do governo federal para a área de TI.

|Computerworld – Edição 412 – 07/07/2004|

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