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Pedra no sapato das casas lotéricas

Criada como rede complementar à São Paulo Transportes (SPTrans), companhia responsável pela gestão do sistema de transportes coletivos do município de São Paulo, inicialmente a Rede Ponto Certo tinha como negócio exclusivo a venda e recarga dos cartões Bilhete Único.

O Bilhete Único é um cartão magnético inteligente que, a exemplo dos cartões telefônicos pré-pagos, armazena valores em reais para o pagamento de passagens nos coletivos da região. Com ele, a partir do momento em que passa pela catraca do primeiro coletivo – ônibus, microônibus, vans, trem (CPTM) e Metrô -, o usuário poderá fazer até quatro embarques em um período de duas horas sem pagar nova passagem. “A SPTrans tinha a intenção de implantar o programa de tarifa única para os cidadãos que usam mais de uma condução para chegar ao trabalho e precisava de um parceiro que investisse na questão tecnológica”, lembra Celso Campello, diretor de negócios corporativos da Rede Ponto Certo. Daí a assinatura de um contrato de cinco anos, por licitação, em agosto de 2004, com a empresa.

A questão é que, em pouco mais de dois anos, a empresa multiplicou seus pontos de recarga pela cidade, e estes agora também vendem passe comum, passe de estudante e crédito para telefones das operadoras Embratel, Telefônica, TIM e Vivo. Além disso, já funcionam como correspondentes bancários para o recebimento de contas – fichas de compensação e de concessionárias.

Quando começou a parceria com a SPTrans, em 2004, eram 200 pontos de recarga distribuídos por São Paulo. Atualmente, esse número passa de 1,7 mil. “Nossa meta é encerrar o primeiro semestre de 2006 com 3 mil máquinas espalhadas pela Grande São Paulo”, afirma André Martins, CEO da Rede Ponto Certo. O volume de terminais instalados superou as expectativas iniciais de expansão em 850%, de acordo com companhia.

Os pontos são instalados em estabelecimentos comerciais, como supermercados, padarias, drogarias, escolas, hospitais e aeroportos, entre outros, que ganham de 1% a 3% do valor transacionado na máquina sob sua responsabilidade. Os parceiros da Ponto Certo incluem a rede de supermercados Econ, farmácias Drogasil e Farmais e a varejista Marabraz. “As máquinas de recarga movimentaram 132 milhões de reais em 2005, em cerca de 6 milhões de transações”, revela Campello. “Há lojas que viram sua receita crescer por conta dos valores movimentados em nossos pontos”, comemora.

Parte da holding VB Serviços, que há quase dez anos gerencia a distribuição de vale-transportes e alimentação, entre outros benefícios, para os funcionários de aproximadamente 25 mil clientes em todo o Brasil, a Rede Ponto Certo investiu cerca de 8 milhões de reais na criação da rede – o valor inclui gastos com máquinas, software, pessoal e treinamento -, para atender aos quase 7 milhões de usuários do transporte público de São Paulo. Campello conta que já são mais de 8 milhões de cartões emitidos. “É a maior distribuição de smart cards do mundo.”

Martins, que também preside a VB Serviços, estima que o ROI (retorno sobre investimento) começará a partir de 2007. “A Ponto Certo deve gerar caixa positivo a partir de meados de 2006”, afirma o executivo. De acordo com ele, a taxa de retorno está diretamente ligada ao número de pontos e à multiplicidade dos serviços que podem surgir. “Deve levar mais uns dois anos até que o investimento seja completamente pago”, estima.

A Rede Ponto Certo é uma das redes credenciadas pela SPTrans e detém 40% do mercado de recarga do vale-transporte na cidade. Atualmente, a companhia negocia a venda de carga para celulares da Claro e já avalia projetos para o recebimento de cédulas, moedas e cartões bancários de débito em suas máquinas. “Já temos a tecnologia. Precisamos estudar a viabilidade e benefícios dessa facilidade”, revela Campello.

Conforme atrai cada vez mais lojistas, pulveriza seus pontos de atendimento por todo o município de São Paulo e adota a estratégia de multiserviços, a Rede Ponto Certo passa a ser uma concorrente direta das mais de 2,2 mil casas lotéricas (dado do Sincoesp – Sindicato das lotéricas de São Paulo) da cidade. Por serem vinculados à Caixa Econômica Federal, esses estabelecimentos são parte da rede autorizada de atendimento ao usuário da SPTrans, e têm de prestar esse serviço ao cidadão, além de vender apostas aos mais esperançosos e oferecer exatamente os mesmos serviços de recolhimento de contas, carga de telefones celulares.

E se já não estavam satisfeitos em ter de vender vale-transporte, com a concorrência ainda maior, cresce mais a insatisfação. É que, ao contrário dos donos de estabelecimentos onde há máquinas da Rede Ponto Certo, diga-se, a questão já foi tema de discussão entre os permissionários, que possuem a visão oposta. Os proprietários das casas lotéricas não só consideram a remuneração paga pela SPTrans baixa como acreditam terem se transformado em alvos ainda mais freqüentes de assaltos, uma vez que o volume de dinheiro movimentado durante o dia aumentou desde que esses estabelecimentos foram declaradas pontos de atendimento ao usuário de transporte coletivo em São Paulo, também em 2004.

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