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Efeito “Jack, o Estripador” toma conta do mercado móvel

A tendência se tornou evidente há pouco tempo. Se você
tiver o app do Google Drive no seu iPhone ou Android e tentar abrir uma
planilha ou documento de texto, vai se deparar com uma tela solicitando que
baixe um novo app, o Planilhas.

A partir de certo momento, todas as funções de criação
e edição de documentos, que antes eram realizadas no app principal, o Google
Drive, foram separadas e migraram para apps individuais  —  os chamados standalone apps.

Outro que passou recentemente pelo mesmo processo foi
o Foursquare, que permitia encontrar lugares bacanas e fazer check-in. Agora,
para fazer as duas coisas, você precisa de dois apps distintos: o Foursquare e
o Swarm, respectivamente.

E não termina por aí. Em um longo processo de mudança
que está chegando agora à fase final, o app do Facebook também foi fatiado:
cortaram o bate-papo do aplicativo principal e criaram o Facebook Messenger,
app à parte que funciona integrado ao principal.

Por que todos esses serviços estão fazendo isso? O que
está por trás dessa tendência? Existe algo de comum ligando essas iniciativas
ou será mera coincidência?

Polêmicas à parte (o Facebook foi acusado de violar a
privacidade dos usuários com o novo app, o que foi desmentido por veículos como
o Mashable e pelo próprio Facebook, que criou
uma página oficial explicando tudo), vamos encontrar
a explicação para a mudança, como era de se esperar, nos interesses comerciais
de cada empresa. Qual o caminho mais seguro para gerar receita e aumentar o
faturamento?

No caso do Facebook, a empresa percebeu que as pessoas
demoram muito para responder os amigos quando estão usando o chat do Facebook
no celular, dando prioridade a outros apps de bate-papo, como o Whatsapp. Até
mesmo no Facebook Messenger elas são 20% mais rápidas para responder do que
quando estão no app principal.

Isso estava prejudicando o Facebook, já que os apps de
bate-papo concorrentes estavam afastando as pessoas da rede e, por
consequência, comprometendo os negócios que tiram proveito justamente dos dados
do bate-papo. Com o app de chat separado, uma parte dos “desertores” volta a
conversar pela rede do Facebook. Problema (até certo ponto) resolvido. Resta
saber se o Facebook Messenger crescerá o suficiente no médio e longo prazo.

Os casos do Foursquare e do Google Drive não são muito
diferentes. O que está por trás dessa tendência de desmembramento é a mudança
de comportamento trazida pela evolução do cenário mobile: antes, as startups
competiam para segurar o usuário na tela do aplicativo, interagindo com ele o
máximo de tempo possível. Isso significava que um único app tinha de dar conta
de todos os recados a que tinha se proposto.

Hoje, os usuários ficaram tão à vontade com a
crescente oferta de apps mobile, e encontram com tanta facilidade em outros
lugares o que lhes interessa, que deixou de ser interessante concentrar tudo
num só lugar: o mais importante é identificar o foco de interesse principal e
oferecer às pessoas a melhor experiência possível dentro dele.

Se uma parte das pessoas quer encontrar amigos nas
redondezas e a outra quer encontrar um lugar bacana pra comer algo, oferecer as
duas coisas no mesmo app aumenta o risco de que serviços concorrentes, mais
especializados ou atraentes nessa ou naquela função, acabem roubando a
clientela.

O que você faz? Cria você mesmo a alternativa mais
especializada: os interessados em encontrar lugares ficam com o Foursquare, e
os interessados em encontrar pessoas migram para o Swarm. Quem quiser as duas
coisas mantém os dois, e todos ficam felizes. A mesma coisa para quem só
trabalha com o Word, e nunca com planilhas, ou vice-versa: quem só trabalha com
números e não precisa de um editor de texto. App de planilha para um, app de
texto para o outro, ou os dois apps no mesmo celular para quem precisa de ambos. 

Ao que tudo indica, essa tendência deve continuar,
pelo menos nos apps mais importantes, que atendem um número maior de usuários e
oferecem uma gama relativamente ampla de funcionalidades. A palavra de ordem
hoje parece ser especialização, ou foco. Quem se arrisca a prever onde isso vai
parar? Qual será a próxima etapa da evolução mobile? Com a palavra, o usuário,
que decide os destinos desse mercado mesmo sem se dar conta.

 

(*) Ana Laura Mello é co-fundadora e diretora de criação
da Remix Social Ideas
. Alexandre Rosas é redator da Remix Social Ideas

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