Crise de financiamento exige novo caminho para a inovação

Se o Brasil quiser ter políticas de inovação para o futuro precisará mostrar que ela é capaz de entregar resultados efetivos para o País, ou não haverá dinheiro para financiamento. O alerta foi feito pelo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Américo Pacheco, no segundo e último dia do IT Forum Expo, palco Nação Digital.

“Devemos pensar em uma política nova, até porque a restrição fiscal é grave e continuará sendo grave”, disse, reiterando a grave crise de financiamento no setor e que coincide com a crise econômica nacional. “Provavelmente nos próximos 10 anos o Brasil vai ter que mudar drasticamente as políticas de inovação para explicar os resultados.”

Pacheco citou o Global Competitiveness Index 4.0, estudo do Fórum Econômico Mundial divulgado na quarta-feira (17), no qual o Brasil piorou sua competitividade, mas melhorou em termo de inovação. Segundo ele, há um alinhamento maior entre lideranças privadas e de governo a respeito da importância da inovação para a economia brasileira.

Movimentos como o Brasil Digital surgem nesse esteio. No entanto, disse o especialista, os resultados concretos ainda são muito pequenos se considerado o impacto destes investimentos sobre a balança comercial.

“Há várias explicações para este resultado fraco do Brasil no que diz respeito à inovação: infraestrutura deficitária, baixa abertura comercial etc. Uma delas é o baixo protagonismo empresarial”, ponderou Pacheco. “O protagonismo empresarial é fundamental. Sem ele não adiantam mesmo as melhores políticas públicas.”

No Brasil metade do investimento em inovação é público, o que destoa da média dos países que compõe a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em que esse índice médio é de 15%.

Novo cenário

A transformação digital altera drasticamente os investimentos dos países em inovação, direcionando o fluxo para desenvolvimentos de tecnologias como Inteligência Artificial, Big Data, impressão 3D etc. A interação entre essas várias tendências cria um ambiente bastante disruptivo.

Para Pacheco, é necessário que o País escolha em quais dessas vertentes pretende atuar com mais força, de acordo com seu potencial, pois é virtualmente impossível investir em todas. Como exemplos, citou a agricultura digital ou de precisão, considerando o potencial do País e que “o mundo espera que o Brasil seja capaz de responder por uma parte substantiva da demanda global por alimentos”.

Outro desses pilares é a transformação digital propriamente dita, não só de empresas, mas do próprio governo, ofertando serviços cada vez mais de forma virtual aos seus cidadãos.

Boom das startups

Depois aparece o estímulo ao empreendedorismo – afinal, as empresas disruptivas podem fazer a diferença na renovação do ecossistema empresarial e surgem com força no País. O boom das startups brasileiras pode ser sentido nas aceleradoras e incubadoras de várias regiões e estados, além das próprias agências de fomento como a Fapesp.

“Startups são mais rápidas e exploram a si mesmas, o que é difícil nas grandes empresas. Em São Paulo não é possível visitar todas as instituições na cidade que estão acelerando ou fomentando em uma semana. É um conjunto impressionante”, disse Pacheco, mas com uma ressalva. “Há muita descoordenação do que se faz e falta escala. Nisso o governo poderia atuar.”

Segundo o professor, a própria carteira de financiamento da Fapesp já sente o impacto da transformação digital. Dentro do projeto PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), aumentou o financiamento em áreas mais disruptivas, muito embora o foco não seja exatamente em startups.

O enorme potencial no entorno de universidades e grandes hospitais, centros de excelência de conhecimento e potencial econômico por excelência, comprovam o bom momento, disse o palestrante. Que exemplifica: em torno da Unicamp existem 454 startups fundadas por alunos ou ex-alunos da universidade do interior de São Paulo. Isso significa 22 mil empregos diretos e faturamento somado de R$ 3 bilhões – três vezes mais que o orçamento da própria universidade.

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