Fenômeno dos tempos modernos, o Big Data – gestão de grandes volumes de dados – ainda desafia a indústria de software de Business
Intelligence. Por outro lado, também ajuda no surgimento de um novo flanco de aplicações: o
de Consumer Intelligence, ou a análise estratégica de dados do – e pelo –
consumidor. É o que afirma o CTO da empresa americana de
software analítico Teradata, Stephen Brobst. Em visita ao Brasil, o executivo – que também
é um dos conselheiros tecnológicos do presidente dos EUA Barack Obama –
falou à Computerworld sobre o impacto do Big Data e de suas tecnologias nas
empresas e no setor público.
Grandes volumes de dados não são estranhos à Teradata, que nasceu como uma unidade de negócios da gigante de tecnologias para varejo NCR. Mas como chegamos ao Big Data? “O Big Data vem de fontes bastante diferentes das que estávamos acostumados”, explica
Brobst, na Teradata desde 1999. “No passado, os dados que interessavam a Business
Intelligence vinham de caixas registradoras, caixas eletrônicos, sistemas de
bilhetagem de telecom, ERP, sistemas bancários”, diz. “Agora a informação não
vem apenas das transações, mas de interações.”
Para o CTO, essa distinção entre
transação e interação é fundamental. Com a transação, pensávamos ter
informações detalhadas, mas o que se tinha era apenas um resumo, conta. “A
transação nos dá informação sobre a compra de um produto, mas a interação
revela os cliques e as buscas que levaram à sua compra”, diz. “A interação nos
ajuda a entender melhor o comportamento do cliente e, a partir daí, tomar
melhores decisões de negócio.”
É uma mudança significativa de visão de mercado, que ganhou
mais força quando a Teradata se separou da NCR, em 2007. De olho nos desafios
do Big Data, a Teradata tem investido em aquisições – foram quatro em pouco
mais de um ano. Em março de 2011, a empresa anunciou a compra da Aster Data,
uma empresa que nasceu na incubadora da Universidade de Stanford (EUA), a mesma
da Google, e especializou-se em estender a tecnologia SQL ao modelo de
programação paralela, para aplicações avanaçadas de BI. Três meses antes, em
dezembro de 2010, ela comprou a Aprimo, dona de software para gerenciamento de
campanhas. Em agosto de 2010 houve a compra da empresa de tecnologias de banco
de dados Kickfire e, em maio de 2010, da Xkoto, empresa ligada à virtualização
de bancos de dados.
Estratégicas
Brobst explica que todas as aquisições foram estratégicas
para a Teradata. “A Aster Data tem foco em Big Data”, justificou. “Ela desenvolveu
um sistema polimórfico de arquivos que permite guardar não apenas dados
estruturados mas também XML, gráficos, conteúdos de blogs, textos de mídias
sociais”, diz. A Aprimo, por sua vez, contribuiu não só com seus aplicativos (oferecidos
na modalidade Saas) mas funcionou como um guarda-chuva sob o qual foi organizado todo o
esforço de pesquisa e desenvolvimento em aplicativos analíticos. A Kickfire
contribuiu para a criação de uma tecnologia de compressão de dados “que deverá
ser lançada nos próximos meses”, ao passo que a Xkoto trouxe uma tecnologia de
sincronização de bases de dados para ambientes de “altíssima disponibilidade”.
A visão de BI como uma aplicação de missão crítica também é
um sinal dos novos tempos, destaca o CTO. “O BI estratégico deu lugar ao BI
operacional, que precisa estar disponível num modelo de serviço 24×7”, conta. Curiosamente, Brobst minimiza o impacto da computação em nuvem nas
aplicações de Business Intelligence. “A maioria das empresas que usam computação
em nuvem escolhe nuvens privadas. Nenhum CEO quer colocar seus dados
estratégicos em nuvens públicas”, considera. Brobst também diz não ser “aceitável”
a performance de aplicações de BI em nuvens públicas, que pela sua experiência têm sido utilizadas
principalmente como ambiente de teste e desenvolvimento (a Teradata tem desde
2009 uma parceria com a provedora de serviços na nuvem Amazon EC2). “As nuvens
analíticas privadas são muito mais eficazes em custo e desempenho”, avalia.
E o alcance do conceito de Big Data já ultrapassa o universo
das empresas privadas. Além de seu trabalho na Teradata, Brobst atua no
Comitê de Aconselhamento em Inovação e Tecnologia do Presidente dos EUA, Barack Obama
(PITAC, na sigla em inglês). “É um comitê formado para ajudar o presidente a
decidir onde investir em tecnologia para melhorar a qualidade de vida dos americanos”,
explica o CTO. Nesse comitê, o Big Data tem tido um papel cada vez mais
relevante. “Hoje toda agência federal tem de ter um plano para Big Data.”
Saúde e energia
Brobst descreve dois cenários onde tecnologias de Big Data
podem fazer a diferença: saúde pública – área que, nos EUA, têm os custos “fora
de controle”, nas palavras do CTO – e energia. Em saúde, o CTO dá como exemplo uma lei recente dos
EUA que passou a obrigar todos os hospitais a manter registros eletrônicos de seus
pacientes. “Acrescente-se aí os dados de sensores, como sinais vitais e exames clínicos de pacientes, e o governo
poderá intervir na saúde de forma mais eficiente”. O executivo conta, por
exemplo, que aparelhos móveis como o iPhone poderiam coletar dados de
exercícios físicos feitos pelo dono, que seriam cruzados com dados hospitalares.
Como resultado, um sistema público poderia propor uma dieta alimentar mais saudável.
Energia é outra área em que Big Data pode fazer diferença,
diz o CTO da Teradata. “Medidores inteligentes podem informar à empresa de
energia sobre os hábitos de uso de aparelhos pelos moradores da casa”, diz. Até
agora, as empresas de energia constroem suas usinas com base no consumo de
pico, que é mais que o dobro do consumo normal. Ao entender os padrões de
consumo, essa empresa poderá criar políticas de preço diferenciadas de consumo
por aparelho e horário de uso. “Isso faz diferença em lugares como a Califórnia,
em que você pode gastar mais com luz do que com seu próprio carro.”
São aplicações como essas, conta Brobst, que darão origem ao Consumer Intelligence – a versão para consumidores de Business Intelligence.
“Em breve os consumidores poderão visitar um site de uma empresa de energia, ver
seus dados de consumo e fazer simulações. Por exemplo, quanto ele gastaria se
trocasse sua geladeira por um modelo mais novo? De quanto seria sua conta se
ele reduzisse seu ar condicionado em três graus?” O CTO conta que uma
distribuidora de eletricidade da Califórnia – cliente da Teradata – pretende
liberar em breve, para os consumidores, os dados de que já dispõe para seu próprio
planejamento. O Big Data, assim, abre caminho para melhores decisões, tanto por empresas quanto por pessoas.
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