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Baixa hierarquia não é bagunça

Trabalhar em uma empresa inovadora também significa trabalhar com pessoas criativas e conversar sobre assuntos interessantes. Em ambientes como esses é comum contar com locais para entretenimento como salas de videogames. Nossa sala não tem nada demais. Conta com um sofá de dois lugares, duas poltronas, uma TV de 46″ e um videogame em um espaço aberto próximo à cozinha. Mas sempre tem ao menos uma dupla jogando. E toda vez que recebemos algum possível cliente ou parceiro, eles olham aquele ambiente com espanto.
É um misto de incredulidade e surpresa, algo muito divertido para nós. Percebe-se claramente um ponto de interrogação nas pessoas que não estão acostumadas. E todos têm a mesma pergunta. Alguns não a fazem por educação ou vergonha, não sei, mas outros discretamente indagam “quem manda essa gurizada voltar para trabalho? E a resposta é sempre a mesma: ninguém. Eis o segredo. Quando se trabalha com pessoas responsáveis, não é necessário mandá-las parar. Elas sabem o próprio limite.
Estou à frente do escritório de uma empresa na qual a hierarquia é baixa. Essa abordagem tem uma série de vantagens, e é baseada em um princípio simples: mostrar que a empresa confia nas pessoas. Dessa forma, os profissionais se sentem parte do todo, ficam à vontade para dar sugestões, agir quando algo está errado, produzem mais e fazem melhor o que têm de fazer. Quais os ganhos? Pessoas felizes, ambiente mais leve e confiança em alta. Isso fomenta um ambiente produtivo e criativo, além de diminuir o desperdício, aumentar a satisfação dos clientes e gerar maior faturamento. Um bom negócio mesmo se você só pensa nas cifras.
O problema é que chegar nesse nível não é fácil. É necessária uma forte disciplina. O acompanhamento tem de ser diário e inserido na estratégia da empresa para que todo o ecossistema funcione. É uma daquelas ações que é fácil de explicar e difícil de fazer. Mas não impossível. Uma das estratégias para atingir esse nível de maturidade é explicar o raciocínio por trás das decisões. Responsabilidade vale para os dois lados.
Se você quer adultos trabalhando na empresa, deve tratá-los como tais. As pessoas têm de participar dos processos decisórios. Só assim terão informações suficientes para fazer suas escolhas. Isso faz com que decisões sejam mais rápidas e melhores, além de liberar você para se preocupar com outras atividades.
Outra ação que leva para essa direção: selecionar bem os novos contratados. Ao contratar, é preciso procurar por perfis responsáveis e que se encaixem na estratégia da empresa. E o mais importante: resistir à pressão de contratar só porque tem de fechar uma vaga. O desalinhamento cultural trava a empresa.
É preciso gente boa, treinada e que entenda bem o objetivo da empresa. E isso raramente encontra-se por meio de consultorias de RH. Por fim, é preciso ouvir muito. Já notou que a imagem que temos de um sábio é daquele velhinho oriental que deixa todos falarem e depois, pacientemente e em uma única frase, diz tudo que precisava ser dito e muito mais? Então por que insistimos em falar o tempo todo? É preciso ouvir as pessoas e considerar o que elas falam.
Há outras ações que ajudam a seguir essa trilha, mas estas já são um bom começo. Se aplicadas e avaliadas depois de alguns meses, com certeza, será notável a diferença no ambiente de trabalho.
Gabriel Notari é general manager da ThoughtWorks em Porto Alegre (RS)

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