Jogos de tabuleiro sempre foram considerados desafios para o
desenvolvimento da inteligência artificial. O xadrez, em particular,
sempre foi visto como um marco importante: seria possível algum dia um
computador derrotar um humano? Bem, esse fato ocorreu em 1997 quando o
supercomputador Deep Blue, desenvolvido pela IBM, venceu um match contra
o campeão mundial Garry Kasparov, para muitos considerado o maior
jogador de xadrez de todos os tempos.
Mas
o fato é que o Deep Blue não jogava como um humano. Analisava posições
com “força bruta”, identificando todas as possíveis variáveis e
calculando em grande velocidade. Uma pessoa não joga assim. Um bom
jogador vê padrões, descarta possibilidades e pensa muitas vezes de
forma intuitiva. De lá pra cá, softwares que jogam xadrez passaram a ser
comuns, acessíveis e, reconhecidamente, com níveis técnicos superiores a
todos os jogadores humanos da história.
Mas
há um jogo clássico onde a “força bruta” e a mera capacidade de
processamento não são suficientes para definir um ganhador. Trata-se do
Go. De origem milenar chinesa, as primeiras referências surgem há mais
ou menos 2.500 anos, é um jogo no qual peças brancas e pretas (chamadas
“pedras”) são posicionadas em um tabuleiro de 19×19. Ele é estático, ou
seja, quando as peças são posicionadas, não mais podem ser movidas. O
objetivo é dominar, ao final da partida, o maior espaço (área) no
tabuleiro. Quando um conjunto de pedras de uma determinada cor for
completamente cercado por peças do oponente, elas são removidas do
tabuleiro e aquela área passa a ser controlada por quem efetuou o cerco.
E o Go sempre
foi um dos grandes objetivos perseguidos por aqueles que desenvolvem
sistemas de inteligência artificial. Por que? Ao contrário do xadrez e
de outros jogos, a quantidade de posições que podem ser geradas em uma
partida de Go é tão grande que não é possível imaginar
sistemas computacionais analisando todas as variantes cabíveis. Para se
ter uma ideia, o número de possíveis posições em uma partida excede as
estimativas que definem o número de átomos do universo!
Resumindo,
é um jogo em que o processo de tomada de decisão é baseado, em muitos
casos, em conceitos que nós chamamos de “intuição”, e não, puramente, na
análise lógica e na extrapolação de posições. Estimava-se que
algoritmos jogadores de Go seriam capazes de vencer
profissionais por volta de 2030, apesar dos investimentos em pesquisa e
desenvolvimento (P&D) associados ao seu desenvolvimento,
impulsionados, hoje em dia, principalmente por dois gigantes da
tecnologia: Google e Facebook.
Eis que, em 2016, a equipe do Google anunciou, por meio da publicação de um artigo na revista científica britânica Nature, que seu algoritmo AlphaGo foi capaz de derrotar, em um match, o campeão mundial de Go, o coreano Lee Sedol, também considerado por muitos o maior jogador da história.
Trata-se de uma grande ruptura de paradigma, na qual, pela primeira
vez, máquinas começam a ser capazes de avaliar situações e decidir
utilizando características humanas – e, inclusive, errando em alguns
casos.
A esse novo conceito estão
associadas iniciativas como o Watson, algoritmos capazes de entender a
linguagem natural humana (incluindo gírias, palavrões, entonações, etc.)
e que já atingem resultados notáveis. É o despertar da inteligência
artificial (IA), uma das grandes forças que irão moldar o nosso futuro.
Esses
avanços serão determinantes no médio prazo para o processo chamado de
“Quarta Revolução Industrial” e que envolve, sobretudo, a integração de
elementos físico-digitais a processos produtivos e operacionais. Por
isso, algumas empresas estão deixando de ser puramente fornecedores de
tecnologia da informação e comunicação para também oferecer serviços
complementares. Quando olhamos a partir da perspectiva de onde nos
encontramos, inteligência artificial comercialmente disponível ainda
parece algo distante. Mas tenho certeza de que em um horizonte de cinco a
dez anos, sistemas inteligentes serão gradualmente incorporados às
cadeias produtivas, gerando impactos econômicos, sociais e políticos, em
âmbito global ainda difíceis de imaginar e avaliar.
O
importante para as empresas é não perder de vista o objetivo de estar
ao lado de seus clientes, com um entendimento claro das tendências de
evolução tecnológica e a missão de ajudá-los nesses processos de
transformação, sempre com uma postura pragmática, isenta e focada no
negócio. Um grande desafio para todos nós. O futuro está bem mais perto
do que parece.
(*) Rodrigo Parreira é CEO da Logicalis Latin America
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