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No futuro, o que sobrará para nós humanos?

por Rodrigo Moreira

Recentemente, foi lançado o Seedance 2.0, uma ferramenta de geração de vídeos por IA da chinesa Bytedance (dona do TikTok) que permite criar verdadeiros filmes. É impressionante e assustador: vi cenas de lutas entre atores famosos absolutamente verossímeis e até cenas de filmes e séries “corrigidas”, como o terrível final de Game of Thrones.

Minha reação foi a mesma de muitos: será esse o futuro do cinema? Em entrevista recente, o ator Matthew McConaughey não deixa dúvidas: “It’s coming. Don’t deny it”, recomendando, inclusive, que os atores licenciem sua imagem e sua voz (“Own yourself”), para serem utilizados em produções criadas por IA – ou seja, é possível um cenário em que o ator sequer atua, mas apenas cede sua imagem e voz que será sintetizada e renderizada num filme totalmente gerado por IA.

Esse futuro traz uma série de reflexões e paradoxos. De um lado, ferramentas como o Seedance permitem que um jovem com uma ideia na cabeça, mas sem recursos técnicos e financeiros expresse sua criatividade contando histórias que, de outra forma, jamais seriam contadas, o que fomenta a inovação. Por outro lado, não apenas o do ator, mas o papel do diretor e do roteirista estarão ameaçados, até o do cameraman!

Esse futuro meio Cyberpunk traz a pergunta inevitável: o que sobra para o ser humano num cenário (ainda hipotético) em que somos cada vez menos necessários? Se o conhecimento não for mais um diferencial, pois a IA será um oráculo acessível, e tampouco a produção intelectual, dado que a IA poderá produzir em segundos o que um humano leva anos para aprender e horas, dias ou meses para executar, o que será de nós?

É difícil dizer – afinal, estamos no olho do furacão, no meio de mais uma revolução tecnológica.

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Acredito que a resposta passe pela velha relação entre escassez e valor. A IA pode fazer muitas coisas que os humanos fazem, mas a IA não é humana. O Seedance pode gerar uma cena realista, mas não pode mimetizar uma performance num teatro. As histórias e as vivências ainda são – e serão por muito tempo – essencialmente humanas.

Da mesma forma, petições podem ser feitas com um português perfeito, mas advocacia ainda é essencialmente uma atividade relacional, em que a confiança é o laço mais relevante. Diagnósticos podem ser feitos com perfeição, mas todos sabemos que nada substitui uma relação humana com o seu médico.

Por isso me recuso a ser catastrofista. Não acredito no “fim” das profissões e na substituição estrutural de profissionais por sistemas de IA. Haverá um impacto relevante (e preocupante), é claro, mas aposto que a adaptação passa pela valorização daquilo que é mais humano em cada atividade.

Naturalmente, a aposta na “humanidade” não basta. É fundamental que nós, humanos, sejamos firmes no controle dos processos criativos de nossas atividades, limitando ao máximo a transferência da tomada de decisão para sistemas não-humanos. Devemos, como espécie, insistir para que a IA seja nossa ferramenta e não o inverso.

Os inputs, portanto, devem ser nossos e os outputs devem estar alinhados com nossas decisões estratégicas – do contrário, perderemos totalmente o protagonismo, nos tornando meros cogs numa estrutura conduzida pela Matrix.

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