Ao contrário de países próximos e “irmãos”, a Indonésia sofre com pífias velocidades de acesso à Internet. Não por falta de cabo submarino ou porque esses cabos podem se romper com mais facilidade devido estarem sobre uma região constantemente sacudida por terremotos, o que poderia dificultar a manutenção e consequentemente o custo do serviço. O problema é outro e chama-se monopólio.
Enquanto em Cingapura uma conexão de Internet presente em todos os cantos da cidade-país custa zero (sim, isso mesmo, ela é gratuita por wi-fi nas ruas da cidade) e uma conexão empresarial a 100Mbits por volta de 200 dólares, 500 quilômetros adiante não existe wi-fi, gratuito ou pago e qualquer conexão com velocidade de 512 Kbps não sai por menos de 400 dólares. Como somente uma empresa detém o direito de exploração desse serviço, os preços são exorbitantes.
As conexões DSL ou similares são parcas e caras mas o sistema de telefonia celular realmente funciona, sendo possível encontrar conexões 3G em quase todas as cidades e até mesmo nas mais remotas regiões do país. Na ilha de Bali por exemplo, é possível o acesso à internet até mesmo em distantes praias ou vilarejos do interior por um preço que qualquer brasileiro morreria de inveja.
Este cenário por mais aterrorizador que possa se apresentar, oferece oportunidades interessantes. Uma delas é o desenvolvimento de aplicativos para smartphones e websites voltados à esses dispositivos, existindo centenas de empresas e milhares de profissionais criando todos os dias os mais variados produtos e serviços voltados para o mercado da mobilidade, estando muitas vezes anos a frente de outros países, inclusive de Cingapura.
Jakarta, a capital do país, detém o maior número de usuários do Facebook em uma única cidade. São cerca de 17 milhões de usuários que aproveitando-se da massificação da telefonia celular por todos os cantos, fazem das redes sociais sua segunda casa. Esse interesse tem como explicação a falta de sinal residencial causado pelo monopólio na internet, o alto custo dos computadores no mercado nacional quando comparado com o poder aquisitivo da população e o valor irrisório dos aparelhos e das conexões via celular.
Essa combinação pode, em maior ou menor grau, acontecer também no Brasil. O país ainda possui preços abusivos e cartelizados para as conexões residenciais, os computadores, mesmo com as reduções de preço mostradas ao longo dos anos, ainda é um produto caro e smartphones já são acessíveis para boa parte da população. Mas ao contrário da Indonésia, ainda não se vê um avanço de empresas e empreendedores no segmento de desenvolvimento de aplicativos e soluções de Internet para esse mercado. Lamentavelmente ainda trabalha-se reativamente esperando aparecer a demanda e com isso acaba-se perdendo o passo.
Ninguém duvida que a telefonia móvel é o próximo grande mercado a ser explorado. O que falta é capacitar profissionais para atuarem dentro desse mercado e claro, o interesse das empresas no mesmo. Enquanto muitas software houses ainda trabalham criando websites 800×600, países em nível de desenvolvimento muito piores que o nosso encontram-se na vanguarda e podem num curto espaço de tempo, começar a exportar soluções inclusive para o Brasil, o que seria no mínimo uma vergonha. Para os visionários, vale a dica: observe o contexto como um todo e não somente um pedaço dele. Muitas vezes existem oportunidades escondidas onde não se imagina e sair na frente pode não ser somente uma vantagem, mas uma questão de sobrevivência.
*Paulino Michelazzo atua na Internet desde 1995 com arquitetura, desenvolvimento e criação de portais, websites egestão de conteúdo. É consultor independente nas ferramentas Drupal, Joomla! e WordPress com as quais desenvolveprojetos e treinamentos no Brasil e exterior. Co-autor de 3 livros sobre Internet e Software Livre, é palestrantecostumeiro em eventos de tecnologia e colunista das revistas Wide, Espírito Livre e Drupal Watchdog.
**As opiniões dos artigos/colunistas aqui publicadas refletem unicamente a posição de seu autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte da IT Mídia ou quaisquer outros envolvidos nesta publicação
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