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A mudança de chip na evolução dos pagamentos

O macro e o micro precisam andar juntos quando falamos em avanços tecnológicos. Nesse movimento orgânico, a atenção ao que parecem ser pormenores é fundamental para não colocar em risco a evolução de todo o sistema.

Durante a pandemia, as indústrias, sobretudo a automobilística e a de eletroeletrônicos, viram-se em meio a um problema de sérias dimensões: a falta de chips semicondutores. Essas diminutas pastilhas de silício são imprescindíveis na composição das centrais multimídia dos veículos e da estrutura de equipamentos como smartphones e computadores.

A maior procura por esses aparelhos em períodos de isolamento, associada a um incêndio em uma fábrica de chips do Japão, provocou a escassez do pequeno componente no mercado. Por sinal, a concentração da manufatura dos semicondutores em países asiáticos é algo que vem sendo revisto no planejamento estratégico de grandes marcas que dependem do fornecimento dessas pecinhas.

Vivemos agora um momento em que a questão pode sofrer um agravamento, uma vez que a demanda geral pelo uso dos chips retomou a curva pré-pandemia – mas sua produção ainda não.

Entendo, porém, que se trata de um desbalanceamento momentâneo que deve ser equilibrado na linha do tempo, minimizando o impacto agora percebido. Mesmo porque, para certas finalidades, o uso do chip tende a ser suavizado. Um exemplo é o pagamento. Aplicações como Apple Pay ou Google Pay efetivam a autenticação EMV de um cartão com chip sem a necessidade de tal artefato plástico. Dessa maneira, a indústria de cartões tende a ser menos afetada pela falta de chips.

Por outro lado, a presença de microprocessadores em utilitários – carros, eletrodomésticos, eletrônicos – tem curva acelerada de crescimento. Para nivelar, então, essa equação de oferta e demanda dos semicondutores, surge outro fator bastante importante: a fusão de plataformas.

Multiuso inteligente

Assim, o microprocessador instalado no carro, no celular, no relógio ou mesmo em equipamentos da casa, como cafeteiras e geladeiras, passa a ser também utilizado para autenticar pagamentos, entre outras funções. Essa multiplicidade de usos é o tipo de evolução a que eu me referia no começo do texto: a sinergia entre o macro e o micro, em um olhar de negócios criterioso que contemple diversas necessidades do todo.

Aliás, a Internet das Coisas está aí para isso. Uma fabricante de utensílios anunciou o lançamento de um cooktop inteligente que dá dicas de preparo dos alimentos ao ser sincronizado com um smartphone. Inovações semelhantes podem viabilizar, por exemplo, uma cafeteira que controla o número de cápsulas de café usadas para comandar um pedido automático de compra de novo estoque e o respectivo pagamento, sem a necessidade de o dono se preocupar com isso – muito menos passar um cartão em uma maquininha.

Vinte anos atrás, quando a Visa lançou sua estratégia batizada de “Chip Migration”, havia uma abordagem em que se pensava que o chip do cartão seria barateado de tal forma que sua capacidade de processamento permitiria o embarque de múltiplas aplicações para outros fins que não o pagamento – como fidelidade, acesso e armazenamento biométrico.

A Visa estava certa, mas de modo reverso. O cartão de pagamento tende a ser embarcado em outras aplicações, de modo que ele deixará de ser preponderante na próxima década. Em paralelo, o avanço das compras não presenciais também rouba espaço do cartão plástico. A Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) estima que 35% das compras com cartão de crédito na última Black Friday tenham sido pela internet.

Chegamos à era em que o carro, o celular e demais instrumentos contemporâneos cada vez mais andam juntos na mesma direção: a da comodidade e do bem-estar em nosso cotidiano, mas seguindo uma via de desenvolvimento sustentável. Por sinal, as inovações inteligentes fazem mesmo a grande diferença – ainda que elas sejam do tamanho de um chip.

*Gastão Mattos, sócio-fundador da Gmattos

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