Provedora de cloud soberana assume data center no Rio, amplia Barueri e mira inferência, não treinamento de modelos. IT Forum visitou a operação
A Omid vai crescer sem comprar GPU. Enquanto o mercado de infraestrutura disputa placas para treinar modelos, a provedora brasileira de nuvem pública soberana decidiu ficar fora dessa corrida. A empresa negocia com fabricantes estrangeiros uma arquitetura voltada a inferência, com anúncio previsto para o segundo semestre.
A estratégia também direciona a expansão física da companhia, que está em processo de mudança para um data center maior no Rio de Janeiro e de ampliação da unidade de Barueri, na Grande São Paulo, visitada pelo IT Forum.
O raciocínio parte de uma distinção que o diretor e CRO da Omid Solutions, Leonardo Senra, faz questão de marcar. “A GPU é para treinar o modelo”, diz. “Para fazer inferência, ela é canhão para matar barata.”
A política tem uma razão financeira declarada. A empresa não compra equipamento de GPU sem contrato assinado que sustente o investimento, orientação que Senra atribui aos acionistas e à decisão de manter a companhia sem dívida. As oportunidades que apareceram até agora, segundo ele, envolviam volumes pequenos e dependiam de importação.
A operação de Barueri é o centro da tese da empresa, apresentada em quatro camadas durante a visita, conduzida por Senra ao lado do COO, Ricardo Araújo, do head de business development, Marcio Perin, e do head de produtos e DPO, David Hayden.
Na base está a infraestrutura física, com data center próprio Tier III e certificações que incluem o PCI-DSS. Acima dela, a plataforma de nuvem, com portal de autosserviço, gestão de identidades, automação por templates, monitoramento, cobrança e rateio, além dos serviços de computação, armazenamento em blocos e objetos, rede, banco de dados e backup. A virtualização roda sobre KVM, com Kubernetes para contêineres e rede definida por software.
A terceira camada reúne segurança, governança e a observabilidade por inteligência artificial que a companhia batizou de Cloud Cognitiva. No topo está o centro de operações de rede, com equipes em regime 24×7.
Segundo a Omid, a maior parte dos provedores subcontrata, terceiriza ou revende parte dessas camadas. É desse controle da cadeia que a empresa diz extrair a margem para sustentar seu principal argumento comercial, o preço fixo.
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“Somos uma cloud pública soberana que por acaso optou por ter data centers próprios”, diz Senra. A operação nasceu incubada em outra companhia e se tornou autônoma em 2022, o que, segundo o executivo, manteve dentro de casa a competência de construir e operar data centers.
A tese é de sites pequenos e distribuídos, com capacidade que não passa de 6 MW cada, em oposição ao modelo de grandes metragens do setor de colocation. “Com equipamentos potentes de última geração, hiperconvergentes, é possível atender milhares de clientes em um site boutique“, afirma.
Os números da capacidade acompanham esse desenho. Em Barueri, a empresa diz ter 75% da ocupação física estabelecida, com espaço para crescer o restante sem obra. Ao lado, um galpão já reservado permite multiplicar a capacidade por quatro, com obra civil estimada entre 90 e 120 dias.
No Rio de JaneiroFpa, a expansão veio por outro caminho. A Omid assumiu a estrutura de uma empresa que decidiu deixar de operar data centers. “Estávamos na discussão entre um terceiro site ou uma ampliação, e veio a calhar essa oportunidade”, conta o executivo. Até o fim de agosto, a operação sai de Jacarepaguá e passa a funcionar no Teleporto, onde fica um dos principais pontos de troca de tráfego do País, com ganho de conectividade e latência para os clientes atendidos na região.
O preço fixo é o que a empresa coloca à frente na disputa com as grandes plataformas, e ele depende de uma escolha feita na contratação. Ao dimensionar o ambiente no portal, o cliente opta entre pagar pelos dados trafegados ou contratar banda a valor fixo. Na segunda hipótese, a Omid revende capacidade a partir de acordos com mais de oito operadoras presentes no site paulista.
“É como alugar um carro em uma locadora e pagar sempre pelo quilômetro rodado”, compara Senra, sobre a tarifação por volume de dados de saída praticada pelo mercado. Na Omid, diz, a quilometragem é livre. “Não queremos ganhar dinheiro na conta dos dados.”
O argumento tem um público específico. Integradores que revendem serviço gerenciado com a nuvem embutida no preço veem a margem encolher à medida que o projeto do cliente cresce, e precisam renegociar mensalidade. É esse perfil que a empresa diz perseguir.
A escolha de ficar fora do treinamento de modelos tem um argumento técnico e um argumento de custo. Segundo Senra, a maior parte das empresas não vai treinar modelo próprio: vai partir de modelos prontos e precisar rodá-los perto da operação, o que desloca a demanda do treinamento para a inferência.
O custo aparece em um caso que ele relata. Uma gestora de produto de um grande banco priorizava melhorias no aplicativo a partir de escuta amostral das ligações de atendimento. Ao treinar um modelo para ouvir a totalidade das chamadas, esbarrou no orçamento: o crédito contratado na nuvem se esgotou em três meses, e a área de tecnologia determinou a volta à amostragem humana.
A arquitetura em negociação, segundo o executivo, é de 40% a 60% mais eficiente no consumo de energia. Ele não revelou o fabricante nem a tecnologia. A eficiência energética também entra no posicionamento da empresa: os data centers operam com energia renovável certificada pelo padrão I-REC.
A definição que a Omid usa vai além da localização do dado. “Não só o dado está em um data center no Brasil, mas a orquestração desse dado está no Brasil”, diz Senra, que acrescenta o argumento jurídico: a empresa responde apenas sob jurisdição brasileira.
O debate brasileiro tem se concentrado nesse ponto. Organizações de defesa de direitos digitais argumentam que hospedar dados em território nacional não basta, porque provedores sediados nos Estados Unidos permanecem sujeitos ao CLOUD Act, que autoriza autoridades americanas a requisitar dados independentemente de onde estejam armazenados.
A demanda que a tese persegue tem números. O Gartner projeta que, até 2030, mais de 75% das empresas fora dos Estados Unidos terão estratégia de soberania digital apoiada em nuvem soberana. Em levantamento da mesma consultoria, 61% dos CIOs e líderes de TI da Europa Ocidental afirmaram que fatores geopolíticos vão aumentar sua dependência de provedores locais ou regionais.
Na Europa, a agenda saiu do discurso. A Direção Interministerial do Digital da França anunciou a saída do Windows em favor de estações com Linux e determinou que cada ministério apresente, até o outono, um plano de redução de dependências tecnológicas extra-europeias, que cobre sistemas operacionais, nuvem, inteligência artificial, bancos de dados e equipamentos de rede. O governo francês também definiu a substituição obrigatória do Microsoft Teams por uma plataforma nacional até 2027.
No Brasil, a política pública mirou outro alvo, e travou. Em 25 de fevereiro, a Câmara aprovou o Projeto de Lei 278/2026, que institui o Redata, regime especial de tributação para serviços de data center. O texto suspende tributos federais por cinco anos na compra de equipamentos, em troca de contrapartidas em pesquisa e desenvolvimento, energia limpa, eficiência hídrica e alocação de capacidade ao mercado interno.
O projeto não avançou no Senado. A medida provisória que havia criado o regime caducou no dia seguinte à votação na Câmara, e o Congresso entrou em recesso sem concluir a tramitação, em meio a restrições orçamentárias e ao atrito entre o Planalto e o comando do Senado. Os R$ 5,2 bilhões em isenções previstos no orçamento deste ano seguem reservados ao Redata, sem base legal que permita usá-los.
Em paralelo, o governo estruturou a Política Nacional de Data Centers. A crítica recorrente ao desenho é que ele atrai instalações sem alterar quem controla a operação.
É nessa brecha que a Omid tenta se posicionar, com um plano de crescimento mais agressivo para 2026. “O mercado não precisava de mais um player de cloud”, diz Senra, antes de listar o que considera diferente: previsibilidade de custo, atendimento humano no Brasil e controle da cadeia inteira, do prédio ao software.
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