No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a diretora de marketing da Delfia conta como fez da diferença sua vantagem competitiva
Antes de aprender a ler, Simone Justinio já fazia entrevistas. A mãe, que a teve aos 39 anos, quando o primeiro filho já era um rapaz de 19, encontrou um jeito peculiar de acalmar a caçula que dava trabalho para dormir: entregava a ela uma gaveta cheia de objetos. A menina pegava um por um e perguntava o que era aquilo. Um chaveiro, respondia a mãe. Um novelo de lã. Quando o choro voltava, o pedido era sempre o mesmo: “Mãe, quero ver coisas”. A executiva gosta de contar a história porque, para ela, a cena resume quem se tornou. “Sou uma pessoa que gosta de ver coisas, de aprender, de conhecer o novo”, diz.
Hoje diretora de marketing da Delfia, consultoria brasileira de tecnologia nascida em 2022 da antiga operação do grupo francês Econocom no País, Simone comanda uma equipe de 14 pessoas e soma 19 anos de carreira. O caminho até aqui, porém, passou longe da linha reta e é atravessado pelas questões que dão sentido à data celebrada neste sábado, 25 de julho: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, que no Brasil também marca, por lei, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. “Sou uma líder, mulher e negra. Faço parte da minoria em todos os sentidos”, afirma.
Simone cresceu ouvindo da mãe que estudar era inegociável. Foi ela quem matriculou a filha no francês aos 15 anos, contra a vontade da adolescente, com a aposta de que o idioma “poderia ser um divisor de águas”. Foi ela também quem sonhou com uma filha advogada. Simone chegou a tentar direito e ficou a cinco pontos de entrar na Universidade Federal Fluminense (UFF). A frustração a levou ao mercado de trabalho antes da faculdade, em uma empresa de comunicação visual que criava vitrines para marcas de luxo como Chanel e grifes do grupo LVMH. Os clientes que atendia eram os profissionais de marketing dessas grifes. Ali descobriu a profissão. Começou a faculdade de publicidade aos 23 anos, mais velha que os colegas e com uma certeza que eles ainda não tinham.
O francês imposto pela mãe voltou à história pouco depois. Uma vaga de estágio na Peugeot Citroën exigia o idioma, e Simone, aprovada em todos os testes, recebeu um “agradecemos a participação”: a empresa preferiu uma francesa expatriada, porque o francês da brasileira era intermediário. A reação diz muito sobre a executiva. Ligou ao entrevistador para perguntar por que não havia sido contratada e, a partir dali, telefonou para o RH da montadora todos os meses, até a atendente reconhecê-la pela voz. Quando surgiu uma nova vaga, ligada à diretoria de marketing e com exigência de francês avançado, ela se matriculou em cursos gratuitos de ONGs para retomar o idioma, estudou em casa e passou”O não é presença frequente na minha vida, e também é um combustível”, resume.
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Depois de uma passagem pela Cacau Show, em que aprendeu, nas palavras dela, a fazer “a multiplicação dos peixes e pães” do varejo de “empresa de dono”, Simone recebeu o desafio que definiria sua carreira: estruturar do zero a área de marketing da Econocom no Brasil, respondendo ao mesmo tempo à presidência local e ao marketing na França. A fluência no francês, de novo, fez a diferença. O resto foi construção árdua. “As pessoas não conheciam marketing. Achavam que era a área que fazia PowerPoint”, lembra.
A barreira mais persistente, porém, tinha outra forma. Vinda do varejo e do setor automotivo, ela ouvia nas reuniões um refrão: “mas você não é de TI”. A resposta foi um caderno. Simone anotava cada termo técnico que não conhecia, montava um glossário e estudava depois do expediente. O aprendizado se somava a um desafio que nenhum glossário resolve. Nas camadas de gestão, ela era com frequência a única mulher negra da sala e percebia que suas falas não recebiam o mesmo crédito que as de líderes homens e brancos.
O ponto de virada veio no MBA executivo do Insper. Ao entrar em uma das principais escolas de negócios do País, o choque: as poucas pessoas negras que via trabalhavam na limpeza, não estavam nas cadeiras da sala de aula nem entre os professores. “Aquilo mexeu comigo. Percebi que eu poderia ser agente de mudança e mostrar que é possível alcançar posições de liderança vindo da minoria”, conta. Terapia, mentorias e uma rede de apoio de outras mulheres na mesma posição completaram o processo. “Tornei-me uma pessoa que não tem medo de dizer não nem de discordar.”
Simone se incomoda quando a diversidade é tratada como pauta apenas institucional, porque a vê funcionando como ativo de negócio. O repertório de quem veio do varejo, do luxo e do setor automotivo, diz, é o que permite enxergar soluções que o mercado de tecnologia, acostumado a contratar gente do próprio setor, não vê. Foi assim no lançamento da marca Delfia, construída para ser uma empresa “quente” em um segmento de marcas frias. Foi assim também em decisões que contrariam a cartilha do B2B, como presentear clientes com vinhos premiados de um pequeno produtor de São Roque, com rótulos autorais da empresa, em vez do brinde corporativo de sempre.
O mesmo raciocínio orienta sua posição sobre a tecnologia do momento. Enquanto concorrentes montam campanhas com bancos de imagem e inteligência artificial, a Delfia fotografou atores brasileiros para criar acervo próprio, aposta da diretora na proximidade como diferencial. Ela usa IA no dia a dia do time e defende a ferramenta como aliada para tirar a equipe do operacional, mas com uma ressalva que virou máxima: “A IA é o oxigênio, mas as pessoas são os pulmões”. Para Simone, as entregas da tecnologia sem curadoria humana chegam “empacotadas, mas sem profundidade, sem propósito”, e o investimento que falta nas empresas não é em ferramenta, é em capacitar gente para extrair o melhor dela.
Ao fim da conversa, questionada sobre que conselho daria a líderes que querem montar equipes mais plurais, a executiva devolve uma provocação que serve de síntese do próprio percurso. “Batalhem para ter pessoas que pensam e são diferentes de vocês. É no diferente que encontramos soluções diferentes e posicionamos as empresas em um lugar que as outras não alcançam.” A menina da gaveta segue querendo ver coisas. Agora, faz questão de que mais gente como ela seja vista também.
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